REVISTA GUAIAÓ
  • Pelo mundo

[ Pelo mundo ]

As diferentes leituras de uma cidade

Por: Juan Esteves
Fotografias: Reprodução

Garry-Winogrand-Book philip-lorca di Corcia
Nos anos 1960, contava o americano Garry Winogrand (1928-1984), havia um ditado entre os grandes street photographers: “Se você não sabe como fazer, faça grande! Se ainda não der certo, faça vermelho!”. A frase atribuída a ele, pode até ser apócrifa, entretanto soa premonitória, pois hoje em dia parece que assistimos constantemente o aumentar dos formatos em detrimento da qualidade e borrões coloridos, não só vermelhos, tomam o lugar de algo compreensível.
Em meio às atribuições, podemos confiar no livro recém lançado Garry Winogrand (San Francisco Museum of Modern Art, 2013) e dar outra frase como verídica: “Fotografia não se trata da coisa fotografada. Trata-se de como essa coisa se parece quando é fotografada”. A imagem em si não se resume nela, e é muito mais um depoimento, uma declaração de seu autor do que aquilo que ela aparenta ser. Por isso, as pessoas nas ruas de Nova Iorque fotografadas por ele representam personagens exclusivos. Melhor ainda, são uma crônica, uma reflexão da cidade com argúcia e oportunismo, sua vida social e o cotidiano.
O livro traz mais de 400 páginas, com cerca de 100 imagens inéditas que fizeram parte da exposição que terminou em junho passado, extraídas de mais de 2000 fotogramas que só foram revelados depois de sua morte, talvez a maior análise sobre sua obra, e por analogia, sobre as ruas de Nova Iorque nos anos 1960. Cidade que não para de posar, Nova Iorque é palco para estilos tão extremos quanto seus próprios personagens, como comprova outro livro de Philip-Lorca di Corcia (MoMA, 1995), catálogo da exposição homônima do fotógrafo nascido em 1951 que inaugurou a série de mostras fotográficas “Contemporaries” do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, curadoria de Peter Galassi, então curador chefe do Departamento de Fotografia.
Nas palavras de Gallasi, que se aposentou do MoMA em 2011, as imagens de di Corcia situam-se no intervalo entre um documentário realista e uma exagerada ficção extraída da cultura popular. Traduzindo, o fotógrafo cria sua própria realidade, trabalhando com negativos grandes, atores amadores, personagens que compõem seu próprio tableau. Uma publicação simples, em brochura, pensada para ser parte de uma pequena coleção do museu, traz apenas 55 fotografias, além das feitas em Nova Iorque, produzidas em Los Angeles e também em Tóquio.
Se Winogrand buscava entender a cidade com seus snapshots em preto e branco, di Corcia trabalha sua staged photography usando a cor essencialmente como forma, em elegantes composições, com uma paleta muito autoral. Aqui, o vermelho deu lugar ao tom menos quente, mas em contraposição à frase inicial deste texto, as suas grandes ampliações são perfeitas, próprias da acutância inerente ao formato de filme que ele usa.
Com cenas meticulosamente planejadas que nos fazem lembrar Edward Hopper (1882-1967), uma espontaneidade planejada, ele cria uma cidade também só dele, onde assim como na fala de Winogrand, o que importa é que a fotografia não é uma coisa em si mesmo, e sim, o que ela aparenta ser. Ao menos, é o que Philip-Lorca di Corcia quer que seu público compreenda. Afinal, faz tempo que a fotografia abandonou a bandeira da realidade. Ou será que tem gente que ainda acha isso?

Voltar ao topo