REVISTA GUAIAÓ
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[ Vida na Vila ]

LULA E ZÉ CABALA

Por José Roberto Torero
Fotografias de Helena Passarelli

Futebol - Santos Futebol Clube - Fotografia de Helena Passarelli

Por estes dias estive na Rua Princesa Isabel, número 17, onde mora Zé Cabala, o papa dos pajés. Depois de entoar um mantra em seu louvor e dar-lhe um dízimo, fomos para seu sagrado templo, que fica no quarto de empregada. Então o sábio dos sábios colocou seu turbante e disse:

“Quem quereis entrevistar hoje, caro foliculário?”

“Acho que gostaria de falar com algum injustiçado, alguém que não foi tão bem falado quanto merecia.“

Zé Cabala deu oito passos de mambo, três de rumba e fez um gran finale de tango. Depois me estendeu a mão e falou: “Luís Alonso Pérez, muito prazer.”

“Luís Alonso…, não estou lembrado de um jogador com esse nome…”

“Eu nunca fui jogador. O pessoal me chamava de Lula.”

“O técnico da era de ouro do Santos?”

“Em carne, osso e bigodinho.”

“Puxa, que honra! Mas que história é essa de o senhor nunca ter jogado futebol? Como é que alguém chegava a técnico naquele tempo sem ter sido jogador?”

“Eu fui padeiro e chofer de táxi. Mas amava o futebol e comecei a trabalhar como técnico nos times da várzea santista, como o Palmeirinha e o Americana.  Acabei indo cuidar da molecada da Portuguesa Santista e, depois, da do Santos. Aí, em 54, quando eu tinha só 32 anos, o técnico dos profissionais caiu e me colocaram como interino. Só saí de lá doze anos depois.”

“E como o senhor era como técnico?”

“Bom, eu criava um bom ambiente e montava bem a equipe. Tinha olho clínico. Antes de mim as categorias de base eram muito fracas e não revelavam quase ninguém. Eu sabia enxergar o potencial de um jogador. Pode perguntar para o Pagão, para o Pepe e para o Coutinho, que foram meus juvenis. Ah, e também lancei um tal de Pelé.”

“Quantos títulos o senhor ganhou?”

“Trinta e oito, no total. Foram dois mundiais, duas Libertadores, seis nacionais e oito paulistas, fora uns Rio-São Paulo e uns torneios no exterior.”

“O senhor foi o treinador mais vitorioso de todos os tempos?”

“Fui. O problema é que eu não era muito bom de marketing. Me vestia de um jeito muito simples e tinha um péssimo português. Lembro que uma vez eu disse ‘Coutinho, você tem promoção para engordar’, em vez de propensão. E teve uma vez que riram muito quando eu falei ‘Vocês quatro fazem um triângulo no meio campo’. Mas eram detalhes. O importante é que eu entendia de futebol.”

“O senhor lembra de alguma partida em que tenha sido decisivo?”

“Várias. Por exemplo, na final do Mundial contra o Benfica, todo mundo achou estranho eu escalar o Olavo na lateral direita, porque ele era zagueiro e já um tanto velho. Mas, quando o Coluna, o ponta-esquerda deles, veio para cima do Olavo, ele deu-lhe uma entrada que quase partiu o coitado no meio. Depois disso, o Coluna ficou o jogo todo recuado, quietinho, e aí não tinha quem passasse a bola para o Eusébio.”

“Dizem que este foi o melhor jogo da história do Santos.”

“Talvez. Certamente foi o mais importante dos 776 jogos que comandei. Aliás, ganhei 513 deles e meu Santos fez 2.385 gols, mais de três por partida.”

“Depois de sair do Santos, o senhor foi para onde?”

“Primeiro para a Portuguesa Santista, depois Corinthians. Ali acabei com o tabu que eu mesmo criei. Eles estavam há onze anos sem ganhar do Santos em campeonatos paulistas, mas, comigo no comando, a zica acabou.”

“O senhor morreu cedo, não?”

“Com 50 anos. Mas não me queixo. Fiz bons filhos e uma boa história. Imagine ser técnico do maior time do mundo com trinta e poucos anos. O que mais um modesto chofer de táxi que amava o futebol podia querer da vida?”

 

TORERO Colaborador GUAIAÓ 01

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