REVISTA GUAIAÓ
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[ Uma História ]

Redenção In natura

Por: Soren Knudsen
Fotografias: Marcos Piffer

“Mas no tempo não havia horas.”

Graciliano Ramos

“Há muitos anos começou a chover sem parar. O povo assustado subiu a montanha para escapar das águas…  Tudo o que andava, nadava, voava ou se arrastava foi varrido da terra pelo dilúvio.” Assim conta a lenda do povo da floresta.

A noite escuta a respiração calma e serena da floresta. No escuro seu corpo recupera a força, a energia abastece a alma, o espírito se fortalece. O vento acaricia o ser, as águas alisam o corpo e o frescor da noite acalma os ânimos.

O dilúvio rasgou seu corpo, feriu sua alma e a água transgrediu o seu intimo. Tudo o que conhecia e tudo que era foi levado pela força bruta, incontrolável e violenta. Tudo mudou num momento de cataclismo. Deixou cicatrizes.

Amanhece. O sol esquenta sua face. A luz oferece esperança. Amanhece de novo, de novo e muitas vezes mais. Da terra lavada surgem cores, perfumes e encantos que a enfeitam e protegem seu pudor. O corpo bronzeado recupera sua majestade. Não está sozinha e desprovida.

Lentamente, o tempo dá lugar ao tempo. Os sons do trovão, do vento, da chuva, das aves. Nuvens pintam o horizonte em tardes multicoloridas. As montanhas. Os rios. A mata. O mar. O silêncio no ar. Ela vive um momento de tranquilidade. O espírito da floresta está em paz.

Conchas
No horizonte, canoas. Chegam do leste. Gente pequena, pele escura, cabelos revoltos, corpos fortes. Remadores, gente do mar. Pisam na areia como se pela primeira vez. Terra firme após meses vivendo sobre a água.

Enterram uma recém-nascida. A jovem mãe cobre a filha de flores e o xamã coloca um pequeno tubarão esculpido em pedra junto ao corpo da criança. Proteção na passagem para o outro lado. Cobrem a pequena cova com conchas que lembram o grande mar de onde vieram.

A pequena tribo se alimenta e se abriga da abundância da mata. Colhem raízes, frutos e sementes. Caçam e capturam pequenos animais. Pescam nos rios e nas enseadas. De tempos em tempos, baleias encalham na praia. Delas aproveitam tudo que podem. Constroem abrigos comunitários para se proteger contra intempéries e animais. Pelo que a mata lhes provê deixam oferendas nas beiras dos rios para agradecer a grande mãe que lhes acolheu.

Com suas ferramentas de pedra e anzóis de osso, o bando vive bem à beira do grande mar. Em cabaças, guardam comida e água. Crescem em número e alguns partem para outras praias.  Outros sobem para o planalto, além da grande muralha que se levanta na floresta.

Falam uma língua onde não há sistema de contagem, nem termos fixos para as cores. Não existe o conceito de guerra, propriedade particular, preocupação, inveja, vingança e do “não”. É um povo feliz. O espírito da floresta se sente vivo em cada um deles. Ela cuida dos seus filhos.

O tempo passa e o pequeno monte de conchas cresce e cresce. Ali, os mortos são enterrados e os ritos de passagem são comemorados a cada solstício. Já não lembram por que aquele local foi escolhido pelos seus antepassados e nem de onde vieram. Sob o céu estrelado, o xamã aponta para uma estrela mais brilhante. Cinco estrelas formam um grande mapa celestial em forma de cruzeiro. O caminho para a terra ancestral.

Praieiros contam sua história esculpida nos costões rochosos, deixando lembranças nas ilhas do litoral e nos imensos montes de conchas. Histórias sobre festas, danças, amor, vida e morte. São felizes no seio do espírito da floresta.

Penas
Há tempos ela observa um outro povo. Ela se preocupa com os seus filhos. Parecem dóceis e ingênuos comparados com a agressiva tribo-das-penas que se aproxima. Chegam do norte. Atravessaram o mar congelado, altas colinas, grandes planícies férteis, imensos desertos e montanhas espetaculares para chegar à úmida mata tropical.

Eles são diferentes. Corpos ágeis, olhos amendoados, cabelos lisos e pele morena. Fazem vasilhas de cerâmica para guardar comida e água. Com penas se enfeitam. Com cores das sementes pintam o corpo. Lançam varetas com rabo de pássaros que assobiam ao cruzar o céu e derrubam a caça.

Um casal de praieiros nada numa piscina cristalina na encosta da muralha. Ela escuta os ecos dos risos e dos gemidos ofegantes. Intrusos os observam. Para alertá-los, ela espanta as aves que tomam voo aos gritos. O casal, consumido um pelo outro, não percebe o perigo.

Pintados de vermelho do urucum e cobertos de penas, os intrusos cercam o distraído casal. Surpreendidos, o jovem protege sua companheira, mas um assobio o derruba. Sua amada é arrastada para dentro da mata. Os homens-das-penas a levam para fora do alcance dos praieiros.

Cada vez mais valentes, os intrusos percebem a vantagem que têm sobre os que lá estão. Avançam sobre os homens-das-conchas. Do planalto, descem pelas trilhas feitas pelos praieiros. Pegam a caça das armadilhas, recolhem os peixes dos anzóis na água e os estoques de comida.

Levam as canoas. Roubam as jovens e matam os homens, as crianças e as velhas. É com tristeza que a floresta testemunha o último praieiro, empunhando uma faca de pedra lascada, ser vencido pelo assobio que vem do céu. A mata nunca mais ecoa a fala alegre do povo-das-conchas.

A tribo-das-penas apodera-se das calmas baías e dos mansos rios que os vencidos tão bem conheciam há tantos verões. Do topo dos montes de conchas defendem o território conquistado. Nos montes, enterram os seus guerreiros envoltos em mantos de penas. Cerâmicas, armas e utensílios usados por eles ali são deixados.

Tomam a floresta para fazê-la de sua casa. Onde a mata oferece abrigo queimam-na e limpam-na. Quando a terra se esgota, migram para outras regiões. Onde deixam a cicatriz aberta, o verde se recupera. Mais mortíferos que os seus primeiros filhos, esses guerreiam contra os vizinhos. Em ritos, devoram a carne dos seus vencidos para possuir o seu espírito.

Com orgulho, intitulam-se como “os primeiros”. Sua língua entona palavras de guerra, vingança e ódio. Seu deus, o senhor do trovão, chama para a batalha. Exige oferendas de morte e destruição.

Com seus costumes bárbaros e tradições bélicas, esses filhos mais violentos são acolhidos pela mata. O povo-das-penas se multiplica rapidamente e exige cada vez mais recursos da mãe. Abundante, ela os fornece. Na beira do rio, o sacrifício é de

vorado por um bando de urubus. Sangue forte é pago com sangue. Mas algo novo está por vir.

Panos brancos aparecem onde o mar encontra o céu. Uma cruz vermelha empurra as naus para o destino. Ho

mens de pele clara, certos de estarem fazendo a vontade do Senhor, desembarcam para salvar os filhos do trovão do fogo do inferno.  E tomar sua terra.

Pano Do convés das caravelas, os forasteiros de batinas marrons observam os donos da terra. Pagãos. Pecadores. Não dignos do paraíso prometido. A Inquisição pisa nas areias. É converter ou morrer. O seu poderoso Deus castiga com fogo que salta do corpo. A catapora é a morte que vem do céu sem rabo de pássaro ou assobio. Mata homens, mulheres e crianças sem dó.

Logo, a terra é do novo Deus. Para colher riquezas e dar pastagem aos seus animais, a floresta é derrubada

A velocidade surpreende a mata. Dessa vez não consegue se regenerar, pois os novos invasores se fixam e o uso de terra é intensificado. A floresta dá sem receber. Ela não consegue se recuperar. São muitos os filhos do povo-de-pano. A relação entre o espírito e os recém-chegados é desigual.  O Deus desses homens dá a sua bênção para consumir tudo o que estiver ao seu redor. A floresta está sozinha contra muitos.e queimada. A necessidade de madeira para caldeiras de engenhos, casas, barcos e construções consome a mata. Navios de porões cheios partem para o leste. A tintura cor de brasa é uma mina de riquezas. O sangue da floresta corre nas mãos dos estilistas da corte europeia.

Pedra
O povo do trovão desaparece da costa. Somente os nomes que deram aos rios, baías, enseadas e montanhas ecoam no silêncio da mata. Nas calmas baías, os da batina arrasam as aldeias e constroem os templos do seu deus. Os monte

s de conchas passam a ser matéria-prima necessária para erguer a casa dos filhos da Inquisição. Construa e eles virão, está escrito em latim.

As caieiras queimam dia e noite. Missões, igrejas, fortes, cadeias e casas de governo consomem milhares de conchas.  Crânios, esqueletos, enfeites, colares, cabeças de machados e cerâmica são triturados e incorporados na argamas

O deus do trovão não é mais páreo para o Deus do fogo-que-salta. Com a benção do Pai, do Filho e do Espírito Santo, os da batina lançam sua cruzada sobre a floresta. Sob o crucifixo, desbravam suas entranhas. Rasgam seu corpo, abrem seu íntimo e expõem sua alma. Com brutalidade e indiferença arrancam seus pertences. Suas veias são deixadas abertas.sa entre as pedras que constroem a terra sob o Cruzeiro do Sul.

Avançam planalto acima pelas trilhas que “os primeiros” usaram para tomar a terra do povo-das-conchas. Caçam o que sobrou do povo-das-penas. Buscam os sem-alma para tomar-lhes o corpo e salvá-los da perdição. No laço, as mulheres-das-penas geram os filhos da Inquisição. Por mais que a mata se feche para poupá-los, os desbravadores abrem-na com ferro e fogo.

São abençoados na caça de esmeraldas, diamantes e ouro.  Fortes protegem a presença do Divino e os interesses da coroa. O dízimo das riquezas alimenta o barroco, a beleza, a glória e a honra. As irmandades constroem seus templos. Na argamassa, as almas penadas dos vencidos.

Seguem as antigas trilhas dos filhos do trovão rumo ao extremo norte. Avançam sobre o cerrado. A savana sul-americana. A floresta seca. Solo pobre, vida abundante. Nascente dos grandes rios do continente. Queimado, dá lugar à monocultura. É pisoteado por milhares de cascos de gado. A floresta já não tem mais como reagir. Seu espírito está enfraquecido.  Povo brutal.

Coroa
Pele negra, cabelos revoltos, fortes. Um povo acorrentado é desovado nas areias para trabalhar. Construir império. Muitos. Muitos mesmo. Nos orixás, trazem o espírito da floresta, talvez da terra do povo-das-conchas. Deixam oferendas para a grande Mãe. Ela se lembra de outro tempo e de outro povo. Eles, de outro lugar onde eram livres. No chicote, as mulheres geram os filhos dos senhores dos engenhos.

Um rei também desembarca na areia.  Com sua rainha desbocada, traz o velho mundo para o novo.  A corte. A burocracia. A indolência. Os favores. A impunidade. A escravidão plena para que os nobres não tenham que trabalhar. Por decreto do rei, trabalhar é perder a nobreza.

Fruto dessa terra, seu neto escuta o chamado da floresta. Cuida dela, protege suas matas, suas águas e seus animais. Estabelece defeso, limites e conservação para que as futuras gerações possam, como ele, serem felizes na terra natal. Para que a harmonia seja restabelecida. Para que a floresta possa se regenerar e manter o vigor.

Mas como foi para tantos outros filhos da terra, a ganância e a avareza rejeitam o menino imperador e o expulsam. Preservar não. Explorar sim. Tomam-lhe as terras e quebram-lhe o espírito. Com o dele, o da floresta. Do nobre pavilhão verde e amarelo arrancam a coroa e desenham o Cruzeiro do Sul do céu da república.

Concreto
Traços virtuosos no papel. No meio do cerrado, uma imensa cidade é erguida com o suor de milhares de filhos da terra. O futuro de concreto e aço. Abrem caminhos para a sua capital desprovida de cor e de vida. Monumento homérico para a herdada burocracia.

Debruçados sobre seus mapas, os generais desenham linhas com destinos incertos.  Integrar para não entregar. Um espaço não ocupado não é defensável. Tomar a terra por completo. Rodovias para derrubar a mata. Estradas para escoar a sua riqueza. Mata não serve para nada. Tem que produzir para ser útil. Alimentar o povo do país do futuro.

Nem os grandes rios, nem as serras mais acidentadas ou as regiões mais áridas os detêm. Com correntes e máquinas, domam a Natureza. Cortam o ventre da majestosa selva dos pés à cabeça. A mata tenta resistir. Deixam uma vergonhosa cicatriz no seio da floresta costeira de norte a sul. As conchas dos montes calçam o leito das estradas dos invasores. Passam por cima do corpo e da alma dos antigos. A floresta tenta relutar.

Mas a luta é desigual. Colhedeiras dominam o cenário. Celeiro da América do Sul. Das profundezas, a água é bombeada do imenso aquífero para irrigar grãos vendidos a preço de banana. Guarani. Tem muito aqui. Pela graça de Deus.

Todos querem um pedaço desse novo deus. O dinheiro. O Cruzeiro. Tabaco, borracha, madeira, cana, banana, café, soja, milho, arroz e gado. Cada ciclo toma mais terra. A floresta já não consegue respirar. Não encontra o seu equilíbrio. Muita gente e pouco espaço. Férteis, multiplicam. No luxo, as filhas dos coronéis geram os filhos do concreto.

Ela começa a pensar no dilúvio. Se livrar de vez do mal que rasga a pele, corta o coração e destrói a alma.

Petróleo
Carvão é desovado do ventre e petróleo é bombeado de suas veias. O efeito é estufa. Sufocante, a temperatura aumenta. Calor. A chuva que a mantinha fresca não vem mais. Sem fôlego, a mata do cerrado e das grandes bacias dos rios não consegue suprir a terra de água.

Sem a mata para protegê-los, os rios bravamente tentam resistir. Os lagos lutam para sobreviver. A terra deixa de jorrar vida. As nascentes secam. Nas corredeiras onde os avós namoravam sem pudor, agora vacas magras atoladas na lama morrem mugindo sem frescor.  Caminhões-pipa abastecem a maior capital do continente. A burocracia, com sua triplicata e firma registrada, não reage. Não pode. Ganho pessoal acima de tudo. A morte vem do céu.

Do mar, uma nova reserva de petróleo. Riqueza para os nobres companheiros explorarem. Pegam o que é de César. E ser César é bom. Dinheiro rápido. Dinheiro limpo. Mais fácil do que caçar índios na mata ou matar escravos no fundo das minas. Sem sujar as mãos. Sem suar a camisa. Trabalho não enobrece. Tem que ser Real. Ser o povo-do-petróleo. E, afinal, o petróleo é nosso.

Nas praias das pequenas baías pacíficas, bandeira vermelha. Água imprópria para banho.  Palafitas no mangue, ocupação das encostas, invasão da floresta. Esgoto in natura e sedimentação do desmate sufocam os rios que alimentam o mar. Lixo por todo lado. Plástico, papel, ferro velho, óleo queimado, baterias e pneus na beira dos rios. Seringas, camisinhas, fraldas, comida e excremento humano nas areias do litoral.

Para os que aqui vivem há tempos, é o fim. Vendem seus aconchegantes lares. Seus tranquilos quintais dão lugar a torres faraônicas. Onde moravam poucos agora são muitos. Mais esgoto, mais resíduo, mais trânsito e mais caos. Tudo para ter uma vista ao mar. O mar das imensas riquezas do pré-sal.

Mas outros estão chegando.  O espírito da floresta observa um povo digital que quer colher energia do sol, do vento e dos mares. Proteger as águas para que as nascentes não parem de jorrar vida. Manter as matas para prover sombra, regular o clima e fornecer umidade. Viver em harmonia com ela.

Constroem casas eficientes, economizam eletricidade e água. Geram menos resíduo. Educam seus filhos para respeitarem o próximo. A floresta acompanha esse povo de longe. Ela sente que esses podem voltar a ser seus filhos. A respeitar tudo que ela lhes dá sem pedir nada em troca.

Vento
Mata. Praia. Condomínio fechado. Refúgio do calor do verão mais quente de que se tem notícia. A jovem mãe praieira envia detalhes de um projeto eólico para seus parceiros. Um olho no celular e o outro na filha.

A pequena explora o que sobrou de um monte de conchas no canto esquerdo da praia onde o córrego deságua no mar. Na beira d’água, a madrepérola brilha multicolorida ao sol. No horizonte, nuvens negras. Tempestade.

“Gaia, fique por perto onde eu possa te ver! Parece que vai chover!”.

A filha brinca com umas poucas conchas esparramadas pelo chão. Entre elas, encontra um pequeno tubarão de pedra.

“Mamãe! Mãe! Olhe! Um peixinho de pedra!”.

No sorriso da pequena Gaia, a certeza do xamã. A passagem do povo alegre de outrora para o outro lado foi assegurada. Tem esperança de vida no ar.

Dos filhos deste solo és mãe gentil.

Hino Nacional.

 

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