REVISTA GUAIAÓ
  • Cinecidade

[ Cinecidade ]

MAR, ADVÉRBIO DE MODO INFINITO

por Flávio Viegas Amoreira
fotografia Marcos Piffer

“Mar, belo mar selvagem / Na beirada das ondas – a minha alma
Abriu-se para a vida…”
Vicente de Carvalho

Foto de Marcos Piffer Revista GUAIAÓ 09

THALASSA! A denominação do Oceano primordial que reverbera as teogonias: o Mar primevo dos gregos de gênese feminina e por ambiguidade titânica da justaposição das esferas olímpicas, o Mar de caráter misógino só refeito quando no remanso de refletir Hélio, o Sol, se reconcilia com Selene, a Lua , e Eos, a Aurora.

Ouço Benjamin Britten para refletir sobre um filme que tem o Mar como grande personagem e um enredo banal de imenso efeito cênico e psicológico: é incrível como o Mar pode transformar com sua sensualidade congênita de elementos gozosos uma história piegas em uma trama trágica, edênica como seu seminal transe de sensações. Talvez só lusitanos, brasileiros e ingleses possam falar do Mar com intimidade de irmão ‘toscano’: ainda assim foi o parisiense Luc Besson que num tríptico amoroso com subtextos homoafetivos (não fosse o Mar pura ambiguidade e androginia) quem roteirizou e dirigiu, o Oceano-Mar com cores primárias na superfície da história com uma pretensa banalidade esportiva para dar relevo ao abissal, à profundez titânica sobrepondo-se  aos conflitos narcísicos engolidos por sua placidez túrbida espreitando nossos destinos.

Nada casa mais com o Mar que música e poesia: a trilha sonora de Eric Serra e a fotografia de Carlo Varini (poesia clicada) só competem com a beleza arquetípica dos protagonistas Jean-Marc Barr, um Adônis fugidio da voluptuosa Rosana Arquette, feito Afrodite inquieta surgida das águas. Ambos disputados em afeição competitiva e desejo reprimido por Jean Reno, digno Poseidon dionisíaco para o Tritão apolíneo do quase caravaggesco Barr. Como lembraria o deliciosamente afetado Noel Coward: “Que força tem as canções e fitas ‘baratas’ para o entretenimento de nossas emoções!”. Imensidão Azul, maior sucesso de bilheteria no cinema francês até os lacrimosos Amélie Poulan e Piaf, é dessas telas amplas de que ‘deixam-se ver’ sem pretensões do intelecto (freudismo à parte) para o apetite dum gin tônica em Bora Bora ou na costa cartaginesa entre Marselha e a Tunísia.

Jacques Mayol (Barr) expressa de modo deliberado a mítica do retorno ao útero do ser híbrido, náufrago em terra firme estranhado da rotina dos homens: serve de anteparo lírico ao telurismo peninsular do amigo Enzo Molinari que imanta e emula num jogo de rivalidade estilizando aproximação e dissolução: só o Mar reúne suprimindo individualidades em nome num amálgama indiscernível de comunhão. O Mar cercado de Oceano expressão do inconsciente coletivo, campo fértil ao infinito para alquímica de Solutio: ‘dissolvência’ para purificação ou regeneração, onde o duplo esgrime de arpão em punho com a sombra que o reflete.

Luc Besson nos conduz pelo mito de Mircea Eliade e Joseph Campbell com maestria dum Spielberg forjado em Salônica ou Taormina, esse porto tido eixo determinante para os hemisférios de todos os mundos da Antiguidade Greco-romana e usado em Imensidão Azul para metáfora de nosso velejar entre o Ego e a integração. O Oceano de Besson remete ao indiviso e ao imemorial: o sempre foi, sempre será de Mellville, Jack London ou mais recentemente no estupendo romance O Mar do irlandês John Banville. “As pequenas ondas à minha frente, na beira da praia falam em tom animado de grandes mutações, a pilhagem de Tróia ou o desaparecimento de Atlântida: tudo no Mar é luminância”. O Mar de Luc Besson em camadas do Eterno presentificado no abismo redentor psicológico, existencial e histórico. Golfinhos tão caros à Ecologia são na mítica símbolos de transfiguração. Imensidão Azul traduz essa ideia que me fascina como refém do Oceano:  navegadores, mergulhadores, surfistas e poetas têm mesmo compromisso com esse xamanismo dos plânctons e anêmonas. O mar sempre me supriu de todas líricas: ele é diante o céu metalinguístico: narra, conta, insurge, ecoa: ensina o poeta que os tubarões enxergam, em preto e branco, os predadores, enquanto os golfinhos veem em caleidoscópio: Imensidão Azul  é um prazer para quem pastoreia ondas e caminha no continente tendo bússola, a tábua das marés refletidas nas nuvens, nos ventos… Sertanejo dos desertos úmidos…

 

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