REVISTA GUAIAÓ
  • Uma História

[ Uma História ]

Amar

Por: Soren Knudsen
Fotografias: Marcos Piffer

_MP32806 Revista GUAIAÓ 08 Marcos Piffer

“Quanto mais íntimo se fazia nosso contato com o mar e com tudo o que aí tinha o seu habitat, menos estranho ele se tornava, e mais à vontade também nos íamos sentindo naquele lugar”.

Thor Heyerdahl, Expedição Kon-tiki.

Nuvens escuras, baixas. Raios no horizonte. O céu carregado ameaça desabar a qualquer momento. O vento começa a mudar a textura da superfície do mar. Sob mormaço, Yara rema seu paddleboard oceânico verde e amarelo há cinco horas. De joelhos, seus braços e ombros mantêm o ritmo, a força e a velocidade.

Dois botos-cinza a acompanham desde que passou pelo Saco do Major na saída da Baía de Santos. Como batedores, nadam um pouco à frente de Yara. Quando ela diminui o ritmo eles atrasam como se esperando que ela recupere o fôlego.

Passa por trás do Montão de Trigo. A mais de dez quilômetros da costa a água funda e escura está pesada. E fria. Os respingos de água salgada, que ela levanta a cada braçada, banham o corpo queimado pelo sol, cobrindo-o com uma fina camada branca quando secam. Ardem os olhos e incomodam a boca.

É começo de maio. O vento e as ondas a empurram na direção de Ilhabela. A rota traçada, de Santos até a Praia do Bonete na face atlântica da ilha, é de 112 quilômetros. Faltam quarenta e seis. A cada braçada Yara está mais perto do seu destino. Um que a espera desde o dia que partiu para as passarelas do mundo há tantos anos. Rema para voltar para casa. Um lar que só existe na memória. Um que pretende formar novamente.
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Ressaca
Naquela tarde tempestuosa em que o pai não voltou da pesca para a segurança da barra no canto esquerdo na praia, Yara tinha 12 anos de idade. Passou dias segurando a mão da mãe que fazia vigília nas áreas do Bonete buscando respostas no horizonte. O som das ondas que gentilmente beijavam a praia dava os justos aplausos para aqueles que o mar não devolve.

O espaço vazio entre as redes, remos e canoas multicoloridas no abrigo da Dama da Noite II deixou outro vazio no coração da comunidade. “Seo” Salvatore era o líder entre os pescadores. Com ele passavam noites de solidão no mar, enfrentavam as tormentas puxando redes e linhas de anzóis para trazer o pescado para casa. A imensidão parecia menor quando ele estava junto lançando o arpão ou buscando uma praia segura como refúgio contra a força do mar. Com a morte do pai, Yara Salvatore também perdeu a mãe. Ela nunca mais voltou a ser a mesma e largou a filha para se virar nesse mundo.

Revelada trabalhando na “vila” de Ilhabela por um olheiro de agência italiana de modelos. Cedo seus traços exóticos emanaram sensualidade das capas de revista de moda na Europa. Preferida das passarelas de Milão, mergulhou num mundo que descreve como a última estação antes do inferno. Aos 25 anos, já no fim, decadente, ela despertou de uma névoa de drogas, sozinha, num hotel em Sidney na Austrália.

Sem saber como chegou lá, retraçou os carimbos do seu passaporte para reconstruir os últimos doze meses. Rússia, Arábia Saudita, Dubai, Nigéria, Serra Leoa, Indonésia, Mianmar. Não se lembrava de nada. Nem com quem deitou, nem aonde e nem com quantos. Sobreviveu, só não sabe como. Um feroz tubarão tatuado abaixo da linha do biquíni saberia. Não conta.

Nem as drogas, a fama e o sexo conseguiram apagar a sua mágoa. Voltou-se o para a ciência e para o mar. Com um doutorado em biologia marinha, atualmente é uma das vozes mais influentes no alerta sobre os impactos das mudanças climáticas no mundo aquático, que cobre mais de três quartos do planeta.

Para sentir na pele as vibrações das culturas marítimas, faz parte de expedições científicas pelo mundo. É nas danças, músicas e contos dos povos do mar que encontra o seu lugar, a sua paz. Da mãe herdou o pragmatismo. Do pai, o espírito guerreiro.

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Imenso
“Sim, amo o mar. O mar é tudo. Cobre sete décimos do planeta Terra. O seu sopro é puro e saudável. O mar é um imenso deserto onde o homem nunca está sozinho, pois sente a vida pulsando ao seu redor. O mar é o meio que permite o homem a levar uma existência quase sobrenatural; é todo movimento e amor. É o infinito vivo como os poetas já o descreveram… O mar é um grande reservatório da natureza. Foi do mar que a terra, assim por dizer, começou, é quem sabe se não terá o seu fim por meio dele! Aqui existe a perfeita tranquilidade, pois o mar não pertence aos déspotas. Ah, monsieur, a vida no aconchego do mar! Só nele se encontra a independência. Nele não reconheço mestres! No mar sou livre!”

Quando menina devorou o surrado exemplar de Vinte Mil Léguas Submarinas do pai pela primeira vez, Yara nunca se esqueceu das palavras do Capitão Nemo. Leu-o muitas vezes desde então. Mantém uma cópia da primeira edição de 1871, garimpada no labirinto dos sebos de Montmartre, como tesouro na sua estante. A determinação do capitão do submarino Nautilus a inspira. A visão tecno-futurista de Jules Verne a guia. Como eles, acredita que a tecnologia e o mar são a solução para os desafios que afetam o planeta.

Diferentemente de Nemo, não tenta resolver os desafios do mundo atacando os que considera culpados. Dedica seu tempo para obter dados. Dados que possam levar às respostas e às possíveis soluções. Pleiteia-as nas comissões das Nações Unidas para a preservação dos oceanos do mundo.

Força

Durante uma expedição ao estranho mundo de seres bioluminescentes das profundezas da Trincheira de Porto Rico no Mar do Caribe, Yara conhece Susan Chaplin. Susan vive na ilha caribenha de Tortola. É escritora, surfista, ciclista, corredora, nadadora e mais conhecida pelas remadas extraordinárias que faz. Equipada de bússola, rádio VHS, GPS, varas para afastar predadores, equipamento, água e comida, rema nas águas das Antilhas Caribenhas no seu paddleboard.

Desafiando tubarões, arraias, traiçoeiros labirintos de canais, fortes correntezas e as marés, Susan remou desde Porto Rico até Trinidad e Tobago no extremo sul do arquipélago. Sozinha na prancha, explorou todas as baías e ilhotas do arquipélago na mais pura, respeitada e paciente forma. Remou aproximadamente 15.000 quilômetros. Aos 70 anos de idade, resumiu a sua experiência: “As forças que transformam a água em neve e o açúcar com manteiga em caramelo agem em mim quando remo. Me cristalizam”.

Yara reconheceu a mesma força dentro de si. Desde menina, quando disputava as Corridas de Canoas no Bonete, sente essa sinergia com o mar. Inspirada por Susan, o paddleboard tornou-se a ferramenta para se aproximar ainda mais do mundo que ama. A prancha, extensão do seu próprio corpo, a possibilita conhecer o íntimo do mar.

Líquido
Yara rema pelas Ilhas de Juquehy. Como se fosse para saudá-la, uma baleia nada ao seu lado. O sol empurra as nuvens para o sul. A grande ilha no horizonte se acende num verde fecundo cercado do azul-marinho e turquesa. A chuva ainda ameaça cair sobre Yara. O mar e seus moradores observam a figura solitária deslizando sobre as ondas. Um tubarão tintureira a acompanha à distância sem que ela o saiba. Talvez, o espírito do pai.

No mar de movimento constante e horizonte dinâmico, onde o céu nunca é o mesmo, Yara é um ser híbrido. Mais à vontade dentro dele do que fora, aqui ela é a visitante. Há mais de vinte anos estuda o mundo aquático. Na prancha de quatro metros e meio customizada para suas pesquisas, aventura-se por baías e canais jamais alcançados por barco. Flutua sobre o mundo marinho munida de máscara, snorkel e pés de pato que permitem acesso ao universo transparente e límpido.

Yara frequentemente é confundida com um náufrago pelos navios que encontra em seu caminho. Quando percebem que se trata de uma mulher sozinha em seu paddleboard, não acreditam em seus próprios olhos. Perguntam se precisa de algo e continuam a sua rota deixando Yara e seu equipamento para trás.

Mergulhou com tubarões-baleia no Oceano Pacífico, acompanhou arraias-manta gigantes na sua migração no Oceano Índico e estudou o canto das baleias-jubarte na costa leste do Canadá. Passou anos junto ao Instituto Cousteau documentando a perda da biodiversidade em estuários, causado pelo impacto humano. Acompanhou o aumento das mortes de animais marinhos por ingestão e estrangulamento causados pelos milhares de sacos plásticos e redes indevidamente lançados ao mar.

Nas águas rasas do Caribe, Yara registrou os danos causados aos frágeis arrecifes de corais pela acidificação das águas salgadas. São os primeiros biomas a serem afetados pela mudança climática. Estima-se que nos próximos quarenta anos, setenta e cinco por cento dos corais de água rasa do mundo desaparecerão. Afetará o equilíbrio da biodiversidade dos oceanos, a defesa das comunidades costeiras que dependem das estruturas que as protegem da força das tormentas, a economia turística construída ao seu redor e o sustento das populações que dependem do mar. Comunidades como a da Yara. Como a da Praia Grande do Bonete.

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Azul
Yara alcança o sol. O mar antes cinza e ameaçador, agora vibra com cores e vida. Um arco-íris guia o caminho. Remando deitada, coloca um boné árabe e óculos escuros para se proteger do brilho refletido na água. Dois alcatrazes a sobrevoam como se fazendo reconhecimento. O sol esquenta seu corpo. Começa a sentir o cansaço. Tem que continuar. Essa jornada é importante. É o começo de um capítulo novo. Aumenta o ritmo para aproveitar as últimas horas de luz. Tem alguém esperando-a no Bonete.

Os botos não saem do seu lado. Para Yara, eles representam a imensidão do oceano que existe abaixo dela. Um mundo de seres desconhecidos, de riquezas inimagináveis, de histórias contadas em lenda. Dos Argonautas a Ulisses. Dos polinésios que o chamam de Ara Nui – O Grande Caminho. Do monstro nórdico Kraken e do redemoinho Mælstrøm dos fins dos tempos. Dos venezianos, dos espanhóis e dos portugueses. Do HMS Bounty de Fletcher Christian e William Bligh. Muito se sabe sobre os caminhos do mar. Menos sobre as profundezas desse imenso mundo subaquático.

Quando o astronauta Neil Armstrong olhou sobre o horizonte lunar e viu a Terra, exclamou: “É linda e é azul!”. O brilhante azul da água. Um planeta de água chamada Terra. Uma insignificante gota flutuando pelo gigante universo negro. Um planeta que insiste em mandar sondas para mundos áridos à procura de água para sustentar vida humana. Esquece-se de explorar o mundo dos oceanos e os que dele fazem seu lar. “Aqui” – disse Nemo, “é que existe a verdadeira vida”.

Yara rema para chamar atenção para a vida dos biomas marinhos do Brasil. Atenção para os corais, os manguezais, os ambientes costeiros, para as grandes bacias que cortam o continente e desaguam no oceano e aos riscos que a exploração do pré-sal apresentam ao ambiente aquático. Rema para dar voz às comunidades que dependem do mar. Yara, protetora das águas no imaginário brasileiro, rema para preservar a sua própria cultura.

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Paz
Escurece. A lua cheia se ergue do mar e ilumina o céu estrelado. A Ponta da Sepituba agora está a fácil alcance de Yara. Ao seu encontro chegam seis canoas do Bonete para acompanhá-la na reta final. Em menos de uma hora, dobra o costão rochoso e desliza sobre as ondas para pôr o pé na areia da praia onde não pisava há mais de trinta anos. Os dois sentinelas que a acompanham por horas tomam o seu caminho e desaparecem na escuridão.

Uma multidão a aguarda. Jovens, velhos, primos, tios e tias, vizinhos, amigos e conhecidos. Ela procura pelo par de olhos de uma pequena fotografia escolar que guarda desde a juventude. Ele a encontra num abraço carinhoso. Duas almas prontas para o segundo tempo da vida. Iluminados por centenas de velas, rezam a oração dos navegantes na rústica capela branca e azul do padroeiro São Sebastião. Agradecem pela abundância que o mar lhes oferece e pedem proteção para enfrentar a sua força.

Amanhece com vento e chuva. É dia da Corrida de Canoas. Homens e mulheres de todas as idades se lançam ao mar com destreza e força em canoas de um e dois remos. Yara participa da alegria. Não ganha, mas só por estar lá já é uma vitória pessoal. À noite, no tablado da vila, a comemoração. A comunidade festeja. Come, canta e dança. As tias fofocam sobre os causos da vida. Os tios exageram nas histórias sobre as suas façanhas no mar e sobre seus amores em terra. Os jovens namoram. Roxo – café com cachaça, todos tomam. A música e as alegres vozes ecoam pelos morros, penetram a mata e flutuam sobre o mar.

Na luz amarelada da fogueira, com os pés na beira d’água, Yara observa as crianças que brincam despreocupadas na praia. “A busca dos antigos não difere da nossa. Procuramos dar continuidade a nós mesmos, às nossas famílias e às nossas comunidades. A fertilidade é essencial, é renovação, é sexo. É o movimento do mar.” Beija o seu amado gentilmente, levanta e o leva pela mão: “É aqui na praia, esse pequeno espaço entre a terra e a água salgada, que tudo se renova e volta para o mar. O nosso mar.”

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