REVISTA GUAIAÓ
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[ Cinecidade ]

“Café de los maestros” – Da fruição aromática do tempo

por Flávio Viegas Amoreira
fotografia Juan Esteves

CAFE SANTELMO BUENOS AIRES JUAN ESTEVES

O café parceiro do fumo ou antecedido do vinho lento é da esfera lírica de fruição do tempo. Um ruminar aromático da atmosfera no centro da tarde nua, esse sem-limite de possibilidades entre a rotina e o inusitado. O café companheiro num trago nirvânico onde espreitamos os caminhos que sucedem ao sutil amargor passado, e curtido como se fosse a contrapartida alerta ao trago entorpecido dum Porto ou Chiantti… O café que não se traga, sorve. Produto direto da urbanização positivista das metrópoles na Belle Époque, o café adjetivo, espacial, atmosférico, tornou-se ambiente antológico, interregno entre as pensões familiares e a boemia dos cabarés: crepusculares cafés de Haussmann, suarentos na canícula do Rio afrancesado de Pereira Passos, os cafés do Rosário da Santos, entreposto do mundo até chegar ao protótipo máximo de sofisticação numa feição totalizante de convivência na Buenos Aires do apogeu de Mitre e Roca.

Entre 1890 e 1930, entre o comboio naval efervescente sul-americano trafegavam sacarias de Marselha, Santos e o Prata, e as mais notáveis companhias de teatro, balé, ópera observadas de soslaio pelos milhões de imigrantes que forjariam as beligerantes repúblicas de nossas civilizações juvenis. Lautréamont, Sarah Bernhardt, Nijinsky, Puccini, Caruso e Paul Claudel são alguns personagens entrecortados por revoluções, fortunas, concordatas e, no ápice, a Grande Guerra. Dos portos dessa margem, o mundo se refletia num protagonismo bem menos trágico. Com o café seguia-se a industrialização e com ela a invenção da cultura cosmopolita nos trópicos cariocas, paulistas e portenhos. Nos salões suburbanos bonaerenses surgiam a milonga e o tango, enquanto nos cafés confabulavam poetas, aristocratas dos pampas e apostadores.

Impossível não conjugar portos de mar e as modorrentas tardes alinhavadas pelas mesas que sustentam eterno retorno: veio-me como um cappuccino expresso o documentário Café de los maestros dirigido por Miguel Kohan e produzido pelo genial Gustavo Santaolalla, a moldura para enquadrar a evanescente senda do buquê da iguaria cotidiana.

Na primeira década desse século, músicos já octogenários se reúnem entre Corrientes e Rivadavia num café ancestral para planejar o retorno em grande estilo ao Teatro Colón. Metáfora da vida sendo retomada em forma de orquestra, a possibilidade de sentido através da Arte: encontram-se pontualmente não num bar e não por favor numa cafeteria! O pó aromático precisa nomear o espaço: sonha-se acordado num café! Por muitos, visto como um Buena Vista Social Club tangueiro, é personalíssimo ainda que guarda similitudes com o clássico de Wim Wenders. Não é trocar tabaco por xícaras, e sim, distanciar conteúdos de universos latino-americanos díspares.

Não sei se as novas gerações padecem da mesma crise de abstinência e voracidade pelo café sentidas por esse poeta. Sei que assim como o tango, o vinil e o livro impresso, o café é tão imprescindível como o gesto existencialista de abrir as janelas ou rebater a digestão no zênite da tarde. Rascante, de acidez encorajadora, quando penso em café não só me resta, como diria Bandeira, dançar um tango argentino, mas complementar seu sabor com uma mirada ao horizonte, observar novas floradas no aquietado jardim ou perder-se entre as brumas da saudade que não se apura.

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