REVISTA GUAIAÓ
  • A praia e eu

[ A praia e eu ]

Mar de Concreto

Por: Marcus Vinicius Batista
Fotografia: Marcos Piffer

Perfil Adelino Gonçalves

Todo surfista que se preze tem duas lembranças. A primeira é a onda perfeita em pontos paradisíacos, mas a segunda lembrança é a que deixa cicatriz. Em outras palavras, todo surfista que se preze tem uma “vaca”, o famoso caldo, no caminho. O arquiteto e perito judicial Adelino Gonçalves Neto, de 62 anos, também tem seu episódio bovino. Mesmo sendo um rato de praia, na definição dele mesmo, a vaca que o marcou não está no mar, mas no Vale do Ribeira, na década de 70.
Adelino era um soldado raso no Forte Itaipu, em Praia Grande, quando foi designado para ajudar na perseguição a Carlos Lamarca. Numa noite de neblina, em Sete Barras, ele e mais dois militares estavam de tocaia em um jipe quando ouviram barulhos na mata. Conforme o ruído se aproximava, os três tremiam de medo. “Você só atira quando a vida está em risco”. Os dois colegas sumiram na neblina. Diante do silêncio aos pedidos de senha, Adelino subiu no jipe e acionou a metralhadora. Os disparos atraíram a atenção dos oficiais. Adelino e os dois soldados receberam ordens para ficar no jipe. No dia seguinte, a descoberta: Adelino havia matado uma vaca que se desgarrou do rebanho em um sítio.
O ex-soldado surfa desde moleque. Pertence a uma ordem de pioneiros nas ondas em Santos. Surfar está acima da competição e dos prêmios. Surfar é disputar um campeonato sem vencedor que nunca termina. Construíam, inclusive, as próprias pranchas. “Sou um surfer free”. Adelino vê as ondas como um arquiteto enxerga um edifício. Ele se comunica com o mar pelas formas. Neste relacionamento de meio século, a prancha é como uma caneta que risca o papel-mar na construção de projetos que se desfazem à beira da praia. A fascinação nasce pelo movimento das ondas, diferente da estática arquitetônica. É o efêmero que permite o desenho sempre único. “É como se as ondas fossem paredes. E cada tipo de parede te dá uma resposta para a prancha”.
De 15 anos para cá, Adelino mudou para o longboard. “Não tem briga por causa de ponto nas ondas. É mais fraternal”. Seria um sinal de amadurecimento que redesenha um casamento. “Prancha é uma segunda mulher”.
A primeira mulher na vida de Adelino se chama Gisleine Gonçalves, a Leninha, de 52 anos. Ela convive com a segunda esposa sem traumas. “Em viagens, ele guarda a prancha no quarto”. Tudo por conta de um furto, há dez anos, em Florianópolis. O ladrão escalou até o segundo andar da pousada para levar o longboard que descansava na sacada. Adelino foi ressarcido pelo furto, mas desde então mantém a segunda mulher ao alcance dos olhos. Leninha e Adelino até tentaram driblar a relação com o mar. Moraram um ano em Piracicaba. Vinham para Santos nos finais de semana. Adelino pegava onda. Leninha o assistia na praia. “A gente sofria tanto”, justifica o arquiteto.
Três décadas se passaram para que Leninha deixasse de ser espectadora. Desde o ano passado, ela pratica stand-up paddle. A prancha ainda é emprestada, até porque pode se transformar no segundo marido. Já as duas filhas do casal, Carina, de 28 anos, e Tatiana, de 25, moram em Londres. Um lugar coerente para quem não surfa.
As vacas ainda aparecem para Adelino, com o privilégio de unir as lembranças num lugar só. Para o arquiteto, o tal ponto paradisíaco não está na Austrália, onde surfou em 1997. Tomar um caldo ou dançar nas melhores ondas acontece a 15 minutos de casa, na Ilha de Urubuqueçaba ou na Pedra da Feiticeira, em São Vicente.
Mas e a vaca dos tempos da ditadura militar? “Não tenho ideia. Talvez tenha virado churrasco para os oficiais. Só sei que um japonês ficou sem uma”

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