REVISTA GUAIAÓ
  • A praia e eu

[ A praia e eu ]

Natureza Sempre!

texto e fotografia Marcos Piffer

Como um longo e generoso rio, a vida de MONICA SCHALKA flui entre pessoas carregando possibilidades de crescimento. Este rio começou a se aproximar da Natureza nos anos 1960 em BERTIOGA, numa época em que a região se apresentava bem rústica e nativa, e por isso mesmo com um quê de encantamento. A cada período de férias, durante quase duas décadas, Mônica e um grupo de amigos se embrenharam por matas, mangues, rios e praias quase intocadas, criando para si um universo único e lúdico que ficou para sempre sedimentado na memória. Mas, como o final de um sonho bom do qual não queremos acordar, os anos 1980 chegaram e com eles estradas asfaltadas e outras recém-abertas transformando por completo o cenário, quebrando relações ambientais e fazendo com que o grupo se dispersasse partindo cada um em busca de suas formações profissionais…

Paulistana, filha de um Tcheco com uma Cearense, Monica graduou-se em Sociologia, casou, teve 3 filhos e viajou muito pelo mundo. E continua viajando muito, pois para ela e para a família viajar representa um aprendizado e um estar aberto para o mundo, postura que imprimiu nos filhos desde pequenos.

Das viagens pelo mundo o rio correu para a FOTOGRAFIA. Sentindo a necessidade de melhorar os registros dos muitos lugares por onde passava, Monica buscou um curso para melhorar sua técnica. Este curso desembocou logo depois numa graduação em Fotografia na Escola Panamericana de Artes em 2013, onde seu trabalho de conclusão de curso vai desvelar o modo de viver da comunidade de ilhéus do Montão do Trigo. Numa aproximação a princípio para realizar esta documentação – “Montão e sua gente distante” –, Monica se tornou depois uma intermediadora entre a comunidade e suas carências mais básicas, facilitando o acesso a médicos e advogados, amigos que se juntaram à sua causa. Crê que esta e outras comunidades semelhantes necessitam, na verdade, “serem respeitadas, mais do que permanecerem intocadas”.

Se por um lado sua fotografia pessoal prossegue com esta intenção de mostrar pequenos grupos humanos e isolados, por outro a fez também se reaproximar da Natureza e, consequentemente, de Bertioga. Por causa dela, suportou um frio de -30°C na Noruega para ver e fotografar a Aurora Boreal e subiu o morro do Saco do Mamanguá, em Paraty, num workshop, onde sua energia fez inveja a muitos dos outros participantes. Também esteve de madrugada na Serra do Cipó para fazer uma imagem do céu estrelado, e dentro da Mata Atlântica – com o amigo Du Zuppani –, prendendo o fôlego e aprendendo a fotografar o sutil universo das pequenas plantas e insetos.

No ano passado, o rio da vitalidade de Monica desembocou na sua mais recente foz, que é o trabalho de curadoria de fotografia e a criação de uma editora, a Vento Leste. A editora é uma continuidade deste ideal de “dar voz aos locais”, viabilizando a publicação de trabalhos, fotográficos ou não, que não teriam aceitação do grande mercado. Seu primeiro título, às vezes água, às vezes terra, resgata laços de amizade e a ligação primeva com Bertioga – uma Macondo litorânea segundo os amigos dos anos 60, referindo-se à mítica cidade do livro Cem Anos de Solidão –, pois une fotografias da região de autoria do Du Zuppani e textos do poeta e também amigo Miguel Bichir.

Correndo na contracorrente das grandes editoras, seus próximos projetos nos trarão um livro sobre a produção do guaraná na Amazônia e outro com registros de histórias de Bertioga dos anos 1960. Trabalhos essenciais que precisam chegar até nós, e que sem a força da correnteza de Monica Schalka não seriam revelados.

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