REVISTA GUAIAÓ
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[ Uma História ]

Escaldante – do coração do Sabá.

Por  Soren Knudsen
Fotografias Marcos Piffer

“O café deve estar quente como o inferno,
 ser negro como o diabo,
puro como um anjo,
e doce como o amor”. Charles-Maurice de Talleyrand

 

Pupilas dilatadas, corpo em chamas, o ritmo toma conta dos seus movimentos. A compradora escandinava, pele bronzeada pelo sol, cabelos negros tingidos e olhos verdes, invade a pista de dança. Como se possuída por algo além do seu entender, gira e roda os quadris sensualmente.  Os jovens traders de cabelo repicado e camisas ajustadas ao corpo cercam a presa como lobos.  Grisalhos de paletó e gravatas de grife apoiam-se nos seus copos de uísque 12 anos e a devoram com os olhos.

Antecipando o fim da alegria, o gerente de cafés especiais de uma multinacional, aniversariante, cambaleia para o palco, champanhe na taça e na cabeça, agarra o microfone do John Lennon tupiniquim e anuncia:

“Dois mil reais para tocar mais 30 minutos!”.

Empolgados, os Beatles cover aceleram o ritmo numa versão techno-house de A Hard Day’s Night. Pulsam num êxtase escaldante sob o efeito estroboscópio da luz, perspiração, perfume, e uísque:

“You know I work all day, to get you money to buy you things,

And it’s worth it just to hear you say, you’re gonna give me everything…

… you’re gonna give me everything…

… you’re gonna give me everything…”.

Foi o que a Madame d’Orvilliers, esposa do governador da Guiana Francesa, deu a seu amante o sargento-mor Francisco de Melo Palheta em 1727. E um pouco mais. Quando ele cruzou a fronteira para o Grão-Pará na calada da noite fugindo dos capangas do marido traído, Palheta trouxe consigo mais do que lembranças das noites calorosas em Caiena. Contrabandeou para o Brasil sementes de café obtidas ilegalmente, com juras de doce amor eterno.

O governador perdeu muito mais do que o amor de sua Marie-Claude. Perdeu um dos maiores segredos mercantis da época. Um segredo guardado a sete chaves pela França e pelos Países Baixos que mantinham o acesso ao lucrativo mercado de café europeu. Quando passou a mão na mercadoria da Madame, Palheta inicia o ciclo que torna o café sinônimo de Brasil.

O café cobre a nação-continente, é cultivado desde o estado de Rondônia, no Amazonas equatorial, até o temperado Paraná no sul. As variedades Arábica, que compõem aproximadamente sessenta por cento da produção mundial, e Robusta, usada em cafés instantâneos, são produzidas desde as mais precárias condições de agricultura familiar até os mais modernos agronegócios.

O café sustenta pequenos orçamentos e movimenta negócios milionários em Nova Iorque e Londres diariamente. É o ganha-pão do Brasil. Antes de gás, petróleo, soja, gado de corte, aviões e aço, o café construiu o Brasil. Está no brasão da república e faz parte da vida brasileira, desde o desjejum.

Café
Originário da Abissínia no Corno da África, terra da Rainha do Sabá, a área hoje é conhecida como Etiópia.  Os grãos crus de café eram moídos até formar uma pasta que era seria usada pelos guerreiros para fortificá-los em batalha. A cafeína aumenta a vivacidade, a virilidade, a atenção e a sensação de bem estar.  A receita chegou às mãos dos árabes por meio dos guerreiros vencidos e vendidos como escravos pelos comerciantes muçulmanos.

O Alcorão, livro sagrado do Islã, rejeita o uso do álcool. Sedentos por opções, os árabes passam a chamar a infusão do café de kahwah – vinho. É um sucesso instantâneo. Intensificam o cultivo e começam a irrigação do plantio.  Passam a ser donos do mercado e espalham o vício pelo Oriente Médio. Nas medinas da África do Norte, nos mercados do Iêmen e nas feiras públicas a céu aberto no Oriente Médio, ainda encontramos os mais antigos rituais de preparo e da bebida de café arábica.

Herdeiros da fé e dos costumes do Oriente Médio, os turcos otomanos deram sequência ao jihad – guerra aos infiéis do Rei Saladino sobre a Europa.  Puseram a igreja cristã e a cultura ocidental em sério perigo de extinção. O conflito, que durava desde as Cruzadas, teve seu fim na Batalha de Viena em 1683.

De um lado, resolvidos a tomar Viena, estavam as disciplinadas tropas otomanas comandadas pelo grão-vizir  Mustafa Pasa.

Defendendo a cidade e a fé, sob a proteção da Virgem Maria, os soldados da Liga Santa eram liderados pelo rei polonês Jan III Sobieski.

Em nome do “Pai, Todo Poderoso”, para quem cada lado rezava por nomes diferentes, a carnificina naquela ensolarada manha de primavera pinta os verdes campos de vermelho escuro. O ataque da cavalaria polonesa e a fúria dos lanceiros húngaros quebra a disciplina dos soldados otomanos. Viena não cai. A fé cristã triunfa. Aliviado e agradecido, o Papa Inocêncio XI institui o Toque das Ave Marias dos campanários ao meio dia para relembrar a vitória sobre o Islã.

Império Otomano perde mais que a esperança de eliminar o cristianismo da face da Europa.   Perde territórios e supremacia no cenário internacional. Na confusão da retirada, as tropas abandonam toneladas de café nos seus acampamentos.  Com isso o império também perde o domínio do comércio de café.  Espólio de guerra para os vencedores.

Novo Mundo
De Viena para Caiena foi só um pulo. De umas centenas de sacas embarcadas no Pará em meados de 1730 até se tornar o maior produtor e consumidor do mundo foi outro.  O café construiu o Brasil quando migrou para o Sudeste.  Paraná, Minas Gerais e São Paulo descobrem o ouro verde que gera imensas riquezas para esses estados e para os Barões do Café.

O comércio de café antes dominado pelos franceses e neerlandeses passa a ser o sustento do Brasil e seus aliados comerciais. É responsável pela chegada de milhares de negros escravizados às costas brasileiras para trabalhar na lavoura por mais de dois séculos. Sustenta o sonho do Segundo Reinado e a balança comercial do Império.  Com a abolição da escravidão perde o seu poder na Corte. Retoma a sua influência com a chegada dos imigrantes italianos. É o alicerce da Velha República dos golpistas do Marechal Deodoro.

Abre estradas e ferrovias.  Constrói cidades, represas, pontes e redes elétricas.  Assenta o interior.  Consome a Mata Atlântica num ritmo alucinante, penetra e desmata o sertão, acompanhando JK na sua missão de “cinquenta anos em cinco”.  Tudo isso para exportar a matéria prima que acorda com o mundo e mantêm milhões de bules, máquinas de expresso e prensas francesas cheias diariamente alimentando o vício mundial pela cafeína. Fortunas imensas foram ganhas com o café. Ainda maiores foram perdidas no azar das cartas, em cavalos lentos e mulheres ligeiras que praticam sua arte nos palcos das boates e nas camas de quitinetes sem endereço.  .

Santos
E nessa construção todos os caminhos levam a Santos. No lombo de mula na Trilha do Lorena, nos vagões das “ferrovias do café” caprichosamente penduradas na Serra do Mar, a granel nos Big-Bags em caminhões Scania que congestionam a entrada da cidade no moderno sistema rodoviário Anchieta-Imigrantes.  O ouro verde brasileiro escoa do planalto serra abaixo há mais de 200 anos.

Constrói tudo em Santos e a torna o maior porto da América Latina.  Dois ramos de café no escudo da cidade emolduram o lema “Patriam Charitatem et Libertatem Docui” – À Pátria, Ensinei a Caridade e a Liberdade. O café proporciona recursos com que a cidade, por sua vez, espalha o bem pelo país. De Santos vem tudo que é inovador.

Porta para o mundo. Bancos, financeiras, seguradoras, corretoras de valores, armazenamento e transporte. Entrada e saída de ideias, gente e dinheiro. Berço do futebol arte, do surf, do tamboréu, de bochas, do badminton e do remo olímpico. Santos de Bartolomeu de Gusmão, dos Irmãos Andradas, de Domitila, de Saturnino, de Martim Fontes, de Vicente de Carvalho e de Pelé. Santos das imensas riquezas do café.

Na “cidade”, zona de impacto do comércio, o café se manifesta nas faixadas dos prédios, detalha gradis de ferro de portas, janelas e elevadores, aparece em acabamentos de colunas e figura em murais de restaurantes e edifícios do governo. Sentados em duas sacas de café no alto do antigo Banco Faro, em frente à Bolsa de Café protegida por Ceres e Mercúrio, dois querubins observam o frenesi da praça cafeeira. Um deles tem a mão levantada como se dando a sua benção. Do campanário da Igreja do Santo Antônio do Valongo os sinos soam ao meio dia.

O aroma de torradores de café permeia o ar. Corretores de rua atentos à tela que transmite o preço da Bolsa de Commodities de Nova Iorque, segundo a segundo, no andar térreo da esquina da Rua XV de Novembro, que já foi conhecida como a Wall Street brasileira, com a Rua do Comércio. Os negócios fervem. Na calçada, grãos verdes espalhados de lotes vendidos.

Para um produto que somente perde para o petróleo em volume negociado mundialmente, confiança na palavra é tudo. Café é negociado na palavra. Café é relacionamento. É confiança.

 

 A Etíope
Essa confiança salvou Makeda Frezer Solomon. Sua família é originária de Axum capital religiosa da Etiópia.  Entre seus familiares estão sacerdotes que zelam pela Arca da Aliança, contendo os Dez Mandamentos, trazida de Jerusalém pelo filho da Rainha do Sabá e do Rei Salomão.  Em Addis Abeba a família é comerciante de café há sete gerações.  Seus laços comerciais se estendem pela região do Golfo de Bengala, Mar Vermelho, Corno da África e Península Arábica.

Esses laços serviram bem à família quando a Itália ocupou a Abissínia em 1935. Fortaleceram-se nos mercados mediterrâneos e passaram a exportar café com exclusividade para a Europa por meio dos seus agentes em Trieste, Roma e Bari.  Quando os ingleses e franceses liberaram a Etiópia em 1941 o “Leão de Judá”, Imperador Hailé Selassié, último descendente de Sabá e Salomão, volta a governar a terra ancestral.

Terminada a guerra na Europa o bisavô de Makeda assegura embarques de café para a Inglaterra, França e a Alemanha. Depois dos quatro anos de racionamento, a Europa arruinada estava saudosa por café. Com os torradores quebrados, ele arrisca tudo e embarca o café na promessa de pagamento dos importadores após o recebimento.

É aos cuidados desses importadores, amigos de confiança da família, que os pais de Makeda, cristãos ortodoxos etíopes, enviam a filha quando o Conselho dos Tribunais Islâmicos decretam decreta jihad contra a Etiópia em 2006.  Temem pelo seu bem estar caso um regime islâmico sharia, severo e conservador, venha a ser instalado no país.

Alta, esguia e atlética ela foi recrutada pela SAS, Special Air Service, do Exercito Britânico por sua habilidade com línguas e seu conhecimento do mundo muçulmano enquanto ainda estudava administração na London School of Economics and Political Science.  Serviu como combat arms specialist numa unidade nas montanhas do Afeganistão na busca do elusivo Bin Laden.

O helicóptero em que a equipe se movimentava abaixo do alcance do radar foi derrubado por um míssil antiaéreo talibã. Mesmo ferida evitou a captura da unidade onde caíram por seis horas enquanto esperavam o resgate no Vale Kurram suposto reduto do líder do Al Qaeda. Recebeu a mais alta condecoração por bravura do exército britânico, Victoria Cross, em cerimônia no Buckingham Palace das mãos do Príncipe Harry, piloto de helicópteros no Afeganistão.

Dispensada com honras, voltou para Londres e obteve um mestrado em finanças na Cambridge University. Aos 33 anos de idade comanda a mesa de trading de commodities do holding familiar no moderno distrito financeiro de Canary Wharf em Londres. Dos altos do vigésimo terceiro andar, seu escritório oferece uma vista espetacular do West India Quay e a grande curva do Rio Tâmisa.  O instinto do pai a preservou.

Mas o destino não poupou os pais. Foram assaltados por rebeldes encapuzados quando voltavam da sua peregrinação anual para a Procissão da Arca da Aliança em Axum.  Embora não oferecesse resistência o casal fora friamente executado com um tiro na nuca e deixado à beira da estrada.  O carro foi localizado, mas o crime nunca foi esclarecido. No banco de trás encontraram uma caixinha contendo delicada cruz copta ortodoxa, de ouro, que fora abençoada pelos sacerdotes da Santa Catedral da Arca para proteção da filha.

“Buna dabo naw”
- Salaam Aleikum, Makeda!  Vestido de boubou, o tradicional traje colorido, kufi cobrindo a cabeça em homenagem a Maomé, o ancião apoiado numa bengala, olhos leitosos pela cegueira estende a mão pedindo uma graça ao reconhecer o passo de Makeda no tic-tac do salto alto na calçada.

- Alaikum As-Salaam, Ammu.  E sobre vós a paz, tio. Makeda responde em árabe colocando uma moeda na palma do velho que ocupa um lugar na movimentada esquina oposta ao escritório de sua família desde que era menina.

Tem coisas que não mudam, mas a Etiópia que Makeda encontrou ao retornar à terra natal após a morte dos pais era bem diferente daquela que lembrava.  O norte da África havia mudado.  Nela o jihad islâmico encontrou terreno fértil para semear.  Ao sul de Addis Abeba, nas ruinas da capital somali de Mogadíscio, os “senhores da guerra” já chamam o Corno da África de a “Nova Somália” – califado islâmico do futuro.

No altiplano etíope onde o café tem a sua origem, não é a guerra santa que preocupa.  Vivendo em harmonia por séculos, produtores muçulmanos e cristãos tem outra preocupação.  A falta de infraestrutura adequada, a burocracia, epidemias contagiosas, intolerância religiosa, pobreza e os efeitos da mudança do clima são as reais ameaças aos produtores.

Temperaturas mais altas e falta de chuvas na época de maturação traz doenças e pragas para o cafezal, reduzindo a qualidade e a produtividade. O resultado é menos café e menos renda.  O mais cruel é que a sobrevivência de milhares de pessoas que vivem da produção do café está comprometida. O ditado etíope “Buna dabo naw” – Café é o nosso pão – não poderia ser mais apropriado.

Não é somente no altiplano que a seca preocupa. Também castiga produtores no Brasil. O maior produtor e o segundo maior consumidor do mundo esperava colher quase 60 milhões de sacas de 60 kg em 2014. Isso corresponde a aproximadamente quarenta e cinco por cento da produção mundial. Com a estiagem que afetou as regiões produtivas, a safra brasileira perdeu até trinta por cento do que era esperado.  Para a safra do ano que vem os danos causados às plantas devem resultar na maior queda de produção em três décadas.

Alegria
Mas tudo isso é esquecido por algumas horas na festa de encerramento do Grande Seminário do Café no Guarujá. No Salão Nobre a festa começa a esvaziar. A música finalmente para e a banda se despede com um – Thank you very much and good night!

É uma grande festa que Santos proporciona à indústria do café. Santos, que construiu o comércio de café no Brasil, hoje mais uma vez representa a vanguarda do movimento para superar os desafios que afetam o mercado.  No Brasil e no mundo.

Makeda, guerreira que tem o nome etíope da Rainha do Sabá, está em Santos para contribuir para esse movimento com uma semente que talvez revolucione a indústria da mesma maneira que o amor de Madame d’Orvilliers o fez. Semente de uma variedade entre as mil que existem no berço do café que ela está convencida que será resistente aos efeitos da seca.

Ao deixar a festa, sorri para os amigos e os convida para um expresso no suntuoso bar à beira mar. A delicada cruz copta enfeita seu colo. Makeda olha para o horizonte iluminado pela lua de São Jorge, tão diferente daquela que vê no altiplano etíope e agradece pela benção que recebeu do coração do Sabá.

 

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje”
Oração do Senhor

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