REVISTA GUAIAÓ
  • Pelo mundo

[ Pelo mundo ]

O espirito em profundidade

por Juan Esteves
imagens Reperoduções

Um trabalho se encontra na Amazônia brasileira, Futebol na Amazônia, imagem e alarido, de Maurício de Paiva, (DBA, 2012), e outro em Richmond, no Estado da Virginia, EUA, de Sally Mann, The Flesh and the Spirit (Aperture, 2010). Alguns milhares de quilômetros de distância os separam e, em termos culturais, estão mais distantes ainda. Entretanto, estão ligados através de questões ontológicas intrínsecas ao seu meio ambiente, o isolamento, a possibilidade do entendimento pessoal através da fotografia.

Sally Mann vive em uma fazenda trabalhando com processos históricos/fotográficos como o Collodium, também conhecido como “wet plate”, em que a chapa fotográfica, de 20X25 cm, é emulsionada e inserida
na câmera ainda molhada. O isolamento no meio da floresta a leva diretamente a apon

tar sua câmera aos seus familiares. São seus modelos os filhos e seu marido, as principais imagens do livro.

Maurício de Paiva, veterano da National Geographic, é um profundo conhecedor do

Em ambas as publicações, deparamo-nos com questões ritualísticas trabalhadas em fortes imagens, cujas diferentes palettes transferem seus significados intrínsecos à vulnerabilidade e à mortalidade, temáticas sempre elaboradas pela fotografia tanto documental quanto conceitual.s recônditos da Amazônia, onde aplica a produção imagética à discussão antropológica. Muitos de seus motivos também são aqueles que habitam estas florestas ou suas ilhas, indígenas e ribeirinhos, cujo isolamento os torna peculiares. O fio condutor é o futebol e as impossibilidades ultrapassadas pelos personagens.

Sally Mann, a exemplo do título, aborda a carne e o espírito em profundidade. A sensualidade e o lirismo das imagens de seus filhos se aproximam do drama das imagens de seu marido, vítima de uma atrofia muscular. Enquanto as primeiras recorrem à cor, a última traz as falhas do processo wet plate como significância.

Já Maurício de Paiva traz, através do futebol, a intimidade do homem na floresta e sua sobrevivência diante da adversidade natural. Viver na palafita, a luta pela alimentação, o esporte como raro lazer, limitado às condições climáticas. Sua palette é intensa e constante na cor local.

Ambas as publicações se afinam no desafio da representação gráfica da existência, da intimidade da câmera fotográfica com seus objetos de estudo. Trazem a eloquência de um brilhantismo técnico expresso em imagens contundentes. O que é melhor, vão buscar estas imagens nos recônditos, tanto geográficos quanto aqueles dos seres humanos.

Voltar ao topo