REVISTA GUAIAÓ
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Caymmi, o menino e o mar

por Julinho Bittencourt
fotografia Marcos Piffer 

Revista GUAIAÓ 09 fotografia Marcos Piffer

O disco ficava ali na prateleira. A sua capa, com uma gravura que explodia em cores horizontais e verticais que serviam de fundo para pescadores e seus peixes, emoldurou a sua infância. O menino, nascido ali mesmo, em Santos, conhecia o mar de perto, desde sempre. No entanto, aquele mar do disco que exalava mistério, paixão e morte parecia vir de outro mundo. Definitivamente não era o mesmo daquela sua praia urbana, com suas pás e baldinhos, fotógrafos com seus monóculos coloridos e turistas de biquínis e pernas compridas. Aquele mar ficava mais além de tudo o que podia pensar. O seu era seguro, terno e morno, azul-escuro e fechado em uma baía cercada de navios. Aquele se perdia de vista, se perdiam parentes, se perdiam amores. Foi com o tempo que conseguiu ler também as letras redondas que cercavam a foto da capa: Canções Praieiras. Logo abaixo, um tanto mais complicado, em letras retas, um nome que o acompanhou dali para sempre: Dorival Caymmi.

O mar do menino, feito de poucas tragédias, foi ensinando aos poucos o significado daquele outro que o violão inusitado imitava tão bem, quase como se fosse a mesma coisa travestida em outras sensações. O balanço, que se aprende de saída, aquele que embala e faz da vida esse movimento repetido se mostrava em variações tão íntimas à medida que se arriscava mais ao fundo, por tantos e outros mares. O tempo, que se traduzia nas idas e vindas desde o berço até o colo da mulher amada – ele podia não saber – mas já era um velho conhecido. Estava tudo ali ao alcance da mão, naquela prateleira, naquela capa, naqueles sons daquele disco daquele cantor de voz grossa, abaritonada que o pai, assim como o violão ao mar, também imitava tão bem.

Na medida em que se arriscava, como todos os outros meninos, em aventuras marinhas, contrapunha aquele jogo de significados aos seus e de todos a sua volta. O mar que era feito de ondas boas de brincar, era feito de sofrimento e trabalho, de dia a dia, alimento e morte. Era feito de poucos com muito que mandavam e de outros muitos com muito pouco que trabalhavam. Já sabia disso também. Estava tudo ali, na prateleira. Conforme o tempo mudava as suas marés, ampliavam vertiginosamente os aprendizados que, por muito pouco ou quase nada, debruçado sobre aquela Sonata verde no canto da sala, já havia, ao menos ou bastante, ouvido falar. Estava sim, tudo ali contado, naquele pequeno disco de poucas polegadas e apenas oito canções.

E dessa forma, o menino que não sabia de nada, percebia aos poucos que já havia ouvido falar de tudo. O mais definitivo e fulminante viria mais tarde quando se deu conta que aquele balanço levava as coisas embora. A sala onde ouviu aquilo a primeira vez, quase todas as pessoas que estavam à sua volta, a cor das paredes, o sol pela veneziana, tudo, tudo, tudo iria se perder, senão com o tempo, de repente. Foi quando sentiu o primeiro sinal de angústia ao perceber o que queria dizer o verso “A jangada saiu com Chico Ferreira e Bento. A jangada voltou só”. A amplidão daquela tristeza infinita se estendia por diversas outras narrativas. E talvez aí, tenha caído em si também para o significado necessário da narrativa em sua e em todas as outras vidas. E chorou ao seguir a fantástica história do Pedro pescador que passava a noite no mar. Aquele que todos gostavam e mais do que todos Rosinha de Chica, que seria a mais bonitinha e mais bem feitinha de todas as mocinhas lá do arraiá. O desfecho de história tão linda, pontuada pela repetição óbvia e necessária que de que o mar quando quebra na praia é bonito, é bonito, trazia o fim da tragédia que o intrigava. Por que aquilo, enfim, se repetia? E foi aí que percebeu a mais terrível de todas as lições. A vida, essa mesma protegida por aquelas paredes e pessoas, incide em riscos terríveis. Mas quem quiser vivê-la não tem outro jeito se não corrê-los.

O pequenino disco deixou um último aprendizado imprescindível ao menino. Que aquilo tudo, o balanço, os sons, personagens e suas lutas, enfim, todas aquelas coisas acontecem, de um jeito ou de outro, em todas as partes. Mas daquele jeito, com aquelas cores e notas, só poderia se dar num único lugar do mundo. E foi então que o menino acordou para o sonho que nunca precisou dormir para sonhar. O de ser de algum lugar e levá-lo consigo aonde for.

O menino cresceu, como todo menino cresce, e tem sobrevivido aos seus mares. Mas, desde sempre, passa a vida agradecido àquele disco daquele moço de voz grossa que o ensinou quase tudo que ele sabe dela.

Revista GUAIAÓ 09 fotografia Marcos Piffer

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