REVISTA GUAIAÓ
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[ A praia e eu ]

Zizi Passarelli – Mar na veia

Por Gisela Kodja
Fotografia de Marcos Piffer

Zizi Passarelli e filhas na praia de Santos, SP

É um sujeito incomum, que toca a vida por conta própria e tem a alma da nossa praia. De cara, dá pra notar que ele decidiu seguir por uma rota enviesada. Ao contrário da maioria das pessoas, está livre do relógio, a previsão do tempo não afeta a sua rotina e o trânsito… bom, o trânsito não importa porque ele gosta, mesmo, de andar a pé. Descalço até.

Aos 60 anos, José Luiz Passarelli é um tipo “recolhido”. Diz que a vida lhe deu motivos para trocar a rua por um bom livro, um filme, uma reunião em casa de amigos. A essa altura, só a praia tem lugar garantido. Pode ser de noite ou de dia, na chuva ou no frio. Pode ser o único a se arriscar na ventania. Ele segue o seu destino de correr à beira-mar, contando passos como quem sabe rezar. Nem precisa olhar pro chão, porque daquela areia ele conhece cada grão.

Quem segue o seu passo manso pode até imaginar que ele prefere seguir sozinho o seu caminho. Engano. Quando pisa em território sagrado, a conexão é instantânea e tudo alimenta: a energia, a paz e as pessoas, sem distinção de classe, credo ou cor.  Uma das amizades mais importantes começou e terminou ali, na praia. “Com o Velho eu me abria. Falei sobre coisas que não cheguei a comentar nem com o meu pai”. Paraná era o apelido do parceiro de sol e mar. Foram anos e anos ao lado do vendedor de mate mais popular da cidade. Professor-doutor em filosofia de praia, o Velho era também fanático defensor da vida ao ar livre. Essas lições Zizi levou para a paternidade, experiência tardia, que veio aos 37 anos.

“Eu sou da geração das brincadeiras de rua, dos banhos de tanque, das festas juninas. Hoje, os tempos são outros. No fundo das casas tem uma torre de 30 andares fazendo sombra nos quintais. Por isso, eu criei as meninas na praia, ao ar livre, sentindo o contato com a natureza”. Com as filhas Lívia e Helena, a conversa é franca, a admiração é mútua e a relação verdadeira e intensa. Assim como o pai, as duas pegam onda, jogam frescobol e passam os finais de semana perto do mar, em geral, todos juntos.

Esse surfista também é dentista. Por conta do seu ofício, morou em Maresias, onde atendia pescadores acamados em domicílio. “Era um trabalho incrível. Muitas vezes, tive que carregar o paciente no colo até uma cadeira na varanda da casa e, ali, fazia o tratamento. Um atendimento necessário, importante para o povo caiçara, que, infelizmente, acabou”. Foi durante este período que ele se surpreendeu com a sua própria identidade. “No litoral eu não era Zizi, nem Doutor Passarelli. Pela primeira vez na vida fui chamado de Zé. Pode parecer uma coisa sem importância, mas aquilo me tocou de uma forma incrível. Era um jeito simples de chamar alguém que é simples como eu”.

Esse jeito de ser impressiona e encanta, mas tem lá os seus percalços. Um deles, a profunda inabilidade de lidar com dinheiro. “Eu gosto de dinheiro e gosto das coisas que posso fazer com ele. Só não sei ganhar”. Difícil entender como alguém com um carisma tão grande pode ficar fora da roda do sucesso. Ele tenta uma explicação e do fundo dos olhos verdes vem uma resposta resignada: “essas coisas não vieram pra mim”. Mas vieram muitas outras, Seu Zé, qualidades que só a sua imensa coleção de amigos pode atestar.

Zizi Passarelli e filhas na praia de Santos, SP

 

GISELA KODJA Colaboradora GUAIAÓ 01

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