REVISTA GUAIAÓ
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KIND OF BLUE – Um (novo) tipo de blues

Por Julinho Bittencourt
Fotografia Marcos Piffer

Praia de Santos à noite - Fotografia de Marcos Piffer

Desde que “Kind of Blue” foi lançado, em agosto de 1959, até hoje, mais de cinquenta anos depois, farta literatura já foi lançada sobre ele. Detalhes do como, quando e porquê o trompetista, compositor e arranjador Miles Davis inventou aquele (novo) tipo de blues, harmonicamente solto, construído a partir de escalas e melodicamente simples,  inundaram páginas e páginas de publicações sobre jazz. Explicações das mais angulosas possíveis e, quase todas pertinentes, corroboraram com o que o seu público percebeu logo nas primeiras audições. Era sim, sem sombra de dúvidas, uma das grandes gravações do século XX.

“Kind of Blue” talvez esteja para o jazz como o sorriso da Mona Lisa para as artes plásticas ou os primeiros compassos da quinta sinfonia de Bethoven para a música de concerto. Inclui-se naquelas obras onde a genialidade está explícita, evidente, de braços abertos tanto para o leigo quanto para o mais experimentado dos ouvintes. É daquelas coisas que todos os artistas sempre vão reclamar não haver pensado antes.

Miles, no entanto, não só pensou como penou para chegar neste resultado tão diminuto e, ao mesmo tempo, grandioso. O poder de síntese e beleza chega a ser ofensivo logo nas primeiras notas dos metais de “So What”. Após uma breve e inusitada introdução de piano de Bill Evans, o tema de oito compassos, composto por frases longas de duas notas com pequenas e sutis variações, é repetido durante três vezes onde, a cada uma delas, é acrescentada uma nota aqui, outra acolá, dando o sentido do crescendo.

E é quando o ouvinte, hipnotizado pelo efeito percussivo/melódico, é desperto pelo sopro inconfundível de Miles, que rasga aleatoriamente a rígida, pequena e inusitada estrutura. Cada nota que emite conta uma história de forma definitiva, expressiva e orgânica. Seus sons disputam o silêncio, a pausa, tempo e contratempo. Duas notas do tema anunciado pelos metais, outras duas ou três do improviso de Miles. E o contraponto, livre e quase avarento de tão econômico, desvenda a América contemporânea.
Capa Kind of Blue - Miles Davis
O protagonismo de Miles é apenas aparente. A sua direção com mãos de ferro aponta na lógica oposta à do solista e banda. O septeto, formado por músicos tão geniais quanto, funciona coeso. Feito os prótons e nêutrons de um átomo, John Coltrane (saxofone tenor) e Cannonball Adderley (saxofone alto) costuram seus próprios assuntos de forma tagarela, se comparados a Miles; Bill Evans, no piano, desenha com elegância as quadraturas por onde as escalas vão passear; Paul Chambers, no contrabaixo e Jimmy Cobb, na bateria, vão muito além da sustentação pura e simples e demarcam todos os limites, principalmente os mais improváveis.
Fazer um grupo soar de forma tão única e amarrada e, ao mesmo tempo, livre e aparentemente desorganizada, a partir das individualidades de cada um de seus músicos, talvez seja a grande proeza de “Kind of Blues”.

Assim como muitas grandes obras, o disco até hoje influencia e abre portas para vários outros músicos de diversas tendências além do jazz mundo afora, inclusive a nossa música popular. Caetano Veloso, com a sua linda canção “Terra”, do disco “Muito” (1978) e Milton Nascimento, com “Cravo e Canela”, a bela homenagem à atriz Dina Sfat dele e de Ronaldo Bastos, do antológico disco “Clube da Esquina, de 1972, são dois ótimos exemplos de melodias modais, ao estilo de “Kind of Blue”.

Na contramão de tudo e de todos, Miles Davis fez, enfim, com “Kind of Blue”, de 1959, um disco requintado e inovador e, ao mesmo tempo, perfeitamente acessível àquele ouvinte que não é exatamente um grande conhecedor. Uma pequena obra-prima que, pela sua simplicidade e beleza, é até hoje o disco de jazz mais vendido de todos os tempos, com mais de três milhões de cópias espalhadas pelo mundo.

 

JULINHO BITTENCOURT Colaborador GUAIAÓ 01

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