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De bike pela Holanda

Por Jorge Oliveira
Fotografia Gisela Monteiro

Jorge Oliveira pedalando na Holanda - Fotografia de Gisela Monteiro

 

Amsterdã não é aqui. Mas até que poderia ser no que diz respeito a usar as bicicletas como meio de transporte. Já temos muitas magrelas nas ruas. Basta ver como fica a ciclovia da praia nos horários de pico, e como ficam cheias de ciclistas as balsas que fazem a travessia entre Santos e Guarujá. Falta o quê, então? Ciclovias, que vão sendo construídas e o respeito pelo ser humano, que precisa ser cultivado.

Um detalhe muito importante que a maioria das reportagens sobre transportes com bicicletas em Amsterdã ignora é que a prioridade no trânsito lá é para o pedestre, em segundo lugar vem a bicicleta e só depois os veículos motorizados. Aqui funciona ao contrário.

Será preciso um tempo e muitas campanhas para atingir o ideal. É preciso mudar a cultura do trânsito. Os automóveis não podem ser mais importantes que o ser humano. Os motoristas precisam se despir da sensação de poder oferecida pelo volante e pelo motor. As ruas precisam voltar para os humanos. E como veículo para locomoção urbana, nenhum é melhor exemplo de integração homem/máquina do que a bicicleta, já disse o músico alemão Ralf Hüter, do Kraftwerk.

Quem anda de bicicleta por aqui também precisa de educação. É preciso ordenar os espaços. Calçadas são para pedestres, ciclistas devem circular do lado direito da via. Cada um na sua, todos circulando numa boa e respeitando uns aos outros.

Essa organização da rua é uma parte. O poder público tem de fazer campanhas para educar, implantar estacionamentos, as empresas poderiam criar vestiários para os trabalhadores que utilizarem as bicicletas, já que nosso clima também não é o de Amsterdã. São muitos pontos, não é apenas dar uma bike para cada um.

A bicicleta como meio de transporte permite que o ciclista veja a cidade de uma maneira mais próxima. Em escala humana. Pedalando dá pra respirar a atmosfera do lugar, ouvir as vozes das crianças brincando. Sorrir pra quem vem no sentido contrário. Como diz o pessoal do RH: dá pra interagir uns com os outros.

E talvez porque estejam sempre atentos a questões como tempo e espaço, precisem encontrar equilíbrio entre o balanço e o ritmo ideal, os músicos gostem tanto de bicicletas. Outro artista, David Byrne, do Talking Heads, no livro “Diários de Bicicleta”, conclui que o século XX foi do automóvel subsidiado em larga escala. O resultado são cidades projetadas para facilitar a vida dos motoristas, mas que isso chegou a um ponto insustentável, o que significa que este modelo será alterado. Para Byrne,o grande barato é ver as coisas como um pedestre e se locomover de forma integrada à vida que segue nas ruas.

Como escreveu outro grande músico, Marcos Valle, legal mesmo é pedalar por aí sem saber aonde ir, com o vento ventando e gente passando.

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