REVISTA GUAIAÓ
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Os sons da Floresta de Egberto Gismonti

por Julinho Bittencourt
fotografia Marcos Piffer

Uakti tinha um corpo cheio de furos que, quando atingido pelo vento, provocava sons mágicos que encantavam as mulheres. Os homens da tribo, enciumados, o mataram. No local onde foi enterrado nasceu um bambuzal que, assim como ele, quando atingido pelo vento, também produz sons encantados. Os bambus que nascem desde então, sempre que tocados com a mesma paixão do vento, prosseguem por milênios na sua missão de encantamento.

Jacuí é uma flauta sagrada que os índios Yawaiapiti, do Alto Xingu, usam para falar com os deuses. Lá pelos primórdios, quem tocava a Jacuí eram as mulheres da tribo. Certo dia, os homens tomaram-lhes as flautas e criaram a casa sagrada, a casa da música, bem no centro da aldeia. As mulheres não entram por lá até hoje, mas cantam de fora. Os homens, como não podem tirar-lhes a voz da garganta, passaram a fazer música junto com elas.

Poucos são os homens chamados para a casa sagrada.

Poucos são os homens que podem e sabem falar com os deuses.

Egberto Gismonti esteve no Alto Xingu, em 1978, para conhecer os sons e os mistérios do povo Yawaiapiti. Conheceu ali o pajé e xamã Sapain. E, sim, foi convidado para ir à Casa da Música. Sapain, segundo conta o próprio Gismonti, deixou claro a ele que seus caminhos se cruzavam ali, mas que, a partir daquilo, cada um seguiria o seu caminho. Ainda de acordo com o cacique, Gismonti dispunha de várias vozes além da Jacuí e deveria usar todas em todas as partes. E assim foi feito.

O mergulho de Gismonti no Alto Xingu fez o músico rever, sobretudo, a sua relação orgânica e espiritual com a criatividade. A partir de então, ele passa a perceber a si próprio, a música e o instrumento como um ser uno, conforme a nota que publicou na capa do disco Sol do Meio Dia – conhecido entre seu público mais próximo como “Sapain” -, que gravou logo após a sua volta mítica: ”A música deste álbum é dedicada a Sapain e aos índios do Xingu, cujos ensinamentos foram tão importantes para mim durante o tempo que passei com eles na selva amazônica, sua cor e mistérios: o sol, a lua, a chuva e os ventos, o rio e os peixes, o céu e os pássaros, mas, acima de tudo, a integração do músico, música e instrumento em um todo indivisível”.

O álbum, dividido em duas partes, conta no seu lado A (sim, trata-se ainda de um LP) com quatro temas: “Palácio das Pinturas”, “Raga”, “Kalimba” e “Coração”. No lado B, outros quatro temas instrumentais (incluindo as vozes dele e de Naná Vasconcelos, que são usadas como instrumentos em efeitos e cantos tribais) executados como se fossem uma coisa só: “Café / Sapain / Dança Solitária No. 2 / Baião Malandro”.

Em todo o disco, seguindo a recomendação de Sapain, Gismonti alterna vários instrumentos como violão, piano, flautas de madeira, kalimba e garrafa de cerâmica, todos executados com a maestria de sempre. Convocou para a empreitada alguns poucos músicos de diversas partes do mundo que estavam despontando no selo independente europeu de jazz ECM: o saxofonista norueguês Jan Garbarek, o percussionista americano Colin Walcott e o violonista também americano Ralph Towner, além do percussionista brasileiro Naná Vasconcelos, seu parceiro no álbum anterior, de 1977, o premiado Dança das Cabeças.

Os cinco músicos quase não tocam juntos, apenas em faixas separadas, o que torna o disco enxuto. Perceber o que a experiência na floresta trouxe para a música de Gismonti não é coisa muito fácil e aparente. As influências vão muito além de sons orgânicos e tipicamente tribais. Trata-se mesmo, conforme relatado acima, de algo muito mais subjetivo e místico. O seu “Baião Malandro”, por exemplo, está originalmente muito mais voltado para a sua formação erudita do que qualquer outra coisa. Posto assim, no final de tudo, o tema parece mesmo querer indicar a conclusão de um ciclo onde homem, música e meio ambiente alcançam a quintessência, a prontidão para o próximo passo. Um ciclo infinito onde o homem produz a partir do meio e reproduz e respeita este meio a partir do que faz.

Gismonti usa tudo o que dispõe para produzir a sua música. A melhor porta de entrada para ela talvez não seja o Sol do Meio Dia. Para chegar até ali ele precisou, além de estudar a vida toda, alcançar o mais ascendente de si e de todos nós. E nos convida para a viagem, que é longa e cheia de percalços. Mas, no fim, repleta de recompensas.

Nota, com certo remorso – A importância que o Brasil dá a seus povos ancestrais, particularmente aos índios, pode ser medida por uma simples busca no Google. Digite lá: índios Yawaiapiti, do Alto Xingu e vão aparecer centenas de resultados sobre… pasmem, o compositor e multi-instrumentista Egberto Gismonti. O fato é que, não fosse o músico ter passado um mês entre eles e posteriormente feito um disco sobre a visita, provavelmente nunca saberíamos nada a respeito, assim como não sabemos de nada que se passa no fundo do profundo de nossas florestas.

 

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