REVISTA GUAIAÓ
  • Cinecidade

[ Cinecidade ]

UMA NOITE DE TRANQUILIDADE

“A primeira noite de tranquilidade”, obra-prima de Valério Zurlini

 

Por Flávio Viegas Amoreira
Ilustração de Paulo von Poser

A evanescência das brumas abrindo-se lentamente num píer entre o mar duma baía reentrante em encontro com um estuário ferruginoso. Assim começa “A primeira noite de tranquilidade”, obra-prima de Valério Zurlini,  o filme que mais remete a Santos mítica. Toda real beleza é trágica, diz-nos Dostoievski nos “Karamazov”, e essa fita revela toda dramaticidade de um personagem que chega a um desses portos que são como cidades-estado: Tânger, Xangai, Trieste, esses promontórios que trazem do Oceano todo abissal paradoxo da existência: melancolia na superfície sobre universos em ebulição liquefeita. Só a proximidade do Oceano-Mar poderia dar toda pungência ao personagem de Alain Delon nesse que é considerado dos mais brilhantes manifestos existencialistas da sétima-arte. Enquanto espreito pequenas embarcações, iates e veleiros solitários, grandes navios ao largo na Ponta da Praia que é largada e chegada de meus sonhos, porto e término, o raio de luz não lamenta que seu lume ceda à sombra seu instante. Chegando como forasteiro das esferas, Delon irrompe como os anjos sem asas de Michelangelo, desterrado e enreda-se em tramas amorosas dignas num homem em “disponência” ao seu destino, ao “si-mesmo” de sua facticidade. Das atmosferas, as baías são as mais simbólicas dum conforto uterino: quando as vagas confortam o ser de estar protegido diante do infindo. “Sopra o vento… Convém tentar viver! Às ondas vamos, refazendo a vida!”. O poema “Cemitério Marinho”, de Paul Valéry, é convocatório como à luta e lida no epigrama de Goethe encerrando todas as nossas possibilidades até o farol e o abismo: “Por que a morte é a primeira noite de tranquilidade? Porque fundamentalmente se dorme sem sonhos”. Esse aforismo faz a ponte entre o mestre das “Afinidades Eletivas” até Heidegger, que inspirou Zurlini: as utopias sociais, as ilusões terrenas, tudo, todas se dissolvem na visão intermitente que tenho do Homem diante do horizonte marinho. Intelecção de um cinéfilo obsessivo e emotividade dum escritor permeado do “sentimento atlântico do mundo”: eu sinto estar dentro dos filmes que forjam minha imagética, a plasticidade de minha emocionalidade. Quando só no vértice/vórtice das dobras insulares desse feixe de terra que compõe uma cidade, pareço esperar o professor de literatura Daniele Dominici como contrapartida de minhas angústias,  feito corais cercando meu espírito. Esteta, Zurlini deu a Delon estatura dum Apolo decaído, niilista, um estrangeiro “camusiano”: quando se gosta demais de Arte sempre fica o talvez e talvez ainda seja esse o cenário mais aproximado do que suponho representação cinematográfica da Vida. Quem aprecia e sente em demasiado  sempre deixa margem a foz de novos rios afluindo em sensibilidade. O professor Dominici (Delon), como propõe Heidegger, vive a possibilidade, seus riscos mais do que um presente desprovido da transcendência original. Como o mar, sinto cumplicidade com essa coincidência entre “acontecer” e “começar”: o fascínio é que, como as ondas, não “sou”, “aconteço!”.  Para isso, liberdade deve combinar com extrema amplidão diante do Nada: iluminar-se no que se angustia. O espectador de cinema quando envolvido pela trama e ambiência torna-se refém psicológico de construções que vão além da montagem: uma emotividade que vem do espanto ou da ternura: ela, a ternura, é como o cérebro do espírito, nos cativa pelo espelhar. A empatia ou identificação é um espelho no qual cada um reflete sua imagem. Para todo sempre, “A primeira noite de tranqüilidade” será a película que me remete à Santos que adormece sob um poente violáceo e o homem só pelo píer provando a instransferibilidade de nossos sentimentos: ninguém sente como outro, mesmo tentado a compartir o senso de navegar a mesma jornada.

Cinecidade por Flávio Viegas Amoreira - Ilustração de Paulo von Poser

Alain Delon é um dos últimos ícones da estatura estelar de Liz Taylor, Brigitte Bardot, Jeanne Moreau, que fizeram a beleza aprender a ser talentosa e não paralisante. Só Delon poderia traçar a tragicidade aliada à Beleza que o Mar encarna de modo assombroso: existe sempre uma suprema ambiguidade na Beleza, placas tectônicas sob uma calmaria de placidez convidativa. “La primma notte de quiete”, o título em italiano remete a conceitos que me são caríssimos com esse tom santista: Destino, desejo, irreversibilidade. O personagem de Delon chega a um porto como quem divisa sua fortuna, fado, ventura e fatídico desfecho sem mais ancoragens… O que em mim sente, pensa: assim como percepto líquido não me sai das retinas seduzidas esse quadro rodado com o esmero de um De Chirico por Valério Zurlini… É Santos que reinvento: como em meu poema que diz do mântrico círculo das águas: “chuva no mar é desejo”.

Quem sabe seja nascer apenas um embarcadouro e o futuro infindável, travessia entre longe e o nunca: um alguém que sempre ancora novamente… ou só caminha vindo de onde.

FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA Colaborador GUAIAÓ 01

Voltar ao topo