REVISTA GUAIAÓ
  • A praia e eu

[ A praia e eu ]

A Musa Morena

por Alcione Herzog
fotografias Marcos Piffer

Cristina Rocha Barletta

Toda cidade praiana tem suas “garotas de Ipanema”. Santos não é diferente, mas tem suas peculiaridades até no quesito musa inspiradora. A nossa menina da praia despontou no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, quase 15 anos depois daquela que, nas areias cariocas, inspirou Vinícius de Morais e Tom Jobim.

Nossa musa é Cristina Rocha Barletta. É morena. É cosmopolita. Deu a volta ao mundo e voltou para a cidade de portas abertas para o mundo, onde nasceu e cresceu. Quando jovem, por volta dos 17, 18 anos, andava distraída, sim, mas não no calçadão do famoso bairro carioca. O doce balanço de seu caminhar era pela orla santista e incluía o trecho compreendido entre o Boqueirão e o José Menino, quando a cidade ainda abrigava a maior Praça de Café do País.

Os meninos de Santos não tinham dragões tatuados nos braços, mas já haviam inaugurado o surfe no Brasil há exatas três décadas. O pai de Cristina, Florival Amado Barletta, já havia se estabelecido como proprietário do maior e mais tradicional escritório de corretagem de café, seguindo o ramo do pai.

E Cristina? Cristina arrebatava corações e arrancava suspiros. “Rata de praia” desfilava o corpo dourado enquanto caminhava – ou pedalava – pela avenida da praia até a Rua Santa Catarina, endereço do Clube dos Ingleses. O Clube era o quintal dos filhos da última geração de empresários do ouro verde. Em sua segunda casa, Cristina costumava jogar tênis e praticar caratê com uma turma grande de amigos, todos de famílias ligadas pelos laços marítimos e cafeeiros.

A filha mais velha dos Barletta teve – e ainda tem – sua legião de fãs. Não eram músicos ou boêmios, mas sabiam admirar a beleza natural de uma verdadeira musa com a devida poesia. E ser musa não era assim tão fácil como parece ser hoje, época farta de silicones, drenagens linfáticas e lipoaspirações. Cristina foi musa num tempo em que era preciso algo mais do que belas pernas e bonitos olhos. O brilho interior tinha de desfilar junto, para que a beleza, de fato, enchesse de graça tudo ao redor.

Para ser musa, há que se saber bela, mas não muito, a ponto de virar convencimento. Uma certa timidez ajuda. Modéstia? Talvez. Para Cristina o que a beleza não é, de jeito nenhum, é frágil. Isso não!

Bela e fera, a princesinha do café e da beira de praia é jogo duro. Vice-campeã brasileira de caratê num tempo em que mulheres não lutavam, apenas se apresentavam, certa vez Cristina chegou a derrubar no canal um engraçadinho que se meteu à besta.

A fibra que todo o empreendedor precisa para se manter de pé, ela também teve quando criou a primeira vídeo locadora em Santos, em 1984. Quando vídeo cassete era artigo de luxo. Visionária, apostou também em uma bagueterie. Há 20 anos, porém, passou a gerenciar a parte administrativa do escritório de corretagem de café da família.

Aos 54 anos, mãe por duas vezes, vive há 15 anos um segundo casamento que lhe resgatou não só a força necessária para recomeçar a vida, como despertou a eterna garota dourada daquela Santos nostálgica. A culpa é de um dinamarquês de nascimento e santista desde os sete anos, chamado Søren Knudsen. Ele era um dos garotos que suspiravam em silêncio pela amiga de clube e companheira de pedaladas na praia.

Na época, tal como o poeta, talvez tenha entendido que a beleza de Cristina precisava continuar distraída. Como no verso “a beleza que não é só minha, que também passa sozinha”, o brilho da jovem era algo apenas a ser contemplado.

O amigo apaixonado sabia que a musa, um ano mais velha, ainda não podia ser só dele. Na companhia do pai, que atuava com embarque de café, foi para os Estados Unidos, onde permaneceu por 21 anos. Voltou ao Brasil movido pela saudade e disposto a arriscar tudo pelo amor não esquecido. Fazia parte do plano voltar também para o café brasileiro e assim se deu, no ramo de certificação e sustentabilidade.

Encontrou uma outra Santos, com ecos dos tempos gloriosos do ouro verde. Reencontrou a mesma Cristina. Mais bela, ainda forte e, desta vez, nada distraída.

 

 

Voltar ao topo