REVISTA GUAIAÓ
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A MÃO QUE TOCA A NATUREZA

texto e fotografia Marcos Piffer

Pela primeira vez, desde o início da Guaiaó, reescrevi o texto já pronto do EDITORIAL para falar de acontecimentos do momento. O mês de abril foi um mês marcante para a questão ambiental da cidade de Santos, e levou o nome da cidade para todo o mundo por um fato nem um pouco positivo. Durante mais de 9 dias, 6 tanques de combustível arderam na entrada da cidade, mostrando o quanto somos e estamos vulneráveis. Além da óbvia descarga maciça de fuligem na atmosfera, visível a quilômetros de distância, o canal do Estuário e o manguezal da região foram contaminados com resíduos líquidos do combate ao fogo e com o próprio combustível que também vazou, e que resultou na morte de toneladas de peixes.

Risco do incêndio se alastrar e ficar totalmente fora de controle, porto parado, rio poluído, pescadores e suas famílias vulneráveis, cidade estarrecida, selfies patéticos…Tudo isso em duas semanas de chamas ardentes.

De repente, antes que o mês terminasse, outro fato virou notícia num âmbito menor, mas não menos significativo. Como tem acontecido corriqueiramente há tempos na cidade de Santos, uma grande, bela e sadia árvore viria a ser cortada sob as justificativas de sempre de que estava doente, infestada de cupins e de que o requerente da remoção iria realizar a compensação pelo  corte plantando 10 novas árvores.

O fato inédito desta vez foi a mobilização da população, a princípio moradores da rua no Boqueirão e depois se expandindo pela cidade, contra a retirada, impedindo inclusive fisicamente o corte final do tronco e questionando as alegações oficiais. A sombra dos frondosos galhos e o porte da planta invalidava a justificativa oficial da doença, e o mito da compensação com 10 novas mudas – e que nunca de fato é vista acontecer– foram questionados durante dias, em maravilhosos debates até televisionados. Por fim, a árvore, ou pelo menos o seu tronco dilapidado de seus galhos e folhas, permaneceu, símbolo de que quando a população se une contra desmandos a cidade ganha. Uma cidade tão pouco e mal arborizada, carente de áreas verdes, sem um projeto efetivo de arborização até os dias de hoje, não pode abrir mão de árvores sadias para mostrar letreiros comerciais.

Interessante pensar que toda esta edição da revista Guaiaó é dedicada justamente às nossas matas ou pelo menos ao que restou delas. Aquilo de mais profundo que resiste nas nossas florestas, que pulsa, e tenta permanecer vivo mesmo sendo mutilado deliberadamente há séculos. Esta é a grande história que Søren Knudsen nos conta, com magia, através da voz da própria mata, começando bem lá atrás no tempo, muito antes das nossas matas serem habitadas pelo Homo sapiens, o qual aparentemente não tem se mostrado tão sábio assim no trato com a Natureza.

É este mesmo espírito que o Du Zuppani nos mostra nas delicadas imagens do SEM PALAVRAS desta edição, dos seres quase microscópicos, e por isso mesmo que nos passam despercebidos, também habitantes da floresta. Mário Mantovani na Entrevista, índios Guaranis nos ensinando a reflorestar com palmitos em Boraceia. O respeito e o amor à mata e aos seus seres estão presentes, como sempre, em todos os textos e seções e na essência da própria revista.

Muitas pessoas têm dedicado sua vida na luta da preservação ambiental, e o caminho é árduo e os resultados são lentos. Mais um motivo para se comemorar a permanência da árvore no Boqueirão.

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