REVISTA GUAIAÓ
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[ Patrimônio ]

O Palácio de Simonsen

por Gino Caldatto Barbosa
fotografia Marcos Piffer 

Lateral bolsa de café Santos revista Guaiaó 08

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A sede da antiga Bolsa Oficial do Café é um dos mais significativos edifícios da Baixada Santista. Inaugurada em 1922 para concentrar os negócios e a cotação desse produto, revela-se como obra peculiar e única no país destinada a essa atividade. Foi o suspiro final da riqueza material que o ciclo econômico do café gerou na região antes da grande crise de 1929. Implantado em terreno circunscrito entre as estreitas ruas Quinze de Novembro, Frei Gaspar e Tuiutí, no centro de Santos, alcança destaque arquitetônico nas esquinas onde a cúpula, sobreposta a entrada principal, e a torre do relógio, na face oposta, impõem-se como expressivas referências visuais do meio urbano.

Execução do projeto e obras ficou sob responsabilidade da Companhia Construtora de Santos, empresa influente na região, criada havia uma década pelo engenheiro Roberto Cochrane Simonsen. Compreendendo invejável estrutura administrativa, em pouco tempo tornou-se referência em gestão da construção civil no país e alcançou expansão dos negócios para além da Baixada Santista, instalando filiais nas principais cidades brasileiras.

Profissional destacado pelo pioneirismo das ações ligadas a organização racional do trabalho, Simonsen não mediu esforços na concretização da obra. A arquitetura proposta era dispendiosa, seguia os cânones do ecletismo vigente nos grandes edifícios institucionais do período. Colunas de ordem coríntia, guirlandas de café, volutas, frontões, elementos escultóricos e cúpulas de cobre sinalizavam licenças estilísticas de inspiração barroca norteadoras dos princípios estéticos empregados.

A previsão de dois anos de prazo para conclusão dos trabalhos exigiu de Simonsen rigoroso planejamento financeiro da construção. Incrédulo frente ao imediato repasse de dinheiro público no financiamento da obra, contraiu empréstimos bancários para manutenção do numeroso contingente de mão de obra utilizada, adquiriu materiais importados e contratou artífices de qualidade e escultores de renome como Adrian Henri van Emelen do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e Alberto Sartório vindo de Paris.

Nem tudo transcorreu sob a ótica sistemática e racional de Simonsen. Empenhado em transformar a Bolsa Oficial do Café em suntuoso palacete, no andamento dos trabalhos impingiu sucessivas mudanças ao projeto original. Elevação da torre, acréscimo de um pavimento, aumento da área de cantaria dos alçados, enriquecimento da parte decorativa, entre outras intervenções, levaram a triplicar o orçamento previamente avaliado.

Em face das radicais alterações e dificuldades no recebimento dos serviços adicionais, a obra alcançou a data de inauguração parcialmente concluída. Incorporado ao agendamento nacional das comemorações do Centenário da Independência do Brasil, a sede da Bolsa Oficial do Café abriu suas portas no dia 7 de setembro de 1922 apenas com o acesso pela Rua Quinze de Novembro e o salão do pregão finalizados. A torre e demais ambientes seriam concluídos no ano seguinte.

Próximo de completar cem anos de existência, o monumental edifício, sobrevivente da sanha demolidora do setor imobiliário na cobiçada região central, alcançou o início deste século consagrado como Patrimônio Nacional. Há tempos suas instalações abriga o ativo Museu do Café, equipamento condicionante da vida cultural da região. Mais que um símbolo do passado no presente, a antiga Bolsa do Café converteu-se para a população local no seu valioso patrimônio afetivo. Legado que nem Simonsen faria juízo.

 

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