REVISTA GUAIAÓ
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[ Ficção ]

Terra nova

Por Cid Marcus Vasques
Ilustrações de Paulo von Poser

Ilustração Bacia do Mercado 02 - Por Paulo von Poser

Fato grosso, mala às costas, Zé d’Almeida conseguiu finalmente desembaraçar-se depois de um dia inteiro de aporrinhações. Sufocava naquele armazém em meio à barafunda de gente que o atordoava. Raios partam a sorte! O navio metera proa à terra pela manhã e só agora, a noite a cair, via-se livre. E durante aquele tempo todo a rodar de um lado para outro feito um parvo.

Papéis, encontrões, carimbos, Manoel que não vinha, vistos, bichas, uma entalada dos seiscentos diabos. Fila, não bicha, ó portuga, dissera o gajo a sorrir. Estrangulou a gana de lhe ir às fuças, pensando no murro que poderia ter dado, um murro tão grande que pusesse o patego de molho uma boa data de dias. Abria a boca, vinham as troças, os olhares, as risotas. Lá prás tantas, era o melhor, decidiu não mais dar ouvidos àquela chusma. Sentia sobretudo o calor, a garganta queimando. Um calor que lhe punha a saliva pastosa, uns zunidos na cabeça.

Irritou-se quando o suor começou a colar-lhe a camisa às costas, a empapar-lhe a nuca, a escorrer-lhe pelas pernas. Pranto ou suor, aquelas bagas que agora desciam pelas faces? Passava a mão áspera, corria a língua pelos beiços, puxava o lenço xadrez, mais suava. Desistiu, finalmente, arrasado diante daquele destino de maldição. Que rissem todos, que suasse à vontade, que a roupa ficasse de torcer, porque as tripas estavam, isso sim, a lhe rolar de fome! Pudera, desde as sete da manhã sem meter nada ao bucho! Mas não se atrevia a abrir a mala. Ainda tinha com certeza um naco de pão, ou de chouriço, algumas azeitonas, um resto de vinho. Borra, talvez, porém não fazia mal. E o Manoel, agora ao lado, que não dava por tão grande sofrimento. Ah, se ele soubesse… Alimentado, à fresca, a beata atrás da orelha, apenas dissera ao vê-lo:

— Ai, que vens bonito, pá! Pareces um doutor. Mas vamos, homem, vamos que ‘tás’ na tua terra nova.

Chegara por volta das cinco, descansado, com uma pachorra de gato de cozinha, e agora metia-se a dar conselhos, o sabido. Terra nova, ora gaita! Na terra mesmo nem era bom pensar. Medo que os olhos enchessem d’água. Depois, não ficaria bonito. Um latagão de vinte e cinco anos ali a chorar à frente de todos como menina da cidade. Não daria o gosto àquela cambada mesmo que o coração estalasse.

— Acelera, homem, andas a passo de boi!

Engoliu em seco e encheu os peitos. E maquinou: quem sabe aproveitar o que o Manoel estava a dizer e pôr-se com ele a conversar. A terra, o trabalho, a vida, assim o tempo sempre andaria mais rápido. Enfim, Manoel era amigo. Outros, amigos também, tinham vindo antes, mas fora ele quem o convidara. A carta, ainda na algibeira, trazia lá pro fim: “Trabalho, como cá se fala, por conta própria. Comprei uma bicicleta e vendo o pescado na rua. Igual às varinas. Sofri muito ao princípio. Trabalhei feito um animal, como aí se trabalha na terra, dormindo junto com os bois e gradando de sol a sol sem nunca ter cheta. Hoje, já tenho o tacho garantido na pensão da senhora Amélia. Com uns fregueses certos, cá vou vivendo melhor. Por que não vens ter comigo? Trabalharemos juntos, que só já não dou conta”. Mais abaixo, a assinatura e um PS em letra tão garranchosa que só o padre Amaro conseguiu decifrar: “quem escreveu esta carta foi a menina Maria do Céu, filha da senhora Amélia”.

Largara tudo e abalara prós Brasis. As lágrimas da mãe, da Maria, do Ernestinho, os palavrões do tio Rodrigão, tudo doeu como ferida aberta. Mas não atentou para ninguém. A febre de viajar era maior que tudo, que a mãe, que a terra, aquela terra que fora ninho, berço, esperança e desilusão. Uma veneta, sim, uma veneta que lhe subira dos pés à cabeça.

— Atão, andas ou não andas?

Estremeceu. Ah!, se o Manoel soubesse… Pisou com mais força as pedras do cais, olhou os navios, o mar, o mar até onde a vista alcançava, e respirou fundo. Por um momento teve vontade de parar e pôr-se a conversar com o amigo sobre as noites estreladas na serra, quando a inverneira lhes fazia bater os queixos, as corridas aos melões e às uvas, as porradas do tio Rodrigão, as pândegas da feira com toiros e circos de cavalinhos. Mais uns dias e seria Natal. No Natal havia castanhas e fogueiras, o lume da casa, e a mãe sempre de preto, pele sulcada como a terra, abria-se toda num sorriso de gengivas, desdentada e feliz. O que estariam eles a fazer a esta hora? A Maria, o tio, o Ernestinho… Como tudo ia já tão distante. O grito de um navio estourou o silêncio de guindastes parados. Sentiu que o eco batia nas paredes dos armazéns enfileirados e lhe varava o peito. Vinham as dúvidas, morriam as esperanças.

—Vamos, anda co’isso. São três quadras daqui.

Três  quadras. Mais uma esquina, outra e ainda outra, e os pés a arder como se pisasse em brasas. Encolhia os dedos, esticava-os, manquitolava, a dor continuava. Não conseguia uma posição dentro daquelas botas amarelas, duras como cornos de boi, que o tio Rodrigão obrigara-o a comprar: “Calçado pra toda vida. Quando cá voltares, ora se voltas, ricaço, de anel e corrente de oiro, ainda as terás. Se vais, é preciso que vás bem calçado”.

Três quadras, encharcado de suor nesse fim de tarde calorento. Não olhava as pessoas, não queria ver as casas, a rua. Colou a cara à mala que carregava nos ombros e baixou os olhos. Chão, sarjetas e trilhos. Um elétrico (bonde, corrigiu Manuel) passou apinhado de gente. Numa esquinha, ao sentir a sardinha frita, correu o olhar. Foi quando Manuel cortou:

— Olha, Zé, já se pode ver a casa, é aquela de janelas verdes, ‘tás vendo?’ Arre, homem, descola as fuças dessa mala! Pareces um cegueta.

Ilustração Bacia do Mercado 02 - Por Paulo von PoserNaquele momento, não queria saber de nada, da casa, das janelas, verdes, amarelas, encarnadas, o raio que fosse. De bom grado mandaria tudo às urtigas porque não aguentava mais de fome, de dor nos pés e de saudade. Manuel aguardava, à espera de uma resposta; um desalento sem fim correu-lhe pelo coração. Quem lhe mandara  meter-se em tamanha enrascada. Mas gaita, não se abaixaria. Um homem, quando se abaixa, mais o rabo lhe aparece e é tudo a fazer caçoada, tudo a rir e a apontar. A rua era estreita e suja. Rua de tascas sujas como as crianças ranhosas que nela brincavam. De um lado e outro, muitas bodegas, casas parecidas com as da terra, mesas e bancos ensebados. O cheiro de gordura escapava pelas portas escancaradas e ganhava a rua. Havia serragem no chão,  rádios gemiam fados. Os corpos estavam cobertos de suor, as cabeças baixas, quase mergulhadas nos pratos. À frente, encostados aos balcões, outros homens bebiam e cuspiam. Vez ou outra, mãos cabeludas desciam com força sobre mármore para acompanhar o riso largo. Ao longe, a pensão da senhora Amélia.

— Onde se dorme? — perguntou finalmente.

— Os que chegam, nos porões, é úmido, mas acabamos por nos acostumar. Depois se se progride, nos quartos, com mais três.

— Onde dormes tu?

— No porão, mas logo subo. É deixar rodar o tempo e o destino, completou Manoel com um sorriso.

Desejava perguntar mais, falar sobre a terra, a gente. Acabrunhado e indeciso, calou-se. E de soslaio ficou a apreciar o silêncio altivo que o amigo ruminava.

Ilustração Bacia do Mercado 02 - Por Paulo von PoserAo se aproximarem da casa Manoel alargou o passo, desandando à frente. Tentou acompanhá-lo, vergado ao peso da tralha que carregava às costas. Não conseguiu. E ficou para trás, a cara a pingar, arrastando a sua sina de maldição. Fechou os olhos. Num torvelinho acudiram-lhe à lembrança as palavras da mãe, a partida, o navio, aquela gente toda que se abalava da pátria por mor de muitas coisas desgraçadas, Manoel tão diferente, a terra nova, o futuro…

— Atão, homem, andas ou não andas! Vamos, que perdemos o caldo!

Estremeceu, o peito encolhido, a arfar. Lá estava ele, Manoel, de pé, membrudo e desempenado, à porta da pensão, como se sempre tivesse ali vivido. Será que algum dia seria como ele? Baixou a mala e estugou o passo. Aproximava-se, tendo pela frente o resumo da sua vida: um homem e uma casa. Manoel, agora uma faixa de dentes cavalares onde cintilava um canino de ouro, e um porão, grades de um buraco numa parede.

Largou a mala e subiu. Sob a luz avermelhada de um lustre enfeitado com papel de seda e penduricalhos de vidro, dona Amélia os esperava ao alto da escada. Atrás, como guarda de honra, as filhas. Quatro meninas, nem bonitas, nem feias, que não traziam nas faces as duas rosetas para oferecer como flores aos namorados. Ajudavam a velha, porque o pai, pobrezinhas, esse bebia o dia inteiro. Luiza, Maria do Céu, Carminha e Elvira, que tratavam por Vivi. Nem bonitas, nem feias, esperança casadoira de todos os portugueses daquém e dalém mar que moravam na pensão e nas vizinhanças.

Mas subiu sem se atrever a levantar os olhos receoso de ver algo mais que as varizes da velha e o joelho das meninas. Manoel, não. Seguro, um cigarro entalado nos lábios, como se a casa lhe pertencesse, olhava tudo descaradamente. Corou por ele, e quando chegaram lá em cima sentiu-se incapaz de dizer uma palavra, não desembainhando a língua uma só vez.

Quem falou foi o Manoel. Falou pouco, todo mesuras, mas o bastante para que aquilo durasse uma eternidade. Enquanto o amigo se entendia com a velha, não tirou os olhos do chão. As mãos, não sabia o que fazer delas. Ao escondê-las atrás das costas por pouco não pôs as cortinas abaixo. Mais fazia para se livrar, mais o botão do fato se enredava nos laçarotes da cortina. Foi preciso que a menina Vivi, com vagares de endoidar um santo, corresse a ajudá-lo. Encandeado, quase estourou de vergonha.

Acertada a vida, Manoel tomou-o pelo braço desceram as escadas. E aquelas malditas botas a fazer um barulho de trovões. Raios partam a sorte! Percebeu vagamente que dormiria no lugar antes ocupado por um certo Zé Tamanqueiro, com direito a comida e a roupa lavada. Aos domingos, só o almoço, com um copo de vinho. Dois, informou o Manoel, se caísse nas boas graças das meninas. E que se atirasse, deixando de lado a Maria do Céu e a Carminha. A primeira andava de caso com ele e a outra com um tal de Miro, jogador de futebol.

A cabeça fraca e esvaída, grudou-se ao vulto de Manoel que avançava firmemente para a porta do quintal. Sons vindos de algures tornavam aqueles momentos mais amargos. Era um cão a lutar com as sombras, era uma voz aguda de mulher bradando por uma criança, era o grito estridente de um comboio. Ergueu os olhos à procura do céu. Lá em cima, a grande quietação da noite, com as suas primeiras estrelas, tão puras e tão brilhantes.

Aos poucos, acostumava-se àquela penumbra de muros altos, escadas e grades. Caminharam alguns metros, desembocando finalmente no que parecia ser o quarto onde dormiria, uma pocilga tão cheia de camas e arames que alastrava até por fora. Toalhas, camisas, ceroulas, tudo pendurado como bandeiras naqueles fios que se cruzavam à altura das cabeças, obrigando-os a andar curvados ali dentro. E, pairando, o mesmo cheiro acre que lhe subira ao nariz durante todo o caminho, o cheiro de tabaco e bafio dos porões, que mal se podia respirar. Aquele era bem o quarto…

Sentiu os joelhos a dobrarem-se, os rins a formigarem e tonturas na cabeça. Mas não seria agora que se abaixaria. Era um homem acostumado aos tombos da vida, lá isso era… Sacudiu os ombros, como quem se desfaz de um fardo, e entrou. O olhar atravessou as grades, batendo no negrume da noite: a lua começava a sua lenta caminhada. Tentou falar, mas as palavras embrulharam-se num travo amargo que lhe ficara na boca. Então, no curso de tão grande desalento, jogou a mala ao chão e agarrou-se às grades. De todo espanto e dor, foi só o que pôde arrancar do fundo da alma.

Ilustração de Paulo von Poser - Revista GUAIAÓ 02

CID MARCUS VASQUES Colaborador GUAIAÓ 01PAULO VON POSER Colaborador GUAIAÓ 01

 

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