REVISTA GUAIAÓ
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Velha estrada de Santos

por Gino Caldatto
fotografia Marcos Piffer

 

Encontra-se escondida, em meio à vegetação da Serra do Mar, a velha estrada de ligação entre o Porto de Santos e o Planalto Paulista. A conhecida “Calçada do Lorena” foi o terceiro caminho adotado pelos viajantes no período colonial para vencer a barreira natural de oitocentos metros de altura da escarpa serrana e aproximar o litoral do Interior.

Os primeiros acessos estavam baseados nos antigos sistemas viários remotamente sedimentados pelo habitante nativo; eram trilhas rudimentares que tornavam a superação do trecho montanhoso em um feito quase heroico. Por caminhos íngremes abertos com facão na densa mata, o viajante teria atenção redobrada ao transpor a pé lamacentas e ameaçadoras encostas, quase sempre visitadas por tribos hostis e animais selvagens. Desde tempos remotos, a viagem pela Serra era uma atividade de alto risco.

Em meados do século XVIII, a ligação entre litoral e planalto estava um verdadeiro caos. Ao transferir o monopólio da exportação de todos os gêneros da Província de São Paulo para o Porto de Santos, o Governador Bernardo José Maria de Lorena fomentou prosperidade à região na mesma proporção em que lhe acarretou uma série de problemas. Considerando que a infraestrutura existente não atendia mais as crescentes demandas, investiu, entre outras medidas, na construção de nova rota para o fluxo da crescente produção de açúcar. Concluída em 1792, a “Calçada do Lorena” superava de modo rápido e seguro a desafiadora região serrana e saneava de vez a morosidade no trânsito do sistema viário. Mais larga que as antigas vielas abertas na mata, a nova estrada serpenteava a montanha e trazia o calçamento de pedra em todo percurso como novidade adicional. Cuidados com a erosão das intempéries também foram pensados. As curvas inclinadas da Serra continham pontos para dissipação das águas pluviais desviadas para fora da via e conduzidas por canais. Até o monge beneditino Frei Gaspar da Madre de Deus se encantou com a obra, tratada por ele como ladeira espaçosa, por onde subia com pouca fadiga e descia com muita rapidez. Foi por ela que Dom Pedro I cavalgou pela Serra no dia sete de setembro de 1822 e, às margens do Ipiranga, proclamou a Independência do Brasil.

A denominação, em homenagem ao Governador, não omitiu o crédito principal do projeto viário ao seu verdadeiro autor. Obra de engenharia exemplar, fora idealizada pelo Brigadeiro João da Costa Ferreira, profissional formado na Real Academia Militar de Portugal. Ferreira era natural de Lisboa e, na cidade natal, atuou nas obras para reedificação da capital do país assolada pelo fatídico terremoto de 1755. Chegou ao Brasil junto com Lorena, em 1788, permanecendo em São Paulo por toda vida realizando inúmeras diligências para melhorias da infraestrutura local.

Patrimônio histórico do Estado de São Paulo, a “Calçada do Lorena” teve funcionamento restrito passados cinquenta anos de sua inauguração. Lentamente, foi abandonada na medida em que novas rotas se impuseram para solucionar o intenso movimento de café para o Porto de Santos. A Estrada Caminho do Mar, construída para automóveis no início do século XX, consumiu parte do seu trajeto, encerrando de vez qualquer possibilidade de reativação.

Se você pretende saber como eram as pioneiras curvas da Estrada de Santos, é possível fazer agendamento para visita ao trecho inicial restaurado no ano do seu bicentenário. Novamente poderá encontrar as pedras assentadas sobre o chão, ladeiras em zigue-zague repletas de flores e galhos por todos os lados como silenciosa homenagem do tempo a Ferreira, Lorena e à sua eternizada “Calçada”.

 

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