REVISTA GUAIAÓ
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[ Entrevista ]

A pesca e o poeta

por Marcus Vinicius Batista
fotografias Marcos Piffer

 Revista GUAIAÓ 08 foto Marcos Piffer

A paixão do diretor-técnico do Instituto de Pesca de Santos, Roberto da Graça Lopes, pelo mar rompe as paredes dos laboratórios científicos. É uma relação de amor que ele expressa melhor pelo lirismo, por vezes esculpido em haicais, técnica nascida no século XIII no outro lado do mundo. 

São escritos do passado
Duros
Difíceis
Que o paleontólogo lê

Nos ensinam
Como era o peixe
O dinossauro
O mundo pré-histórico

A morte
O soterramento
A conservação
A viagem no tempo

Fósseis testemunhas
Que o acaso conservou
Vidas pétreas
Querendo a eternidade

Vitoriosas testemunhas
A mostrar ao Homem
Que na imensa esteira da vida
Cada espécie é breve momento

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A poesia acima se chama Fósseis e foi a maneira encontrada pelo pesquisador Roberto da Graça Lopes, de 62 anos, para explicar biologia aos filhos quando estavam no Ensino Fundamental, nos anos 90. Ele a chama, aliás, de Poesia Biológica. Mas o pesquisador e atual diretor-técnico do Instituto de Pesca de Santos só percebeu que havia uma relação de amor entre meio ambiente e poesia na década seguinte quando conheceu o Haikai, forma poética japonesa de três linhas. Pelo formato, a primeira e terceira linhas devem ter cinco sílabas. Na segunda linha, sete sílabas.

Formado em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro há 39 anos, ele comanda 69 pesquisadores no instituto, com unidades em Cananéia, Santos e Ubatuba, desde maio de 2013. São biólogos, agrônomos, zootecnistas, veterinários, oceanógrafos, ecólogos e engenheiros de pesca.

É a segunda vez que Roberto exerce o cargo. A primeira foi entre 1989 e 2004, quando saiu para fazer o doutorado em Ictiologia na Unesp, em Rio Claro. Estudou a pesca do camarão sete barbas e a fauna que o acompanha, por meio da produção e biologia da espécie. “O camarão sete barbas é um dos recursos pesqueiros mais exportados do Estado de São Paulo. A captura precisa ser disciplinada”.

Muitas destas recomendações não são novas. Os alertas sobre os riscos de poluição por mau gerenciamento pesqueiro vêm sendo feitos pelo pesquisador há mais de 15 anos em artigos científicos.

Escrever artigos e apostar na difusão da Ciência são atividades que mais o agradam em 37 anos de instituto. “Não me interessava por pesca. Sempre tive interesse por pesquisa. Gosto de ler dados, pensar no que pode ser e descrever com clareza”.

A ciência o aproximou da elevada consciência ambiental. Para ele, pesca é ciência, e acima de tudo, um instrumento de cidadania. “Não pesco e não gosto.”

Roberto nasceu no Marapé, bairro tradicional de Santos, e sempre morou na mesma casa, na rua Saturnino de Brito. “Vim do hospital para aquela casa, só saí quatro anos para estudar fora”. Ele vive com Roseane, com quem se casou há 35 anos, e o filho Raphael, arquiteto. Possui também duas filhas: Roberta, dentista, e Rachel, que trabalha no ramo de Hotelaria, em Vancouver, no Canadá. Não a vê há nove meses. “Só tenho um celular a mais por causa dela.”

Em conversa com a Revista Guaiaó, Roberto da Graça Lopes fala da situação atual do setor pesqueiro, dos impactos provocados pelo Porto de Santos sobre o ambiente marinho, de aquicultura, da gastronomia e da vida caiçara. O pesquisador também traduz, em voz eloquente, seu amor pelo Museu de Pesca e pela poesia japonesa.

GUAIAÓ – A produção pesqueira do litoral de São Paulo, nos últimos anos, oscila entre 22 mil e 26 mil toneladas por ano. Chegou a 131 mil toneladas em 1985. É possível falar em estabilidade de produção? É o que você chama de pressão suportável?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Os números gerais demonstram que, na verdade, não temos condições de ampliar mais a produção. Temos que nos contentar com o que o mar pode nos dar. O mar não responde na porrada. Se exagerarmos na quantidade, o mar nos responde com menos. Então, é o momento de parar para pensar. Como os números são gerais, há flutuações por espécie. E há flutuações influenciadas por mercado. Uma espécie pode deixar de ser rentável, pode oferecer menos biomassa (quantidade total de matéria viva, vegetal ou animal, em um ecossistema). Vários fatores interferem na produção. A estabilidade representa, na verdade, que o esforço de pesca não vai receber maior quantidade de biomassa.

GUAIAÓ – A estabilidade da produção se refere mais à quantidade de biomassa do que à eficiência tecnológica?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Entendo que, para poucas espécies, poderia aumentar a produção por mudanças tecnológicas. Alguns pequenos peixes, capturados pela frota de sardinha. Não há muitos recursos para mudar a condição atual, mas estamos explorando hoje o que os recursos da natureza podem nos oferecer.

GUAIAÓ – Mas não há pressões da indústria pesqueira para estender os limites da produção?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Há pressões sim. Os produtores, de uma forma geral, sempre reagem mal quanto às regras para a gestão pesqueira. Vão atrás de subsídios para a atividade. Entendem a necessidade de aumento da frota. Cada um vê a coisa de forma setorizada, segundo a própria ótica e objetivos pontuais. O recurso pesqueiro é da sociedade brasileira, toda a biomassa que existe na costa brasileira pertence à comunidade de cidadãos do Brasil. O Governo dá uma concessão àqueles que vão pescar e trazem uma parte do alimento. O Governo oferece graciosamente a biomassa. E a natureza a oferece gratuitamente. O que a natureza quer em troca? Ela quer que se mantenha minimamente saudável o lugar onde cria esses animais e que os homens retirem o suficiente para que os animais remanescentes possam retomar os ciclos de reprodução. Se as condições não são atendidas, as respostas são negativas. Alguns ambientes são importantes, não só para o estoque adulto, mas também para os animais mais jovens. Ao destruir o ambiente, o homem interfere no ciclo de vida da espécie.

GUAIAÓ – No Estado de São Paulo, a maior produção pesqueira, pela ordem, são sardinha, camarão sete barbas, corvina e cavalinha. Quais espécies estão sob risco de sobrepesca? Onde está o desequilíbrio?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Quase todas as espécies que tiramos do mar. Não é aconselhável mexer com ampliação da pesca. Não é imaginável investir em embarcações, colocá-las no mar e trazer porões cheios de animais. Hoje em dia, é pouco provável para as águas brasileiras, para a produção do Estado de São Paulo. O Brasil não tem águas tão ricas quanto às águas mais frias. As águas mais frias são caracterizadas por menor biodiversidade e maior biomassa de cada espécie. Nós temos maior biodiversidade e, consequentemente, menor biomassa. E a cadeia produtiva do pescado tem certas exigências. Por que não se industrializa a maior parte das espécies? Porque não há quantidade em escala industrial.

GUAIAÓ – Biólogos dizem que é estupidez o mercado forçar estas relações. Eles defendem que o Brasil precisa adaptar sua gastronomia às condições ambientais, e não o contrário. Você concorda?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Exatamente. Seria muito mais sábio. Nós poderíamos aproveitar muitos nichos de forma educada, equilibrada e adequada. Variar a exploração de nichos e explorar aquilo que é possível. Precisamos discutir a viabilidade econômica. O que é viável? É a retribuição da sociedade por aquele produto. Se eu consigo tornar um produto interessante para a gastronomia, haverá a retribuição da sociedade. Ou posso complementar a alimentação do mar com outros tipos de alimentos. Tem certas coisas que não são para comermos de forma exagerada. No Japão, tem um aquário na peixaria com um camarão vivo nele. O consumidor escolhe e leva para casa. O japonês prepara uma gastronomia que você se alimenta a partir dos olhos, transforma a gastronomia em arte e se alimenta com o mínimo porque é caro e falta disponibilidade. Nós, no Brasil, exageramos. Vamos comer camarão? Manda 20 quilos porque eu quero comer sozinho um quilo. Tem camarão? Dane-se o resto.

Revista GUAIAÓ 08 foto Marcos Piffer

GUAIAÓ – O brasileiro come muito peixe?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Não. Existe certa folga, mas há muito desperdício nas peixarias, por exemplo, porque não se consegue vender. O produto é muito perecível, mas não dá para transformar numa panaceia. A alimentação brasileira não pode ser baseada em peixe. Não há suficiente para todos. Na minha opinião, a carne do pescado não é relativamente barata. Não dá para competir, por enquanto, com a carne de frango. Não dá para vender peixe a preço de banana. A carne do peixe é nobre e o produtor precisa ter bom senso, pescar dentro de limites considerados seguros. Temos que equilibrar a oferta e a procura num nível de retribuição da sociedade mais elevado.

GUAIAÓ – Este desequilíbrio nas relações ajuda a entender porque, numa cidade como Santos, o pescado e os frutos do mar são tão caros nos restaurantes?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Primeiro, a procura é por carnes mais nobres que são mais caras por natureza. São capturados em menor quantidade. São para certos pratos. Depois, o que você vê é a transformação em iguarias. Quando isso acontece, o turista vai pagar mais caro. Agora, é no restaurante que o peixe sofre o upgrade de preço mais expressivo.

GUAIAÓ – Onde entra a questão ambiental neste jogo de forças (biologia, economia, política) em torno da pesca? Há preocupação ambiental entre sindicatos e empresários do setor?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
É assim: como em qualquer coisa, existem os que têm bom senso e os que não têm senso algum. No setor pesqueiro, não é diferente. Há produtores que sabem o que deve ser preservado e estabelecem limites da própria atividade. E existem os interessados em imediatismo. Não há preocupações com estabilidade para 20, 30, 50 anos. É um misto. O mercado, embora seja influenciado pela ganância pessoal, também é controlado pelas forças que têm ligação com a própria natureza. Se não há recurso suficiente, diminui a demanda por causa do preço. Se a gente obedecesse às regulações de um mercado saudável e entendesse as respostas da natureza, seria mais adequado. Subsídio é um veneno mortal. Mas não é a visão que políticos, produtores e alguns gestores têm.

GUAIAÓ – Por que o subsídio é veneno mortal? É fazer política com o que não existe, no caso, o peixe?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Alguns termos precisam ser decodificados para que não ocorram interpretações erradas. Se o fulano disser que vamos duplicar a produção pesqueira extrativista, eu digo: loucura! Agora, se o fulano disser que vai duplicar a produção pesqueira e investir em aquicultura, então não falo nada. Talvez se torne possível. A pesca extrativista é uma coisa, o cultivo é outra. O mercado de pesca, em parte, é atendido pelo reforço da aquicultura que complementa a biomassa.

GUAIAÓ – A aquicultura é essencial para o setor da pesca? E como você vê a região neste contexto?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Se for mantida a pressão de demanda, sim. A aquicultura é o único caminho de resposta, mas não tão imediata, porque precisamos de investimentos. Posso também tentar a gestão extrativista, mas é mais complicado porque não espero aumento acentuado de produção. Tenho que buscar o aumento de produção na aquicultura, seja de peixe, seja de camarão ou moluscos. O problema de cultivo no litoral é que provoca efeitos no próprio mar. As terras de litoral são muito caras para imaginar o cultivo de peixe. Para peixes de água doce, posso fazer no interior. Há ainda no litoral as áreas remanescentes de Mata Atlântica que se tenta preservar como pode. São as pressões urbanas. Existem algumas propriedades, mas produção massiva precisa ser fora do litoral, a não ser que haja cultivo direto no mar, com uso de tanque-rede. Para isso, precisamos de autorizações, tecnologia e investimentos, além de cuidados para evitar atritos com outras áreas, como transporte marítimo. Hoje, há inúmeros usos dos ambientes costeiro e aquático que seriam concorrentes. É preciso considerar também concentração de poluição, de resíduos orgânicos e pensar na poluição visual, inclusive. Em Santa Catarina, o cultivo de mexilhão provoca poluição visual. Todos esses elementos para o uso de águas públicas, de recursos naturais públicos.

GUAIAÓ – Onde entra o Instituto de Pesca no debate sobre políticas públicas para o setor?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Não somos uma instância política e nossas respostas não são dadas politicamente. Nossas respostas são técnicas. Nenhuma normativa é decidida pelo Instituto de Pesca. Contribuímos com foco numa pesca sustentável, não nos colocamos contra o setor pesqueiro. Pelo contrário. Mas não queremos que a produtividade seja ameaçada. Temos procurado ouvir o pescador dentro das câmaras temáticas. O Estado necessita ser mais restritivo, e não permissivo. É o que diz a lei. O foco é sempre a pesca estável, produtiva e sustentável. Nós contribuímos também para as normativas federais e levamos a mesma preocupação.

GUAIAÓ – A criação do Ministério da Pesca melhora ou atrapalha?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
(Respira fundo e responde) O Ministério da Pesca é atravessado pelo viés político. Pode entender que atrapalha, pode ser uma faca de dois gumes, como tudo na vida. Pode ser um organismo mais amplo que recebe recursos específicos. Pode contratar mão-de-obra especializada, isso é favorável. Agora, existe um grande problema quando um ministério está numa gangorra entre o fomento e a preservação. É dado ao Ministério da Pesca fazer fomento. E a quem é dado fazer preservação? É o Ministério do Meio Ambiente. Aí começam a dividir as coisas e a interação entre os políticos e seus apoios. De um organismo útil para disciplinar e orientar devidamente a cadeia produtiva passa a ser um lugar onde os interesses políticos estão presentes, onde indicações políticas são frequentes. Às vezes, as decisões são contrárias ao que tecnicamente deveria ser indicado. Há choques entre ministérios. O pescador fica no meio como joguete.

GUAIAÓ – Neste panorama, como fica o pescador artesanal? A cultura caiçara vai resistir a todas as pressões?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
A sobrevivência do pescador artesanal e da cultura caiçara depende menos das coisas da pesca do que da dinâmica da sociedade. Qualquer lugar do litoral tem acesso ao que acontece na capital. As culturas mais populares são muito particulares, são delicadas e precisam estar envolvidas num ambiente protetor. Este ambiente protetor é muitas vezes dado pelo isolamento, aí se mantém pura as tradições, passando de pai para filho. Os jovens vão migrar, procurar emprego em outro lugar, porque querem ganhar mais, querem tecnologia. Todo mundo quer celular, computador com internet, o que a sociedade oferece e todos têm direito de almejar. Não vamos discutir se é certo ou errado. O que efetivamente fica?

GUAIAÓ – Então é preciso estabelecer uma diferença entre cultura e economia?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Na minha opinião, cultura é herança. É muito complicada a definição de pescadores artesanais. Vamos separar. Comunidades tradicionais de pescadores, que ainda existem em diferentes pontos e muitas vezes existem por conta do isolamento e que possuem algum tradicionalismo na pesca e nas embarcações. E temos os pescadores de pequeno porte, que genericamente são chamados de pescadores artesanais. Os pescadores artesanais contribuem com 51% da produção de camarão sete barbas, enquanto a pesca industrial contribui em 49%. Agora sabemos que é maioria por causa de um trabalho estatístico mais apurado. É camarão sete barbas, não pesca em geral. Não acredito, a curto prazo, na extinção da faixa de pequeno porte, considerada artesanal. Falando de comunidade tradicional, o uso intenso do litoral, as mudanças urbanas e a dinâmica cultural, a tendência é o esgotamento da resistência destes grupos, principalmente porque os mais jovens migram e cumprem outros papéis na sociedade. Isso acontece na natureza. Quando você tem duas populações diferentes da mesma espécie e quebra a barreira que as separa, a tendência é que elas se misturem com a presença maior de quem possui características dominantes. A homogeneização ocorre pelos dominantes. A sociedade humana, de certa forma, reproduz a natureza.

GUAIAÓ – Como você vê a interferência do Porto de Santos no ecossistema marinho?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
A expansão portuária hoje está transformando muito a cidade. Não há clareza ou como prever o quanto vai alterar ou deixar de alterar o ambiente. Na minha concepção, temos a destruição do estuário de Santos, principalmente pelo retroporto, pela necessidade de aterramentos, os píeres de atracação. Isso atinge berçários de camarão branco e de outros animais. Os órgãos de fiscalização estão de olho, com exigências, mas apenas paliativas. A tendência é que toda a natureza seja prejudicada. Uma coisa ou outra. Ou impeço o avanço do porto ou imagino que possa causar impactos ambientais. É preciso bom senso, não dá para pensar porto, porto, porto e o resto que se dane. Mas também não dá para manter intocado. Vamos procurar o meio termo e destruir o menos possível. Há também as favelas, um instrumento altamente degradante. A favela destrói o mangue, exporta lixo em quantidades astronômicas para dentro do meio marinho. É um tremendo problema, não podemos permitir que as favelas se expandam indiscriminadamente.  

GUAIAÓ – Há solução para o estuário, tão castigado há décadas?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Não. Temos que evitar a destruição do canal lá para dentro. É necessário manter algumas áreas livres da intrusão tão violenta por parte de favelas e de indústrias. Manter as áreas naturais para ver se mantém a sustentabilidade das espécies dependentes. Usar o espaço com parcimônia para a expansão do retroporto. Problemas mil. Até as estradas que não suportam o escoamento da produção. Não sou favorável a programas governamentais que estimulem o desequilíbrio. Ainda têm algumas áreas intocadas que podem ser vistas quando você está subindo a serra, mas as favelas estão comendo a dentadas cada vez maiores. Não é terra de ninguém. A sociedade precisa cuidar do que são bens sociais. As áreas virgens são bens sociais que dão sustentação para ciclos naturais.

GUAIAÓ – Como pesquisador, como você vê o papel da Ciência dentro das discussões sobre preservação do ambiente marinho e, consequentemente, da pesca? A Ciência consegue entrar nesta ciranda ou a produção científica demora demais para se aproximar do mundo do pescador?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
O maior impacto é sempre causado por aquele que tem o maior trator. Se eu imaginar que os maiores tratores são as maiores embarcações e elas se voltam para novos recursos marinhos e caem em cima dele de forma descontrolada, haverá um sério problema e a pesquisa vai correr atrás do prejuízo. Se tivermos condição de antecipar as avaliações dos novos cenários, a pesquisa teria condições de orientar. Existem chances de permitir que se defina claramente qual o limite de cada espécie. Isso acontece hoje, em alguns momentos. Normalmente, sempre estamos atrás. É fácil reequipar um barco. O dinheiro é agora. Não dá tempo da gente fazer pesquisa. Dependemos de informações que são passadas pelos próprios ciclos naturais. Num certo momento, temos que esperar as respostas dos ciclos naturais, principalmente os ciclos de reprodução. Se pudéssemos regular barco a barco, provavelmente não levaríamos o recurso à exaustão.

GUAIAÓ – Mas aí não mora um problema de velocidade, na relação entre o homem e o meio ambiente?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Sinto muito. Qual é a velocidade ideal para uma espécie? Qual é a velocidade ideal para o recurso natural? Qual é a velocidade ideal para a sociedade? É isso que precisamos imaginar. Antes de autorizar qualquer um a colocar a colher no mar, pesquisa tem de ser feita. Não podemos permitir – e isso infelizmente acaba acontecendo – uma série de embarcações deficitárias que, ao ser descoberto novo recurso, cai em cima de algo desconhecido. Agir com responsabilidade e gerir com responsabilidade seria primeiro um trabalho de prospecção biológica. Vai demorar cinco anos? Sinto muito. Ponto final. Porque os recursos naturais são da sociedade brasileira e é dever do Governo investir na pesquisa de novos recursos para saber como devem ser explorados. É responsabilidade do Governo, dos pesquisadores e dos produtores. Se as pessoas atravessam tudo, quem paga são os recursos naturais. Quem paga é a sociedade. Podemos perder recursos alimentares por má administração. Eu não gosto de bagunça e de desperdício. Todos vão usufruir melhor se as coisas forem organizadas, não só alguns. A pesca precisa ser ordenada porque depende de recursos públicos.

GUAIAÓ – O Museu de Pesca esteve fechado por mais de um ano para obras. O esqueleto da baleia, por exemplo, aparece no imaginário da infância de gerações. Qual é o papel do Museu no debate ambiental? E como você se sente com o fechamento?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
O museu existe para encantar. Quando isso acontece, as pessoas aprendem melhor sobre o que precisa ser preservado. É uma filosofia voltada para a preservação pelo viés do encantamento. O fechamento são circunstâncias. O museu já esteve muito mais tempo fechado: onze anos. Deixou de fazer parte da comunidade santista, entrou num período de esquecimento. Hoje, o museu está fechado por um período muito curto. Digo para você que a recuperação das janelas tem sido feita com cuidado, com critério, com madeira apropriada de floresta certificada. Cada peça é avaliada pelo Instituto Florestal. Depois, recebe vários banhos para conseguirmos durabilidade. O museu é extremamente vulnerável em suas janelas, 81 conjuntos de janelas e portas foram trocados. São mais de 600 peças que precisam ser alinhadas. Uma curiosidade: são 880 dobradiças. Milhares de parafusos. O cuidado é grande. Vale a pena a espera para se ter uma retomada do museu com o tendão de Aquiles refeito. As janelas quebradas davam impressão de decadência. É o que queremos evitar. Ideias não nos faltam para exposições. Vamos atrás de patrocínio, não dava para pedir patrocínio com janelas quebradas. Quero deixar claro que uma instituição como o museu necessita do olhar e da exigência permanente da comunidade.

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Revista GUAIAÓ 08 foto Marcos Piffer

Depois que os filhos cresceram, Roberto direcionou a criação literária para o Museu de Pesca. O museu é uma de suas paixões, além da difusão científica. Roberto escreveu cartilhas, histórias infantis, sempre com olhar de preservação ambiental. Até que, 13 anos atrás, interessou-se por um curso de Haikai. Hoje, é o coordenador do Grêmio de Haikai Caminho das Águas que reúne dezenas de poetas. O grupo se reúne todo segundo sábado do mês, no Sesc-Santos.

A produção poética de Roberto chegou a ser exposta uma vez. O endereço, claro, foi o Museu de Pesca. Os textos falavam do mar, com ilustrações do filho Raphael Lopes.

GUAIAÓ – Como você se aproximou do Haikai?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Soube de um curso, participei dele e fui convidado para integrar o Grêmio. O Haikai é uma coisa delicada, difícil de ser feita. Não é fazer terceto, é atingir o espírito refinado do Haikai. Gosto do desafio. Fazemos uma reunião numa mesa em que uns analisam a produção dos outros. Por uns nove anos, a mestra Teruko Oda me cobrava poesia porque eu queria descrever a biologia.

GUAIAÓ – Sua temática preferida é biológica-ambiental?
ROBERTO DA GRAÇA LOPES –
Vamos entender assim. Chegou um momento que, não sei o porquê, caiu a ficha. Não faço mais Haikai aqui (aponta para o cérebro), é aqui! (aponta para o coração). Ele vem do coração. Trabalho com o que está dentro. Se ficar só com a mente, a produção é pífia. A temática nem sempre é biológica, mas falamos das estações do ano, do que percebemos na natureza, as plantas, as flores, os animais, as condições atmosféricas. Na verdade, poesias que demarcam estações.

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