REVISTA GUAIAÓ
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[ Field Notes ]

Arte Concreta

por Soren Knudsen
fotografia Cássio Vasconcellos/SambaPhoto 

 

11h32min – 07 de março 2015 – 23°44’18,23”S 45°33’03.25”O

São Sebastião, SP

Três horas na trilha. Suada. Seguimos o vale chegando cada vez mais perto do topo da Serra de Boiçucanga. Atravessamos rios que despencam em cachoeiras espetaculares. Na água cristalina refrescamos o corpo e a alma. Mata úmida. A maior diversidade de flora e fauna no Planeta. O sopro do vento. O borbulho das corredeiras. A voz do espírito da floresta.  Ela está conosco.

A sinfonia nos acompanha pela selva fechada. Do sussurro da mata sombreada, uma imensa clareira. Cena de ficção apocalíptica. A gigante estrutura de concreto armado se eleva a mais de 80 metros do chão.  Domina o horizonte. A pista começa e termina onde vestígios de maciça terraplanagem rasga a serra. Trezentos metros de viaduto rodoviário lentamente sendo retomado pela Mata Atlântica.

Lembrança concreta do milagre econômico brasileiro e a política de integração nacional. No delírio dos governantes dos anos 70, a construção da Transamazônica e a Rio-Santos eram consideradas prioritárias.

Uma vergonhosa cicatriz. Não concluídas, suas esplêndidas obras de arte foram esquecidas na mata.

Planejada para a melhoria da qualidade de vida do Litoral Norte, o desvio da Rio-Santos do seu traçado original transformou a obra inacabada em símbolo da destruição da cultura caiçara, do desmatamento progressivo da Mata Atlântica, da ocupação ilegal da zona costeira e o mais cruel exemplo de falta de planejamento urbano e desperdício de investimentos públicos.

 

 

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