REVISTA GUAIAÓ
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Últimos Românticos

Por: Gino Caldatto
Fotografia: Marcos Piffer 

Patrimônio Gino Caldatto

Construção simples, feita de tábuas, o chalé de madeira até pouco tempo revelava suas cores intensas pelos bairros de Santos e região. Compunha, em muitos casos, conjuntos arquitetônicos homogêneos invocando o gosto bucólico do romantismo de tempos passados. Pelo terreno, fauna e flora davam a medida exata do tempero rural saboreado nos diversos lugares onde o chalé fincou seus alicerces.
Moradia popular da virada para o século XX, foi a solução econômica possível para o trabalhador de baixa renda – a maioria imigrantes ibéricos – viver em Santos quando as desigualdades sociais resultantes das riquezas geradas pela exportação cafeeira se impunham.
Nesse contexto, o chalé de madeira pode ser visto como subproduto do café, exemplo da moradia popular feita num período marcado pela ausência de políticas públicas voltadas a suprir carências habitacionais. Na época, cada um se virava como podia e nem por isso a pequena moradia foi desprovida de atenções construtivas, valendo-se em boa dose da cultura portuguesa para a transposição dos conhecimentos técnicos no trato da madeira e do programa de necessidades. Indicá-las como sub-habitação ou abrigo rudimentar e provisório é se valer de preconceitos indiferentes do significado histórico
dessas casinhas.
Poucos ainda resistem ao tempo e à sedução financeira dos interesses imobiliários, prenunciando o desaparecimento pleno diante do avanço do adensamento urbano que cotidianamente incomoda o território santista. Em grande quantidade, vão sendo demolidos em bairros de maior incidência como Embaré, Aparecida e Marapé, regiões com intensa procura pelo mercado da construção civil para imposição dos elevados edifícios de apartamento.
Apontado por alguns como símbolo do atraso, encontra na postura dos antigos moradores o contraponto sincero diante da intolerância reservada pelas elites, demonstrando apego incondicional ao caráter idílico que a propriedade ainda resguarda:
“Sair daqui? Só morto!”, “Não troco meu chalé por nada!” manifestam-se de imediato quando indagados sobre a comercialização do imóvel.
Entre paredes de madeira, galinhas, verduras e frutas cultivadas no terreno os últimos românticos, resistentes da vida moderna, possivelmente estão condenados a serem livres.

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