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Qual a sensação de ser o maior do mundo?

Highway 61 Revisited – Bob Dylan

Por Julinho Bittencourt
Fotografia Marcos Piffer

Canal 4 - Santos, SP Praia do Embaré

Era uma vez um tempo em que você se vestia muito bem. Se você perguntar a algum músico, desses que toca jazz e decora solos, harmonias, modos e estruturas, provavelmente ele vai te responder que isso é um lixo. São três acordes repetidos sob um palavrório deveras sonoro, e de difícil compreensão,  entoado por uma voz estranhíssima. E é justamente neste signo obscuro, onde forma e conteúdo se misturam feito leite e café, que habita o universo de “Like a Rolling Stone”, o contexto do disco “Highway 61 Revisited” e quase toda a obra de Bob Dylan.

Você diz que jamais teria compromisso com o misterioso vagabundo, mas agora percebe que ele não está vendendo álibis. No entanto, para desespero dos puristas e incautos, se nos fosse permitido uma, e apenas uma foto da América (e talvez do mundo ocidental) da década de 60, a imagem não seria em nada bonita nem no sentido explícito quanto no implícito, talvez nem tivesse cores, nem nos trouxesse algum conforto barroco. Ela teria a expressão de perplexidade da jovem protagonista que Dylan fez a vida rolar feito uma pedra.

Quando você não tem nada, você não tem nada a perder. Agora você é invisível e não tem segredos para dissimular. Havia, enfim, apenas um jeito de mostrar as coisas. Exatamente como elas eram. Ou sempre foram. Faltava apenas a desfaçatez e o talento para tal. Dylan não inventou a roda, mas colocou os pneus. Foi o primeiro grande artista de massa contaminado pelo discurso dos beatniks, entranhado por Shakespeare e pela Bíblia.

Como é estar por conta própria, sem o endereço de casa, como um total estranho rolando feito pedra? A indústria cultural e a cultura de entretenimento finalmente se encontram e se estranham. Artistas prontos a divertir e seduzir se espantam diante do controverso. John Lennon cita Dylan nominal, literal e sonoramente em “Dig It”. O último disco a ser lançado pelos Beatles anuncia um novo tempo. O tempo de Dylan e das verdades estropiadas. O sonho, de que tanto falaram, é um pesadelo e tem, finalmente, um interlocutor.

Você nunca se virou para olhar o cenho franzido dos equilibristas e palhaços, enquanto eles faziam seus truques pra você. Bastaria apenas uma canção, desde que ela fosse “Like a Rolling Stone”, para se fazer o melhor disco de rock de todos os tempos. No entanto, a sede e o talento de Dylan fizeram de “Highway 61 Revisited” um catálogo de algumas das mais originais, inusitadas e melhores composições que o concorrido mundo da música pop já viu juntas em um só álbum. Além do eterno clássico, que abre o disco como quem vai contar uma longa e imaginária lenda, o álbum traz também canções primorosas como “Ballad of a Thin Man”, a própria “Highway 61 Revisited” e algumas outras tão devastadoras quanto, mas com ecos do passado recente de bardo e trovador folk, como “Desolation Row”.

Highway 61 Revisited - Bob Dylan

 

Você nunca deveria deixar os outros se divertirem no seu lugar. O choque que Dylan causou no seu público quando lançou essas canções, em 1965, com sons e instrumentos elétricos, coisa que já havia ensaiado em metade do seu disco anterior, o excelente “Bringing It All Back Home”, foi algo indescritível e inconcebível para os padrões da época. Algo como se Renato Teixeira, de uma hora pra outra, começasse a excursionar com Os Raimundos.  A produção impecável do então novato Bob Johnston, ao mesmo tempo em que divorciou definitivamente Dylan do seu público engajado, ajudou a transformá-lo em um artista do mundo. Talvez o artista pop mais respeitado e cultuado de todos.

Não é difícil quando você percebe que ele não é tudo isso que parecia ser. Estas listas não têm lá grande importância mesmo. No entanto, não deixa de ser emblemático que “Highway 61 Revisited” apareça em 4º lugar na lista dos maiores discos de todos os tempos da revista Rolling Stone. E que, mais ainda, a canção “Like a Rolling Stone” seja a nº 1 na lista das melhores canções da mesma revista. É, enfim, um jeito nada sutil que o universo pop encontrou para homenagear algo que, apesar de não ser exatamente do seu meio, o referenda.

JULINHO BITTENCOURT Colaborador GUAIAÓ 01

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