REVISTA GUAIAÓ
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Sobre as Ondas, sobretudo!

por Gino Caldatto Barbosa
fotografia Marcos Piffer 

Revista GUAIAÓ 09 foto Marcos Piffer

Desde o verão de 1951 a praia das Pitangueiras no Guarujá nunca mais foi a mesma. A presença do edifício “Sobre as Ondas”, concluído naquele ano, mudaria definitivamente o cenário da paisagem beira-mar. Pudera, a novidade visual recaia sobre uma das pioneiras construções de grande porte da região. Monumental para os padrões construtivos da época, o edifício de apartamentos podia de qualquer lugar ser avistado, condição pitoresca que o converteu de imediato no principal cartão postal da cidade.

Coube a Antônio Roberto Alves Braga, médico da capital, a Iniciativa da construção na encosta rochosa da Avenida General Rondon, no caminho para a praia das Astúrias. Braga fora diretor-secretário do Banco América do Sul, e com financiamento facilitado trouxe o amigo Oswaldo Corrêa Gonçalves para avaliar o empreendimento. Arquiteto, Oswaldo era natural de Santos e, portanto, conhecia bem a região e suas potencialidades, estando incumbido naturalmente a desenvolver o projeto.

O local escolhido tinha forte apelo visual, uma encosta onde por bom tempo funcionou o velho hotel Orlandi, junto a praia e, evidentemente, sobre as ondas. Por sua vez, a responsabilidade do trabalho vinculou Oswaldo a Jayme Campello de Fonseca Rodrigues, experiente arquiteto que mantinha escritório próximo ao seu, na região central de São Paulo. Conceber um edifício de apartamentos dentro do novo conceito da arquitetura moderna para ambos seria estimulante e, ao mesmo tempo, inovador em suas carreiras: Oswaldo até a ocasião havia ensaiado alguns trabalhos no gênero sem muito destaque. Jayme se notabilizara no mercado com projetos em estilo Art-Decô.

Aprovado em 1945 o “Sobre as Ondas” evocava linhas compositivas renovadoras de um modernismo incomum à cidade. Volumetria curva e vertical apoiada sobre pilotis, contrapondo a horizontal marquise de bordas sinuosas avançada sobre o mar, confiava ao edifício superior destaque na modesta paisagem semi-urbanizada do entorno. O programa de necessidades acolhia três tipos distintos de apartamentos – unidades de um a três dormitórios – salão de jogos, restaurante e playground. Terraços de verão envidraçados, em projeção sobre as águas, com acesso direto à praia adicionava condição inovadora à vida moderna que se pretendia difundir. Como se esperava o “palácio do sonho debruçado sobre o mar”, conforme divulgado à época, teve grande êxito comercial.

Nem tudo foi um mar de rosas e tão logo se iniciaram as obras uma tragédia abateu a equipe. Em 1946, enquanto vistoriava de barco a construção das primeiras lajes, Jayme sentiu fortes dores no pâncreas vindo a falecer precocemente, aos quarenta de um anos de idade. Assim, o jovem Oswaldo logo foi obrigado a prosseguir os trabalhos; fiscalizou e procedeu ajustes necessários que se impuseram ao longo dos cinco anos de obras.

Dedicação e cuidados dispensados ao projeto trouxe reconhecimentos aos autores. Premiado com a Medalha de Prata no Congresso Pan-americano de Lima, Perú, em 1947, na mesma época recebeu Menção Honrosa na Trienal de Veneza. Importância e significado adquirido no tempo determinou sua preservação como bem cultural do Estado de São Paulo pelo CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo. Valorização há tempos manifestada pelos moradores que, irredutíveis às reformas que assolam prejudicialmente antigos edifícios da região, o mantém conservado segundo a formulação inicial de Jayme e Oswaldo.

Neste início de século vinte um o “Sobre as Ondas” continua sendo o mais belo e emblemático edifício da região. Cartão postal admirável, ainda nos evoca lembranças de um passado quando a arquitetura se impunha como objeto transformador da sociedade.

Revista GUAIAÓ 09 foto Marcos Piffer

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