REVISTA GUAIAÓ
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Os Cafés com que vivo

por Marcos Denari
fotografia Marcos Piffer 

Revista GUAIAÓ 09 fotografia Marcos Piffer

Se eu fosse milionário diriam que sou um excêntrico. Mas para não causar polêmicas,  contento me com os mais educados que me classificam apenas como uma pessoa de hábitos simples.

Afinal sou mais um patê de atum do que caviar, prefiro qualquer espumante do que champanhe francesa e trocaria fácil, fácil, um daqueles patos rococó que saboreei há muito tempo atrás no Massimo por um belo galo cozido aqui do “seu” Eládio.

Sem dizer que gosto muito mais de café de coador do que o expresso de máquina. Pode isso?

“Perfeitamente, Marcos. Não é a máquina e nem o coador que vão deixar o café melhor ou pior, vai depender além da qualidade do produto, também de quem faz ou de quem tira o café” tranquilizou-me o amigo Luiz Carlos Manzione que por trinta anos trabalhou no café por aqui antes de se mudar para a Itália.

“E te digo mais, nos tempos em que eu trabalhava em Santos, o melhor café que eu tomava era de coador no escritório da Stockler Exportadora. Sempre arranjava uma desculpa para passar por lá. Então meu amigo, preferir café de coador não é um privilégio só seu”.

Puxa vida, eu me contorcendo em minhas excentricidades e me culpando por não ter uma mísera maquininha de café expresso, ouvir uma coisa destas? Estou curado. Xô café expresso!!!

Então, até que minha ignorância cafeeira e meu paladar não estão tão por fora assim. Bem que já me falaram para confiar mais nas minhas intuições. Além do mais, esse negócio de gostar de café começou meio sem querer.

Um bom tempo atrás, o café era algo que pouco me apetecia. Bastava um punhado de açúcar, e qualquer coisa quente servia. Até o dia que tomei meu primeiro café sem açúcar, lembro como se fosse hoje.

Eu, recém formado, cheguei com meu poderoso Fusca num daqueles hotéis de luxo de São Paulo. Morrendo de fome, com a cabeça latejando, a boca completamente seca de uma ressaca mal curada e precisando urgentemente tomar um café e comer alguma coisa. Fui com tudo para o restaurante, louco para me deliciar no café do hotel. Foi então que me liguei que o preço do estacionamento e do café da manhã levavam todo o dinheiro que eu tinha para almoçar e jantar. Era uma coisa ou outra.

E só dava eu no Congresso de Odontologia Preventiva. Cheguei cedo para tomar um cafezão de hotel e durengo, perambulando igual barata tonta, já me contentando com uma média requentada. Não que mais que de repente, penetrei numa sala de onde exalava um delicioso aroma de café recém coado.

“Bom dia Professor” cumprimentou-me uma sorridente mocinha, “o café acabou de sair e veja, os sanduichinhos também acabaram de chegar para os professores, sirva-se”. Nem precisou insistir.

Mas “bahh” e o açúcar?

“Ai professor, vocês dos Congressos de Prevenção são muito engraçados mesmo…”.

Cara, no Congresso da Associação Brasileira de Odontologia Preventiva, açúcar era a última coisa que ia ter. Aí não teve jeito. E nos dois dias seguintes também. Faturava o lanchinho bem cedo na faixa e o café sem açúcar já estava descendo numa boa.

De lá para cá, se tiver um grão que seja de açúcar, ele não me desce. E tem que estar quente, né? Estes cafés de restaurante que chegam na mesa frio e que a gente consegue tomar numa golada só são de doer. Outra coisa, eu prefiro tomar café em pé, e de preferência, no balcão. Tem outro sabor. Aliás, um cafezinho no copo e uma média fresquinha com manteiga na Panificadora Washington Luiz é um santo pecado.

Também sou suspeito para falar que o café do meu consultório é um espetáculo, afinal é o veneninho que me turbina diariamente. É de coador, claro. Talvez o segredo esteja na minha canequinha. Olha aí outra excentricidade: o copo. Prefiro copo do que xícara. Tenho um especial na minha casa, daqueles de boteco que também servem pinga, com o fundo grosso que é sensacional. Deixa o café da minha esposa delicioso.

“E os de máquina, não toma nunca?”.

Olha, o único lugar que me tirava de casa para tomar um café infelizmente fechou. Era o São Paulo Café, ali no Canal 3 pertinho da praia, do meu amigo Dega. Mas hoje está difícil. Se bem que eu não deixo de entrar na Casa do Cafezinho sempre que vou ao Gonzaga ou de provar alguma novidade quando estou por perto da Bolsa do Café.

E pesquisando um pouco, meu grande amigo Eduardo Nettuzzi, que sabe tudo de café, confirmou minhas expectativas: “sempre digo para as pessoas que apreciam um bom café, mas não trabalham com o grão como eu, é claro que existe o café bom e o ruim. Porém, o melhor mesmo é sempre aquele que a gente gosta, ou seja, aquele que nós estamos acostumados a beber, porque no fundo café é mais costume do que a própria qualidade em si”. E deu as dicas dele: “para o café expresso recomendo a Casa Santa Marta e a Brunela do Gonzaga, e para um bom café de coador, o lendário Restaurante Paulista na Rua do Comércio”.

No final das contas, vejo o café talvez como o cigarro para o fumante. Mais do que um vício irrecuperável, ele é o amigo que em silêncio lê meus pensamentos, a poção mágica que me acalma e muda todo o ambiente com seu aroma, e ainda por cima me envolve, protege e esquenta meu coração. Ou seja, sem café não dá mais para viver.

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