REVISTA GUAIAÓ
  • A praia e eu

[ A praia e eu ]

A mulher-peixe

por Marcus Vinicius Batista
fotografias Marcos Piffer

 Revista GUAIAÓ 09 fotografia Marcos Piffer

Qualquer criança aprende, em Ciências, que a maior parte da Terra é composta de água. Na adolescência, ela entende que o corpo humano é feito, na maior parte, pelo mesmo líquido. Na universidade, compreende que o comportamento humano envolve não apenas biologia, mas também a relação ambiental.

Leila Borges Martins, de 52 anos, personifica as três lições. Ela só não tem nadadeiras e guelras por um desvio da evolução. Guarda-vidas há cinco anos, ela trabalha no Complexo Esportivo Rebouças, em Santos, onde acompanha as aulas de hidroginástica e natação.

Leila vive na água. À noite, treina na Universidade Santa Cecília. São duas horas diárias de braçadas. Nos finais de semana, quando não disputa provas de travessia, ela se junta aos amigos para o que chama de passeio aquático no mar. A guarda-vidas nada até no último dia do ano, com mais 200 pessoas. “Levamos champanhe e celebramos”.

A relação com o mar começou aos três anos. Filha de sargento do Exército, Leila morava no Forte Itaipu em Praia Grande. Aprendeu a nadar no canto da praia, ao lado do Parque Estadual Xixová-Japuí. “Brincava de casinha nas pedras”. Navegar pelas piscinas como atleta foi natural. Aos 10 anos, defendia o Saldanha da Gama. Aos 18, casou com um dos técnicos. Teve dois filhos, Keyton, de 30 anos, e Keyner, de 33. Ambos foram nadadores.

Com o divórcio, foi trabalhar em banco. Ficou lá por uma década, sem deixar a natação. No banco, conheceu o segundo marido, José Artur. Ironicamente, ele não era nadador, mas a acompanhava nas competições. José Artur era polido até quando reclamava. Numa das travessias, disse depois de tanto esperar: “Já li o Estadão todo”. Há nove anos, Leila enfrentou a travessia mais turbulenta. José Artur morreu de infarto aos 52 anos, a mesma idade dela hoje. Para não se afogar, Leila mergulhou na piscina. “Nadava chorando. A natação evitou que eu tomasse remédios”.

Em 2007, a vida profissional de Leila mudou de curso. Ao ver uma faixa na orla, prestou concurso para guarda-vidas. Venceu 400 concorrentes. Passou na natação, mas foi reprovada na corrida, prévia do que aconteceria nos anos seguintes. Leila permaneceu três anos na praia até se transferir para o Rebouças. A mudança veio a calhar por conta de uma lesão crônica no joelho direito. Até agora, foram seis médicos, infiltrações e dores até para ficar em pé por uma hora. Ela aposta em tratamentos alternativos à cirurgia. Se operar o joelho, Leila ficará até dez meses sem nadar. “Não vou aguentar”.

Ela não tira os olhos da água nem fora dela. Durante a conversa com a revista, ela pediu licença para orientar um aluno, de 60 anos, que reclamava de dores no braço. “Dá uma nadadinha que melhora tudo”. O idoso seguiu o conselho e, meia hora depois, deixou a piscina. Quando passou por Leila, sorriu e agradeceu.

O Rebouças é o quintal da casa dela. Ao lado de uma das piscinas, Leila montou horta e pomar, que abastecem professores e alunos. Dali, saem manjericão, capim-limão e frutas também para os pássaros, de sabiá a sanhaço, que a visitam todas as manhãs.

Leila quer repetir a viagem que fez à Itália, em 2013, para disputar uma prova com seis amigas. Ficou entre as 50 melhores. Deixou passar uma travessia em Portugal porque não queria ir sozinha. “Sou dependente de técnico”. Além de personificar as aulas de Ciências, ela mantém viva uma das máximas freudianas. Na biografia dela, nada é por acaso, ou como diz a dentista dela: “Correm cloro e água do mar no seu sangue. Em dia de chuva, você mergulha até em poça d´água”.

Revista GUAIAÓ 09 fotografia Marcos Piffer

Voltar ao topo