REVISTA GUAIAÓ
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[ Cinecidade ]

Lugar nada comum em alguma floresta

por Flávio Viegas Amoreira
fotografia Marcos Piffer

Adentrar a floresta densa da memória. Essa a natureza do ensaio: variações de relevo a partir do atemporal. Encontrar uma clareira que revele o sentido profundo de um tema. Onipresente e vago arquétipo da mata refúgio, pureza. Diana caçadora e Pã, entrega e medo. O imaginário urbano do homem moderno varia desde a Arcádia grega, o ‘mundo intocado’ em Montaigne, o paraíso perdido de Milton, bucolismo idílico nos românticos Shelley e Byron até o reconhecimento visual em Franz Post e Rugendas, chegando ao colonialismo da jungle de Kipling.

O cinema e a floresta demoraram a se encontrar, até que se criasse quase um subgênero recheado de clichês. Prato feito para a América, “Green Mansions”, de Mel Ferrer, numa tentativa funesta de direção, protótipo perfeito para a ‘semiologia do estereótipo’, é o primeiro filme quando vêm à mente ideias soltas de floresta. Veículo paradisíaco à Audrey Hepburn e Anthony Perkins, campeão de reprises nas sessões vespertinas nos anos 70, a fita é raridade na ‘arqueologia de cinéfilos’ pela comicidade de títulos em português oscilando entre o óbvio “A floresta das Amazonas” até “A flor que não morreu”.

Argumento tão batido quanto os leitmotivs dum Lohengrin e Elsa tropicais: o herói forasteiro em busca dum idílio tropical, La Hepburn como Rima, improvável índia physique du rôle da Park Avenue. Estreado em 1959, cairia como luva feito samba-enredo standard dos carnavais industrializados. Seria no máximo um grande instrumento para Stefan Zweig de “Brasil, País do Futuro” dirigido pelo magistral Wes Anderson do “Grande Hotel Budapeste” ou romance turbinado por Bernardo Carvalho de “Nove Noites”.

Ainda me espanta que um universo de diversidade galáctica ainda inspire um repertório tão reduzido de referências e mitos padrões quanto Amazônia… O canto do uirapuru e a lascívia atribuída ao boto refletem folclorização ao invés dum aprofundamento em matizes duma bioesfera caleidoscópica. Um dos caudalosos relatos de Orlando Villas-Boas desdizem com riqueza meticulosa a pretensão de um zoom ou tomada aérea.  “Se uma imagem vale mais do que mil palavras, então diga isto com uma imagem”, dizia Millôr. Floresta é minúcia antes de exuberância e predação: o tão decantado ‘pulmão’ é um órgão pulsante duma organicidade. Cada árvore é um discurso. Portanto, narrativas e imagéticas precisam estar à altura dos signos rizomáticos: voracidade vegetal.

O grande lance dessa fita foi a encomenda da Metro de trilha sonora de Villa-Lobos: rara ousadia de estúdios acostumados com importação fake do que supõem ser o mundo abaixo do Rio Grande. “

Green Mansions” ficou para eternidade literalmente pelos desacertos da Metro com Villa e o que o gênio produziu: uma suíte sinfônica que desaguaria num clássico da canção: “Melodia Sentimental”. Feita a partir de poema de Dora Vasconcelos, a peça amantíssima foi interpretada de cara por Bidu Sayão e resultando tour de force para vozes preciosas do erudito ao popular. Kathleen Battle, Maria Bethânia e Ney Matogrosso são virtuoses a perenizar esse fruto duma flor exótica que Hollywood deformou.

Villa-Lobos morreria sem ver o filme pronto. Foi substituído por compositores da segunda linha californiana e, como Schoenberg, foi mais um gênio que o cinema de massa não alcançou. Os desdobramentos musicológicos podem ser vistos hoje como ‘composição ecológica’ que Tom Jobim depois aprimoraria.

Talvez o cinema seja, no século XXI, cultivado por iniciados como a ópera novecentista no século XX: na miríade de pérolas esquecidas lá entre a mitológica beleza de Audrey Hepburn e o simbolismo edênico da floresta, resgatarão os acordes da trilha sonora que Villa-Lobos, sem completar, deixou ao seu companheiro Tempo reavivar..

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