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Tradição e modernidade nas paisagens

Por: Juan Esteves
Fotografias: Reprodução

ANSEL ADAMS Richard MISRACH
ANSEL ADAMS E RICHARD MISRACH
A paisagem natural norte-americana tem sido objeto de grandes fotógrafos. Precursores como Timothy O’Sullivan (1840-1882) deixaram relevantes documentos históricos, abrindo caminho para mestres como Ansel Adams (1902-1984) e, mais recentemente, às especulações imagéticas de Richard Misrach, estes dois últimos nativos da bela Califórnia, mas suas semelhanças, além de trabalharem em grande formato, terminam por aí.
The Portfolios of Ansel Adams (Little Brown, 1977), um estonteante conjunto de paisagens em preto e branco, traz uma elegia à Natureza e textos de John Szarkowski (1925-2007), curador de fotografia do Museum of Modern Art, MoMA, de Nova Iorque, e uma das figuras mais importantes da fotografia contemporânea. Desert Cantos (University of New Mexico Press, 1987), igualmente belo, traz uma leitura mais ontológica produzida por Misrach, que desafia a tradição documentarista da fotografia.
Ansel Adams demorou para publicar em livros seus 7 portfólios, e só o fez depois que o sistema de impressão alcançou um padrão de qualidade que pudesse satisfazê-lo e reproduzir seus tons, baseados em seu “sistema de zonas”, uma complexa maneira de expor um filme em preto e branco que acabou criando escolas em todo o mundo. São imagens do Yosemite National Park, Mount Willianson, Canyon de Chelly, entre outros lugares, fotografados pelos anos 1950.
Richard Misrach retratou o deserto do sudoeste americano onde militares fizeram testes nucleares e lançamentos de foguetes espaciais, resultando em uma paisagem muito afetada pela intervenção humana, mas visualmente quase imperceptível quando se contrapõe à sua beleza natural. Seu longo projeto começou em 1979 e faz referência a uma estrutura poética, como se fosse um longo poema.
Com conceitos diametralmente opostos – mas não excludentes -, ambos os trabalhos evocam a Natureza buscando o cuidado com o Planeta, estruturados na qualidade da alta acutância, proporcionada por câmeras de grande formato de 8X10 polegadas. Mesmo de caráter elegíaco, as imagens monocromáticas de Adams reivindicam atenção tanto quanto as de Misrach, cujas referências ontológicas demandam mais atenção do observador. Acima de tudo, mostram como a arte é capaz de ser um documento e como este pode ser construído artisticamente.

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