REVISTA GUAIAÓ
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[ Ficção ]

A PRAÇA E OS POETAS

Por Edson Amâncio
Ilustrações de Paulo von Poser

Praça Mauá - Ilustração de Paulo von Poser

Pouca coisa há nesta cidade que se possa comparar às suas praças. Eu diria todas as praças, principalmente as do centro da cidade, José Bonifácio, Rui Barbosa, Alfândega, XV de Novembro e Visconde de Mauá – a Praça Mauá, como é mais conhecida. Não há nada mais representativo da cidade do que a Praça Mauá. Vocês poderiam protestar com veemência. Afinal, temos as praias e o porto! Certamente, não há como contestar. No entanto, ambos são amostragens para o mundo, cartões postais, enquanto a praça só a nós pertence. Mas essa representatividade da praça não vem do imponente prédio da Prefeitura, portentoso, ostensivo, como se a dominasse inteira, como se estendesse sobre ela a sombra dos longos braços do poder. Nada disso, porém, é visível. Não se vê ali – pelo menos até o momento em que esta crônica está sendo lavrada – nenhum sinal do poder. Um ou outro carro oficial que estaciona na frente das escadarias, de onde emergem criaturas anônimas, subindo os lances de escada com um calhamaço de papéis debaixo dos braços, diluindo-se no enorme saguão de entrada, misturando-se aos inúmeros transeuntes que por ali circulam, a qualquer hora do dia. Só com muita atenção poderemos perceber que aquela figura anônima, desprovida de qualquer sinal particular, é um servidor público. E por quê? Dito assim, pode parecer que os nossos servidores sejam hoje tão absolutamente desprovidos de particularidades que, no meio da multidão, misturam-se incógnitos. Nenhuma torta alusão; na praça, os servidores se confundem com o povaréu, como de resto com pessoas de outras profissões. Mas convenhamos, divago em torno de quimeras. Estou aqui para falar das praças, da Praça Mauá, para ser mais exato. É preciso conhecê-la nas suas várias facetas.  De manhãzinha está vazia. Um ou outro pombo saltitante no meio da praça acaba espantado pela vassoura de um gari. Quase não se vê ninguém ali a essa hora do dia. À medida que o sol vai invadindo os quiosques, iluminando as marquises, telhados, espantando um ou outro bêbado sonolento, a praça vai se enchendo de gente: brancos, negros, mulatos, nordestinos, mineiros, portuários, trabalhadores do comércio, mocinhas sorridentes, boys, executivos com suas pastas de falso couro, seu passo arisco, apressado, bancários com seus olhares espevitados, habituados à monótona contabilização do dinheiro alheio. Juntos, em movimento, constituem autêntico formigueiro humano. Uma loja de som já abriu seus alto-falantes a todo volume e, apesar do horário aparentemente impróprio, ouve-se uma conhecida música sertaneja. Há mesmo os que a esta hora da manhã estão disponíveis para bisbilhotar as vitrines, disfarçando, olhando os instrumentos musicais, enquanto, na verdade, pretendem ouvir a música que lhes chamou atenção, despertando-lhes, quem sabe, relíquias de recordações. Diferente, porém, da noite, quando então a praça é novamente entregue a raros e soturnos passantes, moradores ocasionais, catadores de papel e seus carrinhos repletos de quinquilharias e penduricalhos de toda espécie, sua fauna ambulante de gatos e cães vadios, cheios de berne, magriços e arrepiados que acompanham os carrinheiros como fiéis seguidores. É o momento em que as luminárias acesas dão-lhe um aspecto fantasmagórico, sobretudo no inverno, quando podemos entrever uma nuvenzinha de bruma iluminada, numa pequena circunferência em torno do foco de luz que emana de cada poste. No outono, folhas ressequidas caem distraídas e são pisoteadas, emitindo um barulho tímido em protesto ao massacre dos pés anônimos. Arre! Caí fundo e resvalei na má poesia. Deveria ter interrompido antes; não houve nenhuma intenção. Não estou aqui, repito, para falar de luzes, árvores e folhas secas, automóveis ou nuvenzinhas diáfanas. Tudo isto contém a praça e muito mais. Eu diria que ali naquela praça o egoísmo das pessoas não chega a ser tão pernicioso como em qualquer outro lugar onde as pessoas se comprimem e se atropelam para consumir. Até mesmo o consumismo que abarrota algumas ruas mais cotadas, mais sofisticadas e torna as pessoas perdulárias – e também dissimuladas, pois se envergonham de mostrar que elas, mas apenas elas, têm o poder de consumir – não chega a ser tão ostensivo. Há um quê de necessidade premente nos consumidores da Praça Mauá. Eles adentram às lojas com o olhar compungido, tristes mesmo. Quantos não estarão maquinando, no fundo das suas mentes, as pequenas somas que serão dispendidas naquelas lojas de artigos populares? É certo que muitos assim o farão, mas há também os que apenas assuntam preços, de uma porta à outra, comparando, estarrecidos com as diferenças, e os que andam à procura da sorte grande, arriscando um bilhete de loteria ou no jogo do bicho. E nem estamos tentando fazer aqui o discurso da avestruz. Na praça também existem malfeitores. Estou certo de que dedicarei a eles o espaço merecido. Por tudo o que já foi dito até agora, creio que não haveria excesso em dizer-se – não fosse um lugar comum tão abusivamente utilizado – que a praça é o próprio povo, e não os funcionários, os monumentos, a parafernália dos carros que atravancam as vias públicas e a circundam. Se eu fosse pintor armava, sem pestanejar, meu cavalete na praça e pintava o povo; os tipos que circulam no anonimato da praça, com a desconcertante intimidade dos desconhecidos. Pintaria os lábios carnudos da mulata de 1m80 de altura que desfila a largas passadas, de um extremo a outro com determinação, parando literalmente o trânsito, ovacionada por assobios e gritos excitados, até desaparecer numa das lojas; não me escaparia a verruga na ponta do nariz do empregado da farmácia, ou a cicatriz na testa daquele balconista que fica na porta, atraindo fregueses, oferecendo descontos inimagináveis. E nem deixaria de eternizar na tela a doce cara de alegria barata de um operário comendo pastel e tomando guaraná no Café Carioca, depois palitando descontraidamente os dentes, a estufar o ventre, andando devagar pela calçada, como se tivesse, enfim, solucionado as mazelas da humanidade. Mas divago mais uma vez. O fato é que o verão se foi, isto é a realidade mais imediata. E aqui é uma cidade que sobrevive do verão, por assim dizer, e não é por outra razão que a chamam de cidade de veraneio. No verão, apesar do calor, você encontra dezenas de desocupados perambulando por ali. Muitos estão distribuídos em pequenos grupos, geralmente fumando, gesticulando, discutindo – quase sempre futebol – e seria impiedoso registrar apenas esta faceta dos desocupados – muitos o são forçadamente por conta de uma crise que já virou moda chamar de “sem precedentes”. Malgrado a crise – que é dura e real, distribuindo bordoadas a torto e a direito -, a praça tem seus desocupados oficiais. Como toda grande praça que se preze, ela possui seus motoristas de táxi, ansiosos, suarentos, nervosos, em fila, de olho nas pessoas que descem as escadarias dos bancos, numa ou noutra dona-de- casa – raríssimas, por sinal -, saltando com pacotes de uma das lojas da praça; esperando um freguês, buzinando quando alguém descuidado não deixa o trânsito prosseguir. E – pasmem! – há também engraxates, desses que carregam um rústico caixote às costas e o convidam, com o desaprovador olhar para o seu sapato, a limpá-lo por uma ninharia. Resisto pouco aos engraxates. Admiro-os muito. Aprecio ouví-los noticiar como repórteres os últimos acontecimentos, a alegria espontânea com que fazem saltar a escova de uma mão à outra; a destreza com que, numa batida na caixa, nos anunciam que é chegada a hora de trocar de pés. São brasileiros dignos, ninguém há de negar. Muitos ainda jovens, mal entrados na adolescência, outros, porém, mais idosos e pais de família. Confesso que sinto um prazer indescritível nesse simples e banal ato de engraxar os sapatos em praça pública. Abro aqui um pequeno parêntese para esclarecer duas silhuetas da minha personalidade no que tange aos engraxates. Quando os vejo, vou logo concordando
com o serviço que oferecem. Não sem antes dar uma olhada para os meus pés, que estão sempre “necessitando de uma limpezinha”. Pergunto o preço e se “vai ser rápido”. Aceito as premissas desse contrato singular, dou-lhes o pé e escrupulosamente digo: “não tenho pressa”. Mas o que pretendo ao dizer isso? Na certa vocês não estarão imaginando que estou ali sem nada por fazer e que, portanto, ‘demore o quanto quiser’. Espero que não façam mau juízo de mim. Em todo caso me explico. Da mesma forma, não digo isso como se, ao proceder à limpeza do meu sapato, estivesse satisfazendo uma espécie qualquer de fetiche, deleitando, assim, a bisbilhotice calhorda de freudianos ocultos atrás de cada poste, cada tronco de árvore. Acontece que é apenas um pretexto para observar a praça. Estendo-lhes o pé e ponho-me a observar. É daqui, portanto, dessa plataforma imaginária, que posso ver o povo circulando, divagando, quem sabe conspirando. É desse foro especial que ouço falar em política, anunciar o nome do próximo prefeito, antecipar a queda do Presidente e apostar no nome do vereador mais votado. É daqui que ouço as mais abalizadas opiniões sobre a saúde do governo, a convalescênça da nossa moeda, a solução mais eficaz para a dívida externa e os milagres que virão com o Pré-Sal.

Praça Mauá - Ilustração de Paulo von Poser
A poucos metros à minha direita, ouço a discussão sobre o fim que levou o restaurante que vendia pastéis recheados com carne de cachorro, e o insólito destino do proprietário. Ecoa ainda quente a notícia de que um turista norueguês – pobre coitado! –, também ele deslumbrado com o burburinho da praça, foi aliviado de sua câmera a tiracolo e dos dólares, por dois pivetes que, na esquina seguinte, já comemoravam seu feito quando, nem bem se passaram dez minutos, eram apanhados pela polícia. Outro se aproxima com um cigarro apagado, pedindo fogo. Acendo-lhe o “tição” mordido na boca de escassos dentes, e ouço-o agradecer-me, referindo-se a mim como “cidadão”. Cidadão! É isso mesmo que ouvi. Ele não me disse ‘cidadão’ com ar de ironia. Mas referiu-se a mim como igual, um ser humano, um cidadão! E que fiz eu? Nada, além de lhe acender o cigarro, nem mesmo abri a boca, não emiti nenhum som e aquele popular se afastou, abanando a mão, sinceramente agradecido, soltando anéis de fumaça para o alto. Eu o respeito por isso. Respeito-o também porque ele, como eu, é um cidadão comum, que circula pelas vias públicas, que se beneficia do transporte coletivo, que alimenta esperanças, que tem (ou não?) um lar, um cantinho, um quarto escuro – se tanto -, e respira e para na praça para pedir fogo e me chama de cidadão e decerto acredita em alguma coisa, pois vai em frente, alegre, faceiro, com o entusiasmo festivo das crianças que têm a eternidade à sua espera. Teria sido diferente se tivesse me chamado de poeta. “Obrigado, poeta.” Isso eu não admitiria. Não suportaria porque sei o que está por trás de um cumprimento desses. Ali mesmo, bem pertinho da praça, trabalha um poeta, eu o conheço bem e sei, portanto, do que estou falando. O que parece assustador é a mais cristalina das verdades. Tenho sim, um amigo poeta! Um, não! Tenho vários! E me orgulho deles. Riam. Vocês têm todo o direito de rir. Pois bem. Muita gente acredita que os poetas não fazem nada a não ser poetar. Entre nós se tornou mesmo pejorativo ser chamado de poeta. Mesmo comigo – ai de mim que jamais escrevi um verso sequer – quando me chamam de poeta, sei logo que estão querendo ironizar. Como se poeta fosse o sujeito que não faz nada na vida, como se fosse aquela pessoa que vive nas nuvens. É bem isso o que querem dizer quando nos chamam de poeta, quase como ser chamado de preguiçoso, vadio ou irresponsável. Na verdade quem, de sã consciência, duvida que ao poeta caiba apenas poetar, o que, no meu entender, já é demais. No entanto, entre nós, eles precisam trabalhar e, muitas vezes, trabalho duro, estafante, minando suas reservas de energia que poderiam empregar na sua poesia.  Por isso lembrei que ali, a poucos meros da praça, trabalha um poeta, de soberbo bigode mexicano. Não muito longe dali, outro poeta, com garboso rabo-de-cavalo, convenientemente preso por um elástico incolor, se debruça sobre uma escrivaninha, organizando uma importante revista cultural, este sim, um trabalho que não desmerece o poeta. Mas o poeta de quem eu falava montou ali sua banca de advocacia. E ali, entre um verso e outro, advoga a favor ou contra, conforme a encomenda. Triste destino o dos poetas, obrigados a trabalhar para sustentarem a sua poesia. Vocês já imaginaram Pushkin obrigado a redigir laudas e laudas de enfadonhos relatórios numa repartição? Ou Lermontov  catalogando petições, ou ainda Shakespeare batalhando para receber honorários de esquivos clientes? Tranquilizem-se; pois tais disparates podem perfeitamente acontecer. Elliot não trabalhava num banco? Drummond não se aposentou como funcionário público? Tal o destino dos poetas que, além de nos legar a lira e seu canto, devem fazer a sua parte, como se fossem mortais. De mim, a esta parte devo dizer que acho um abuso, uma desconsideração com o gênio. Esses iluminados filtros da inspiração merecem maior respeito.

Eu fazia tais anotações quando um pensamento luminoso me ocorreu. Pode parecer tresloucado, um desvario, enfim. Em todo caso, ei-lo: nessa busca do racional, do eticamente justo – e, para não escapar ao clichê –, politicamente correto, por que não reivindicar publicamente, alto e bom som, que se coloque ali, no meio da praça, um monumento aos poetas? Talvez um busto. Pode ser de Camões, Homero, Virgílio ou Mallarmé. Pode ser até mesmo um desses consagrados poetas domésticos, um Bandeira, um Vinícius, um Roldão ou o seu poetirmão Narciso de Andrade, quem sabe até mesmo do irreverente Gregório de Mattos. Aí sim, com o povo e os poetas, a praça permanecerá.

 

EDSON AMÂNCIO Colaborador GUAIAÓ 01PAULO VON POSER Colaborador GUAIAÓ 01

 

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