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Mercado da Arte

CLÓVIS GRACIANO – MERCADO DO MARAPÉ

Por Gino Caldatto
Fotografias Marcos Piffer

Painel Clóvis Graciano Mercado do Marapé - Santos, SP

A indiferença coletiva diante do universo cotidiano é um dos efeitos colaterais da vida moderna, sintoma recorrente de quem habita grandes cidades. Um exemplo notório dessa enfermidade urbana se revela no tranquilo bairro do Marapé. Próximo ao cruzamento entre a avenida Pinheiro Machado e a rua Carvalho de Mendonça, diariamente homens e mulheres, à espera do ônibus, dão as costas ao belo painel em mosaico na fachada do mercadinho popular do bairro.

Foi o artista Clóvis Graciano quem o executou, junto ao acesso principal. Organizada no espaço de 6 metros de comprimento por 3 metros de altura, a representação dos mercadores, precisamente idealizados por Graciano como tipos heroicos guardando a entrada do mercado, alimentou em atributos simbólicos a natureza do edifício.

Elaborado com pastilhas de vidro, o mural do Mercado do Marapé é um dos importantes exemplares evocativos da primeira fase do modernismo brasileiro. A estrutura da cena proposta concilia duas vertentes comuns à tradição do painel cerâmico – o padrão geométrico e o narrativo –, expediente que, na perspectiva do autor, o aproxima do observador comum sem lançar mão das referências abstratas na figuração de apelo popular. Escala de tons hierarquizam planos cromáticos para obtenção de relevo e profundidade à composição. Percepção tridimensional que no passado ganhava convencimento maior com a presença do antigo jardim, uma espécie de complemento cenográfico que durante anos fez companhia ao mural.

Em funcionamento desde 1954, o Mercado do Marapé resultou do plano engendrado pela municipalidade em consolidar centros comerciais de bairros por meio de parcerias público-privado. Construído por uma imobiliária, dona do terreno, reproduzia as linhas compositivas inovadoras de um modernismo incomum à cidade. A volumetria compacta e horizontal confiava ao edifício o sensível controle da escala junto à modesta paisagem urbana do bairro operário.

Considerando a simplicidade do empreendimento, a presença da obra de tão renomado artista no bairro do Marapé é um tanto inusitada para a ocasião. Clóvis Graciano já possuía reconhecimento nacional. Havia integrado o Grupo Santa Helena dos notáveis artistas Francisco Rebolo, Mario Zanin e Aldo Bonadei. Membro da Família Artística Paulista, regularmente participava de salões de artes plásticas, conquistando prêmios que posteriormente o levaram a Paris, onde se especializou nas técnicas de elaboração de murais e gravura. De volta ao Brasil, dedicou-se, no início da década de 1950, à produção de painéis em mosaicos e azulejos, ainda hoje encontrados em edifícios da cidade de São Paulo.

O mural de Santos merecia melhor sorte que o contexto vigente. Há tempos, o mercado sofreu desastrosa reforma, comprometendo a conservação do trabalho de Graciano. O tombamento e a restauração sucedida em 2001 foram insuficientes para lhe assegurar beleza e integridade permanentes.

Nas inquietações da vida urbana, enquanto homens e mulheres ignoram os guardiões do mercado, a canção do carro que passa avisa aos incrédulos que o remédio não é só comida, mas sobretudo diversão e arte, por toda parte.

GINO CALDATTO Colaborador GUAIAÓ 01

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