REVISTA GUAIAÓ
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ENGUAGUASSU

Capitão Richard Burton e Isabel Arundell – “Santistas”

 

Por Soren Knudsen
Fotografias atuais Marcos Piffer

Sir Richard Francis Burton - Revista Guaiaó 01 por Soren Knudsen

 

Be still, ye green seas, and gently smooth the impetuous wave, that yon venturesome barque may softly glide over thy waters…
“Iracema”, de José de Alencar, traduzido por Isabel Arundell.

Início do ano de 1866. Dr. David Livingstone, renomado explorador da África, partia de Zanzibar em busca da incerta fonte do Nilo nos lagos da África Central. Ele seguiria o caminho trilhado pelo famoso Capitão Richard Francis Burton e John Hanning Speke havia quase oito anos. Livingstone somente seria visto seis anos mais tarde quando o repórter do New York Herald, Stanley Henry, saudou-o com a famosa “Doctor Livingstone, I presume?” Da janela do consulado inglês na Rua da Praia, em Santos, o cônsul fixava um olhar distante para além das rápidas velas latinas dos saveiros cruzando o lagamar, que parecia se estender até o pé do anfiteatro natural formado pela Serra do Mar. Seus pensamentos estavam longe. Possivelmente em Pangim, nas margens do Rio Mandovi, na Goa Portuguesa, onde lanchões – primos indianos dos saveiros – voltavam carregados com a pesca do dia. A luz, as cores, a natureza, a umidade, o movimento nos trapiches, a chuva incessante, o melódico som da fala luso-tropical ecoando nas ruas, nas quitandas, nos terreiros, nas igrejas e no batuque, transportaram-no para lá onde, como jovem oficial do exército britânico, adquiriu uma apreciação pelo modelo português de ocupação e integração social nas suas possessões além-mar. Capitão Richard Burton, o cônsul, que havia desbravado a trilha pela qual Livingstone agora se aventurava, ditava um relato das recentes descobertas na sua viagem pelo litoral sul de São Paulo para a Revista Comercial de Santos, material que provavelmente teria feito parte da prometida, porém nunca publicada, “The Lowlands of the Brazil”.

“Enguaguassu, do tupi he-n, de saída, guaã, de enseada, e guassu, de maior, ‘a enseada grande’, é o nome dado pelos indígenas para descrever o fantástico conjunto de ilhotas, mangue e rios que preenchem o estuário neste nobre anfiteatro, que, visto da barra de Santos, coberto de mata garrida e pontuado por nuvens carregadas, é uma muralha para o oeste, com os picos ao norte e o declive para uma aberta extensão ao leste, formando um majestoso pano de fundo da baía”, ditou Burton.

Sir Richard Francis Burton - Revista Guaiaó 01 por Soren Knudsen

Cenário

O nome Enguaguassu ainda soava no cotidiano para designar a cidade de Santos banhada pelo grande lagamar na saída do Rio Bertioga. Para o olhar do viajante experiente, o local onde Santos se situava era, em muitos aspectos, exatamente igual ao o que ele conhecia da Costa Ocidental da África. O livro “150 anos de Café” detalha: “O fato de Santos estar localizada numa baixada, sem proteção eficaz contra o mar, cria problemas. O calor da cidade pode ser sufocante, pois os ventos do mar não penetram muito para o interior. Sempre que a chuva forte coincidia com a maré alta, a cidade inundava. A febre amarela, uma constante ameaça ao porto, que somente seria eliminada após as descobertas do Dr. Oswaldo Cruz décadas mais tarde, atacou várias vezes a partir dos meados do século XIX com consideráveis perdas de vida. A maré baixa deixava à mostra lama pontilhada com esgoto in natura e carcaças em decomposição”. Burton, com certo sarcasmo, apelidou a sede de seu novo distrito consular de ‘Weston-super-mud of the Far West’ em referência à famosa estância balneária “Weston-super-Mare”, no Canal de Bristol, onde a lama é tão traiçoeira quanto a de Santos, colocando as pessoas em risco de morte caso ficassem atoladas no mangue e a maré as cubrisse, levando os moradores a chamá-la de “Weston sobre a lama”.

O núcleo visceral de Santos seguia o traçado da Rua Direita, onde ainda se achavam as casas de Braz Cubas, Luis Góes, Frei Gaspar, dos Gusmão e dos Andradas. Era definida pelo Outeiro de Santa Catarina, a Rua da Palha (hoje Rua da Constituição), a Rua do Rosário (hoje Rua João Pessoa) e o Convento de Santo Antonio. Os habitantes residiam a redor da atual Praça da República, formada pelas Ruas Septentrional e Meridional, onde Braz Cubas havia erguido seu Pelourinho, mas a cidade já mostrava sinais de expansão além do centro até o sopé dos morros e em direção ao Paquetá e Vila Mathias. Nos morros atrás da cidade, as vistosas torres da Igreja São Francisco de Paula, do Mosteiro de São Bento e da delicada Nossa Senhora do Monte Serrat contracenavam com as do Convento de Santo Antônio, da Ordem Terceira do Carmo, do Rosário, da Matriz e a da capelinha no outeiro de Santa Catarina. Quase que como prestes a mergulhar no estuário, a Capela de Jesus Maria José, com sua eternamente inacabada torre, fronteava o lagamar no final da Rua do Sal a um pulo do consulado inglês. Essa arquitetura Burton conhecia de tantos outros povoados luso-tropicais que visitou na Ásia e África Ocidental. Nela era confirmada a idéia que mantinha sobre o modelo colonial de ocupação que foi ecoada por Gilberto Freyre ao descrever os mestres-de-obras portugueses no ensaio “Acontece que são Baianos”: “Na arte de construção, o brasileiro continua a ser, como outrora o português – nisto auxiliado pelo mouro e enriquecido pela experiência asiática – um criador de valores trópicos: valores do mais profundo interesse humano.”

A supremacia do café se impunha no Segundo Reinado. A partir do momento em que Santos substitui Rio de Janeiro como principal porto devido ao crescente domínio de São Paulo na produção de café, aquela que era uma pequena cidade costeira aumenta rapidamente de importância, movimentando cargas provenientes do Interior embarcadas com destino ao Exterior. Santos volta à vida após quase um século de estagnação. Consulados estrangeiros alinhavam-se nas ruas ao redor dos trapiches precários onde navios ancorados lado a lado carregavam o “ouro verde”. Paquetes da Royal Mail Service e cargueiros aguardavam no Canal ou na Barra para atracarem no cais da Capela, do Bispo, da Banca, do Consulado, do Carmo e do Contracto, que compunham o emaranhado de embarcadouros que existiam antes do porto organizado ser construído. A Guerra do Paraguai, que se tornaria a maior chacina do Mundo Novo, era a notícia do dia e financeiramente comia as entranhas do Império. O mercantilismo inglês ditava o ritmo da vida cotidiana do santista. Gente de toda proveniência e nacionalidade misturava-se no cais, nas praças públicas e nas casas comerciais. O movimento abolicionista tomava corpo e quilombos cresciam atrás dos morros em direção da barra. Tudo isto, junto ao fato de que este magnífico anfiteatro geológico, que uns opinavam ser resultado de um cataclismo causado pelo dilúvio bíblico, guardava os segredos dos seus povos antigos, da colonização portuguesa, do misticismo das religiões afro-brasileiras e era o suficiente para agradar qualquer aventureiro.

Sir Richard Francis Burton - Revista Guaiaó 01 por Soren Knudsen

O olhar do explorador

O Capitão Burton não era um aventureiro qualquer. Era uma lenda viva que aceitava qualquer desafio. A sua biografia é uma série de aventuras repletas de perigo, sexo, drogas e escândalos. Ele detestava o que chamava de “escravidão da civilização” e se divertia chocando a sociedade educada. Questionado se fora verdade que matou um homem no deserto das Arábias, respondeu: “Meu senhor, eu tenho orgulho de lhe dizer que eu cometi todos os pecados do Decálogo”. Foi um dos maiores exploradores que o século 19 produziu, e passou a vida desbravando e preenchendo os últimos lugares vazios dos mapas das potências imperiais. De todas as suas aventuras, aquela que mais marcou pelo ineditismo e pelas subsequentes controvérsias foi a descoberta, junto com John Hanning Speke, do grande conjunto de lagos na África Central que formam as nascentes do Rio Nilo. Porém, atrás dessa imagem de arrogante valentão, existia outro Burton. Era um estudioso, arqueólogo, cientista e tradutor. Profundo conhecedor dos assuntos do Oriente Médio e da Índia. Falava 29 línguas e inúmeros dialetos e explorou as mais inóspitas regiões do subcontinente indiano a serviço da coroa inglesa. Tinha apreço especial aos mistérios dos costumes e rituais de tribos e povos exóticos, em particularmente as de cunho sexual. Suas traduções do “Kama Sutra”, famoso clássico erótico indiano, viriam a escandalizar a Inglaterra vitoriana da época. Era adepto do Sufismo, a corrente mística e contemplativa do Islã, e fez sua peregrinação, disfarçado de afegão, ao túmulo do profeta Maomé, em Medina, e depois à Mecca, centro nervoso do mundo muçulmano.

Era humanista e estava interessado em chegar a um modelo norteador para as possessões do Império Britânico para que não resultassem no ódio contra a metrópole que vivenciou na maioria das colônias visitadas. Como um presságio do banho de sangue da brutal “Revolta dos Cipaios”, em 1857, que deixou o seu irmão Edward num manicômio para o resto da vida depois da sua participação na defesa dos ingleses na Índia, Burton escreveu: “Se o povo da Índia se unisse por um único dia, eles nos expulsariam do seu país como poeira diante de um furacão”.
Por suas andanças em Goa, Burton falava o português fluente. No ensaio “A Expedição de Richard Burton no Rio das Velhas”, Roberto Varejão escreve que também foi em Goa que “lhe despertou a intuição de que os portugueses estariam lançando nos trópicos a base de uma civilização futura, sendo ela pluriétnica, multicultural e religiosamente ecumênica”. Embora crítico de muitos dos elementos, ele entendia que havia algo diferente na abordagem portuguesa daquela usada pelos ingleses. Varejão continua: “… mais do que ocupar uma vaga consular ociosa, talvez fora nessa intuição que residiu o motivo último da vinda de Burton ao Brasil”.

Sir Richard Francis Burton - Revista Guaiaó 01 por Soren Knudsen

Continua [...]

SOREN KNUDSEN Colaborador GUAIAÓ 01

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