REVISTA GUAIAÓ
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[ Cinecidade ]

SÃO PAULO: Arquitetura do acaso

Por: Flávio Viegas Amoreira
Fotografia: Juan Esteves

Juan Esteves

São Paulo não é trágica, é dramática: uma megalópole caleidoscópica fruto da prepotência do homem e da desigualdade do sistema: um ‘caosmo’ que se reinventa a partir de seu peculiar desengonço tranZmoderno. Uma sucessão de takes e remakes para uma epifânica tomada em alguma esquina na irrepetibilidade de destinos. Capital dos Brics tem tudo para ser a soma das cidades invisíveis de Ítalo Calvino reunidas num delírio: quanto mais miro as frestas de céu, mais turvo me ilumino da sua sozinhez cinzenta num horizonte sufocado.
Nascido num porto de mar, um poeta sempre tem necessidade de sondar para onde fica Oceano: tateio e intuo como todos personagens da Paulicéia desvairando terminam num enredo traumático buscando as veredas do continente ou curando suas dores na aurora de Santos… Vario sobre tema inesgotável: fissurado na cinematografia construída com semblante de argamassa do Planeta Sampa. À privatização do espaço público justaponho a poetização pelo registro artístico: São Paulo pede-se ser filmada para recriar ou estilhaçar o conceito de conjunto.
Noite Vazia de Walter Hugo Khoury é o mais expressivo retrato paulistano: a noite, solitude, senso de urgência e precariedade de afetos e o amanhecer com travo de despedida nessas amadas e horrendas praças: a Roosevelt que me desola em busca de riachos-ruas com magia feito a Rego Freitas. São Paulo não é metáfora mimetizando os contornos duma natureza precedente: São Paulo é metonímica: sufocando possíveis marcos de referência como cursos d’água tudo é entorno e cada pitoresco bairro é São Paulo inteira nele contido.
Walmor Chagas perdido na ‘sampauleira’ de Luís Sérgio Person: São Paulo S.A. define entre tipos, agrupamentos, topografia de rostos, a geografia humana que erigida pelo “Doutor Imponderável” e arquitetura do acaso: viadutos onde córregos, túneis sobre vales que dão numa Alameda Porto Geral sem sentido de longo curso.
Sérgio Bianchi foi mestre em nomear a urbe sem pólis: Cronicamente Inviável, obra-prima da condição humana a partir da condição urbana: guetificação de tribos que podem numa Utopia possível criar arquitetura de ‘contaminações virtuosas’. Como no delicioso O Signo da Cidade de Ricelli e Bruna Lombardi, o lance é esse ‘ménage à trois’ dionisíaco entre espaço eviscerado pelo inusitado como o surreal Minhocão e o fascínio totêmico do Copan, atemporalidade onde-tudo-todo-acontece-mesmo-tempo e o simultaneísmo dessa porra-loquice gozoza ‘baseada’ da Praça do Pôr do Sol na Vila Madalena e um jovem sob uma árvore resistindo na Avenida Sumaré sob painéis de Alex Fleming. Nenhum transporte coletivo é tão literário e cinematográfico quanto o metrô: nada mais flâneur que bar de mesa na calçada no Baixo Augusta e snooker na Nestor Pestana: Ugo Giorgetti nos faz sentir uma La Dolce Vita trans-moderna: antros fakes, ambientes sujinhos, um cosmopolitismo pós-
-terceiro-mundista: Carlos Reichenbach nos traça roteiro não mais de Alcântara Machado, os Anjos do arrabalde não são mais operários do Brás, mas anônimos transeuntes excluídos de “City Lapa” ou “Spazio Barra Funda”.
A Via-Láctea de Lina/Chamie é o mais cult filme sobre essa cidade agônica: mortos-vivos nessa necrópole cultural onde poucas constelações-oásis insistem não sucumbirem ao buraco-negro do mega-corporativo-plutocrático polvo de um capitalismo urbanisticamente insano sem o menor glamour oswaldiano: o amor pós-antropofágico de Sampa é sua criativa regurgitofagia: o que não repele é o que resiste, acalenta e contém como as dobras marinhas do Copan e sua colmeia de fauna convergindo num transe sereno ao badalar da Consolação.
Diretor de longa-metragem único, José Zaragoza compôs obra-prima subestimada: Até que a vida nos separe: São Paulo será sempre um solo de sax por Marco Ricca no Edifício Esther ou no Baronesa de Arary: a Sampa orgânica não mecânica de uma película que projetou como poema de Roberto Piva, encenação de Zé Celso e trilha de Lívio Tragtenberg: beat-bexiga e não blade-runner!

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