REVISTA GUAIAÓ
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[ Gastronomia ]

Em frente à praia

por Marcos Denari
fotografia Marcos Piffer 

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Lá vem ele de novo com o mesmo papo:

- Mas não tem nenhum boteco para a gente petiscar em frente à praia? Quero ver o mar…

O único chefe que eu tive, depois da minha mulher, claro, mas mais do que um chefe, um grande amigo e um grande mestre. Do alto de seu conhecimento sobre os meandros do mar e sua culinária, perguntando de bar com a mesma autoridade com que comanda seus alunos e subordinados na USP, o Professor Mestre e Doutor Marco, ou Marquinho como foi chamado desde que apareceu por aqui, toda vez que vem à Santos me aporrinha a cabeça querendo comer na praia. Não em um restaurante. Quer um boteco… E um boteco bom, porque o bico fino ainda por cima é metido a gourmet.

- Marquinho, você quer um boteco para comer bem ou ver a praia? Escolhe, os dois juntos não têm.

- Não quero saber, Denari. Se vira, já estou chegando em Santos… E não me vem com restaurante fechado com ar-condicionado, quero sentir o cheiro do mar.

Ah é? Vamos para um quiosque lá na praia então. Mais na praia, impossível… E sabe que no final das contas, até que não estava de todo mal? Recém-inaugurado, arrumadinho, bonitinho, debaixo das árvores, acho que os quiosques da praia podem dar certo: isca de peixe, lula à dorê, camarãozinho, o básico, nada especial, mas honesto. E na Praia! Meu chefe torceu um pouco o nariz, mas não foi deselegante, nem precisava, dava para ver pela cara dele que não era bem aquilo que ele queria. Já foi bem pior, antes só serviam sanduíche, não é mesmo?

Mas o problema ainda é o mesmo: onde petiscar em frente à praia?

Quem me conhece sabe que o meu grande desafio e meu maior prazer é descolar botecos que consigam conciliar boa comida, simplicidade e descontração, de preferência com cerveja muito gelada e preço honesto. Digamos assim, as delícias do submundo da “baixa gastronomia”. Esse tipo de lugar geralmente tem um ou outro petisco típico e que ninguém consegue fazer igual, normalmente é tocado pelo próprio dono se não pela família e transpira pelas paredes e cadeiras um ambiente que nos faz sentir em casa. Mas, onde tem um lugar deste em frente à praia? E que dê para sentir o cheiro do mar? Me poupe Marquinho.

Sabe que toda esta função me fez lembrar daquele que já foi um dos meus preferidos e que seria perfeito para meu ex-chefe: o Meia-Meia.

- Meia-Meia do “seu” Jacinto?

- Isso mesmo, a turma do Carvalhinho e do Erasmo Dias que chamavam assim o bar, diziam que a cerveja sempre estava meio gelada, meio quente…

Estava sempre gelada para mim. Mas também eu, no auge dos meus vinte e poucos anos, não sossegava na cadeira, ia toda hora pegar a cerveja direto no balcão com o “seu” Jacinto para servir meus tios, meus Grão-mestres da boa mesa e do bom copo. Recebê-los aqui em Santos e levá-los para conhecer minhas novas descobertas era sempre um grande prazer e provavelmente para eles também.

Aliás, prazer mesmo davam os petiscos do Meia-Meia. Quando a peixaria do lado fechava, escorregavam-se umas mesas a mais e dá-lhe cerveja, manjubinha, pescadinha frita, ostras de Cananéia, marisco lambe-lambe, polvo à vinagrete, camarão e lula no muito alho e azeite. De frente para o mar, lá na ponta da praia, com muito trabalho, muita dedicação e com aquela cara meio desconfiada/meio simpática, “seu” Jacinto dobrou, triplicou e multiplicou sua clientela. Um belo exemplo de trabalho, perseverança e sucesso.

Português de origem, depois de encarar uma guerra na África, veio para o Brasil com mulher e filho para recomeçar a vida. Trabalhou na padaria do primo e dois anos depois já abria a sua própria em sociedade. Depois abriu um bar, outro bar, até finalmente se fixar ao lado da peixaria. Sucesso absoluto, o Meia-Meia estava concorrido demais, a ponto de expandir-se, associar-se com a peixaria do lado e fazer surgir o Mar del Plata, isso em 1992. Lembro muito bem de ter ido quase que na inauguração do novo restaurante. “Seu” Jacinto fez questão de mostrar a sua nova cozinha. Parecia o Maracanã, ainda mais comparado com a cozinha-para-no-máximo-dois do Meia-Meia que era tocada pelo seu cozinheiro Leopoldo, seu braço direito por muitos anos. Um fogão gigante e quadradão no centro, muito aço escovado, tudo brilhando, tudo lindo, e tudo muito limpo, mal tinham usado toda aquela parafernália.

Voltei correndo ansioso para a mesa, morrendo de fome, mas a decepção foi do mesmo tamanho. Também pudera como acertar a mão naquela baita cozinha depois de anos cozinhando praticamente numa solitária? Tudo lindo, tudo arrumadinho, mas a comida não tinha aquele delicioso, conhecido e esperado sabor, tinha gosto de panela nova, dá para entender? “Seu” Jacinto, cadê aquele temperinho do Meia-Meia?

Mas nada que o tempo não resolvesse. Um tempo depois voltei, as panelas e o Leopoldo já estavam calibrados e assim por anos o Mar del Plata foi um dos meus prediletos. O negócio cresceu, o “seu” Jacinto abriu o Mar del Plata 2 no lugar do antigo Conde do Mar, próximo ao Canal 5, por onde andei algumas vezes até buscar outros rumos e perder o contato. Desde então, foi um bom tempo sem ver o “seu” Jacinto.

Depois de algumas boas referências e já sabendo da sua origem, fui ao Espaço Gastronômico J. Garcia. Fino, mas sem frescura, adequadamente decorado, serviço diferenciado e cardápio tipo exportação. Coisa de primeira. Diria assim, especial… Mas que guinada, hein, “seu” Jacinto?

Do Meia-Meia para o J. Garcia foi da água para o vinho. Ou melhor, de uma cerveja meio gelada, meio quente para uma baita carta de vinho.

“É, e com uma faculdade de Gastronomia. Fui da primeira turma da Unimonte, de 2006” –  falou “seu” Jacinto, todo sorridente e muito orgulhoso.

Acho que não só por completar uma faculdade depois dos 50 anos, mas também pelo misto de uma vida de muita luta, pelo sucesso do novo empreendimento e pelos diferentes e surpreendentes pratos que agora oferece. Parabéns “seu” Jacinto! Aliás, ele tinha muito mais histórias para contar, dava para uma revista inteira.

O J. Garcia tem ar-condicionado e não é boteco não, viu chefe? É outra categoria, mas você ia adorar o Meia-Meia.

P.S.: O Meia-Meia não existe mais, mas o J. Garcia está a todo vapor. Fica na Av. Almirante Saldanha da Gama, 77. Onde o “seu” Jacinto está sempre pronto para um bom bate-papo. 

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