REVISTA GUAIAÓ
  • Ficção

[ Ficção ]

A TEORIA DO CAFEZINHO

Por: José Roberto Torero
Fotografia: Fabricio Lopes

Amargo leitor, açucarada leitora, desenvolvi por estes dias uma tese que denominei “teoria do cafezinho”. Muitos dirão que ela tem a profundidade de um pires, mas acredito que outros, mais argutos, ou gentis, encontrarão ali uma nota muito útil à gastronomia e, quiçá, à vida.

Tal conjectura nasceu da observação de um imponente jantar num caro restaurante (onde, obviamente, não era eu quem pagava a conta). Neste pequeno banquete, o couvert foi muito bom, a entrada estava ótima, o prato principal deixou-me ótimas lembranças e a sobremesa não esteve menos memorável. Porém, quando provei o cafezinho que encerrou a opípara refeição, tive que fazer um grande esforço para que meus músculos faciais não se contorcessem, demonstrando o asco que aquele líquido morno me provocara. Para piorar, durante a hora seguinte erupções gasosas me vinham à boca e traziam de volta o terrível sabor.

Pois bem, no dia seguinte, num outro restaurante (simples e barato, onde eu mesmo paguei a conta), deu-se justamente o oposto. A comida foi apenas mediana, mas o cafezinho servido era bem encorpado, forte e veio na temperatura certa (que, para mim, é aquela que quase queima os lábios).

Dessas duas refeições, tirei esta importante lição de vida, esta valiosa baliza moral: o que conta é o fim, o toque derradeiro, o arremate. E não só nas refeições, mas também nos percalços da existência humana. Para os cristãos, por exemplo, o paraíso celeste é o cafezinho da vida, o momento de glória, a redenção final. Já para os ateus, mais vale um asilo confortável com enfermeiras bonitas. São maneiras de fazer com que a última impressão não seja triste e desgostosa.

Muitos livros são assim: nos deleitam nas passagens intermediárias, mas não têm um bom final e aí, quando os recolocamos na estante, parece que o fazemos com uma sensação de azia e má digestão.

Já uma revelação, como a de quem é, na verdade, Diadorim, ou uma frase como “A terra lhes seja leve”, em Dom Casmurro, provam que os grandes autores, consciente ou inconscientemente, aplicavam a teoria do cafezinho às suas obras.

Estes grandes finais são como expressos fumegantes, cheirosos, que nos dão a sensação de que vale a pena viver e esperar pelo cafezinho dos cafezinhos, seja ele qual for.

Voltar ao topo