REVISTA GUAIAÓ
  • Ficção

[ Ficção ]

Um café?

Por: Natalia Barros
Fotografia: Reh Theiss

duas palavras
foi o que ela viu
na caixa de mensagens

 [duas flechas, um alvo]

 ah, quanto tempo!
foi tudo o que conseguiu pensar
desprevenida

 hesitou diante da porta da rua

 a chance de não
- não ir -

 (a possibilidade de desinventar)

 na calçada da cafeteria:
sentiu a pausa no diafragma

 inspirou, tecnicamente: 1, 2, 3
expirou, tecnicamente: 1, 2, 3

 uma mosca passou kamikaze
pelos doces de creme do balcão

 ecoaram não muito longe
os sinos seculares
da igreja no Embaré

 18h: tudo era hábito 

o cotidiano, universal, justo ali

tinha um quê de missa
essa espera solitária
na mesa perto da janela

 observou as crianças da escola-pra-casa
andavam sem pressa
pareciam felizes assim soltas

 ele chegou, atrasado
como sempre,

mas sempre, agora não vinha ao caso

 gostou do cheiro do café
trouxe-lhe a memória
gostou do cheiro dele
trouxe-lhe a vontade

 dali em diante
um gole
significaria

pra mim, sem açúcar, ela disse

e sorveu com gosto
o líquido escuro
e encorpado do destino

 

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