REVISTA GUAIAÓ
  • Gastronomia

Francisco Carrera Rodrigues, o Paquito uma semana antes do restaurante mudar de endereço.
Bacalhau à Débora
Fatias de laranja e limão aguardando para fazer parte de alguma bebida especial.
A tradicional sangria acompanhada pela entrada de patês com torradas do Paquito.

[ Gastronomia ]

PAQUITO – NO PORTA DO SOL

Por Marcos Denari
Fotografias Marcos Piffer

 

Restaurante Porta do Sol - Paquito. Foto Marcos Piffer

Em clima nostálgico parti para minha última refeição no Porta do Sol. O lendário restaurante, situado na esquina da São Francisco com Senador Feijó, em frente à Praça José Bonifácio, há mais de 50 anos, estava de mudança. No momento em que esta revista sair, ele certamente estará de endereço novo, mas não muito distante do original, ali mesmo na São Francisco.

No caminho, fui relembrando as aventuras gastronômicas prá lá de prazerosas que experimentei naquele lugar, desde a primeira e inesquecível vez em que fui, recomendado pelo saudoso Betinho Nóbrega e endossado pelo Mestre Mesquitinha: “Você sabe quem ele é, Denari. Vai lá e pede o camarão com catupiry!”.

E eu realmente o conhecia de vista, e não pelo nome de toureiro espanhol – Francisco Carrera Rodrigues –, mas simplesmente por Paquito. Era e ainda é ele o responsável por tocar sozinho com maestria toda a função da casa desde a década de 1980. Mas, mais importante que isso, ele foi o responsável por realizar uma verdadeira revolução no restaurante, e transformá-lo em uma referência, e não só em Santos, de pratos à base de pescados e frutos do mar. O restaurante existiu no mesmo local desde 1961, fundado pelo Aniceto e Francisco, respectivamente pai e tio do Paquito, mas servia uma comida mais simples limitada ao bife com fritas. O nome surgiu como uma homenagem à Praça madrilena “Puerta del Sol”, uma vez que ambos eram espanhóis emigrados e saudosos da terra natal.

Para realizar esta transformação e criar a excelência do restaurante, o Paquito, que até então trabalhava no porto, foi buscar inspiração na culinária espanhola, o que aparece claramente nas receitas com polvos e crustáceos.  Ele se envolve integral e diariamente, com exceção dos domingos, dos quais não abre mão para o descanso, com toda a lide da casa. Desde a escolha dos melhores pescados e ingredientes do dia, até a sua inquietante criação de misturas e temperos, como o arroz de polvo com um toque de tomilho, ou o camarão no catupiry com um leve sabor de gengibre, ou até a tradicional banana em calda de maracujá, única sobremesa disponível no cardápio. Cada prato, uma história, um sabor e um aroma completamente diferentes. Suas mãos são mágicas e seus pratos têm vida própria. Sinal também de sua magia é a capacidade de atender sozinho o salão de 40 lugares – o que todos se espantam por ele conseguir fazer – cuidando de servir desde a clássica Sangria na chegada, até da sugestão do prato adequado para cada cliente, além de chamar os pratos na cozinha, servir as mesas, fechar as contas e receber os pagamentos.

Naquele dia em que fui ao Paquito pela primeira vez, sem me dar conta tive uma iniciação à arte da culinária, algo que modificou completamente minha maneira de comer, degustar e saborear. Dali para frente, meus parâmetros para a comida tinham criado um marco zero, um ponto inicial. Eu, recém-formado, sem carro, esperava o ônibus ali em frente ao Posto 4, quando passa meu amigo Fábio Zum:

“Ué Denari, tá indo pra onde? Não vai pra praia? Não vai jogar bola?”.

“Quer ir comigo? Vou comer um camarão com catupiry lá na cidade”.

“Eu estou sem dinheiro, Dena…”

“Não tem problema, eu tenho, e o Mesquita disse que um prato dá para dois, fácil. Depois a gente volta para jogar”.

E não deu outra. O prato serviu os dois tranquilamente. E no exato momento em que o Paquito colocou aquele camarão borbulhante na nossa frente, vi que o futebol do sábado tinha ido para o espaço.
Estas e tantas outras histórias são contadas por aí daquele lugar único e com um conceito completamente diferente do comum para um restaurante em Santos, que reúne uma localização e ambiente despojados e inusitados, um atendimento especial, e pratos que só se saboreiam ali e em mais nenhum outro lugar do mundo. E com tudo isso, o Paquito parece que ainda nos reserva sempre uma surpresa. Como na vez em que ele cismou de fazer uma noite mineira para uns professores que eu trouxe de São Paulo. Cheguei e já fui logo pedindo a tradicional Sangria.

“Não, não Denari. Hoje é só ‘espremidinha’. Toma aí”.

E não é que estava maravilhosa??? A espremidinha e, como sempre, tudo mais…

Agora, é aguardar as novas emoções que virão em sua nova casa. Com certeza, um sucesso.

 

O restaurante Porta do Sol permaneceu durante 40 anos na esquina das ruas São Francisco e Senador Feijó onde a fotografia acima foi feita.
A partir de maio de 2011 inaugurou o endereço novo na  Rua São Francisco, 210.
O restaurante atende de segunda 
à Sábado, somente para almoço, das 11h45 até o último cliente.
O telefone do estabelecimento é #13 3233-3406.

MARCOS DENARI Colaborador GUAIAÓ 01

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