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Lou Reed e a cidade que nunca dorme

Por: Julinho Bittencourt
Fotografia: Juan Esteves

Juan Esteves

Holly veio de Miami, Flórida, atravessou os EUA de carona. No caminho depilou as sobrancelhas, raspou as pernas. Ele passou a ser ela, que chama: “Venha caminhar no lado selvagem, venha caminhar no lado selvagem”. A cidade de então era Nova Iorque, em 1972, época em que bombava o lendário Studio 54 e a disco music mandava na cena. Na contramão de todas as possibilidades, o cantor Lou Reed falava e andava para o que se passava nos gliters e brilharecos oficiais. A sua cidade não estava nos mapas, não constava nos guias oficiais, não era Broadway nem off-Broadway. Era um ninho perdido que ele aprendera a amar e decantar em versos desde os tempos da antológica e obscura Velvet Underground, banda projeto do artista plástico Andy Warhol a partir de 1964.
Imaginar que o primeiro disco da banda, chamado apenas de “Velvet Underground & Nico” (o que tem uma banana na capa), tenha saído na mesma época de álbuns como “Sgt. Peppers” dos Beatles, “Pet Sounds” dos Beach Boys, “Their Satanic Majesties Request” dos Rolling Stones é algo inacreditável e irônico. Enquanto as maiores bandas do planeta se sofisticavam ao extremo, recheando seus discos com instrumentos sinfônicos, arranjos grandiloquentes e truques de estúdio, o Velvet – direto da meca da vanguarda e arte conceitual – gravava o seu álbum de estreia da forma mais simples, suja e sem capricho. As canções, todas com temas extraídos do submundo mais profundo da Big Apple, tinham – no máximo dos máximos – três ou quatro acordes, guitarras sujas e distorcidas, vocais desafinados e um jeitão proposital de que saíram conforme gravadas a primeira vez, sem nenhuma finalização.
O fato é que o Velvet se transformou na banda mais cultuada da história do bas-fond. O underground, colado ao nome, fazia justiça ao que eram, faziam e pretendiam. Toda a consequência barra pesada da grande folia da década do desbunde estava ali, retratada par e passo naquelas canções. Como uma espécie de Jean Genet do rock, Lou Reed riscava em sua guitarra tosca e voz anasalada e rouquenha, meio falada meio cantada, toda a crônica do pesadelo que a cidade dos sonhos reservava a quem não se enquadrava em seus altos e pasteurizados padrões de exigência artística e social.
A partir deles, ficou impossível ouvir seus discos sem pensar nas paredes de tijolo aparente e tinta descascada, nos hidrantes estourados espirrando água a cântaros daqueles verões abafados, nos travecos enormes tropeçando no salto das calçadas esburacadas. A partir deles, impossível não rir das cordas e metais, da voz aveludada de Sinatra a disparar: “Start spreading the news, I’m leaving today”.
A equação forma e conteúdo atingiu o ápice da desfaçatez com este primeiro disco do Velvet. O que diziam e contavam era da mesma cor, cheiro e padrão do que cantavam, de como soavam. Foram, é claro, um fracasso retumbante de vendas, coisa que o tempo se encarregou de corrigir, transformando o disco no 13º da lista dos mais importantes da história do rock da revista Rolling Stones.
A banda, por razões mais óbvias ainda, se desfez em 1973. Lou Reed pulou fora um pouco antes e, depois de perambular sem rumo como seus personagens, foi adotado por David Bowie que produziu e colaborou com “Transformer”, o maior e melhor álbum de sua carreira até hoje, lançado em 1972. Graças a Bowie, seu fã de carteirinha, o disco ficou um tanto mais bem acabado do que tudo o que havia feito até então. Mas, mesmo assim, não deixou de lado o seu velho e bom som sujo e rouco. Só que desta vez bem gravado, mixado, com arranjos bem executados e músicos excelentes. A canção “Walk on the wild side” é um clássico do rock até hoje. Fala de forma cadenciada, nua e crua de prostituição masculina, sexo oral, drogas, travestis. Mas o disco tem muito mais. Sem papas na língua, Lou Reed canta sobre sadomasoquismo em “Vicous”, o deboche do lirismo em “Perfect Day” e desfia mais um sem fim de personagens em canções certeiras e poderosas. Canções inesquecíveis que desnudaram uma cidade escondida dentro de outra, repleta de suas contradições. Uma cidade que foi praticamente dizimada pelo programa tolerância zero do então prefeito republicano Rudolph Giuliani, aclamado pela sua abastada e acuada classe média alta.
Mas, como dizia outro bardo nosso mais próximo sobre a revolta de Trás-os-Montes, esqueceram uma semente n’algum canto do jardim. Lou Reed, com seu pesadelo desafiante e desafinado continua por lá a comprovar isto, com discos corretos e público certo.

 

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