REVISTA GUAIAÓ
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[ Entrevista ]

Paulo Mendes da Rocha – É preciso pensar as cidades

Paulo Mendes da Rocha - Revista GUAIAÓ 06

Por: Reh Theiss e Marcos Piffer
Fotografias: Marcos Piffer
 

Entre prateleiras repletas de livros, mapotecas, projetos e maquetes, numa tarde cinza de inverno, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha nos recebeu para uma longa conversa. No seu espartano escritório, onde está instalado há mais de 40 anos, no quinto andar do mitológico edifício sede do IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil – no centro da cidade de São Paulo, o internacionalmente premiado arquiteto e urbanista nos falou sobre sua visão do mundo, da cidade contemporânea, arquitetura, trânsito e transporte público. Questões cruciais ao atual processo de transformações pela qual passa, entre outras, a cidade de Santos.
Bem humorado, dirigiu as fotografias, pedindo para ser enquadrado com o edifício Copan ao fundo. Nascido em Vitória, Espírito Santo, descendente de baianos e cariocas, criou-se em São Paulo onde se formou. O pai, um engenheiro de portos que chegou a ser consultor da Companhia Docas de Santos, gostava que o filho o acompanhasse em suas viagens pelo litoral. Daí surge um conhecimento e uma admiração pela geografia e pelos fenômenos naturais que as cidades praianas possuem e segundo ele, deveriam preservar
e levar em consideração nos seus planejamentos urbanísticos.
Isso e muito mais ele nos fala a seguir…

Revista Guaiaó – Qual a sua relação com a Cidade de Santos?
Paulo Mendes da Rocha – [...] Meu pai gostava muito que eu o acompanhasse nas viagens fora da orla do mar para ver tubos pneumáticos, construir bifurcamentos. Lembro-me muito bem de uma companhia de navegação que eu acho que ele prestou uma assessoria, chamada A Costeira, de um engenheiro, colega dele muito ilustre, Teixeira, que fazia navegação para Bertioga. E com isso, eu conheci Bertioga, naveguei nessas barcaças e também acompanhei os trabalhos de portos, da parte do porto propriamente dito, tudo isso. Por outro lado, tendo nascido em Vitória que é uma cidade portuária por excelência, eu estou acostumado desde a infância com os trabalhos do mar, com docas, com navios, entrada e saída de navios. A convivência com tripulações internacionais, digamos assim.

Guaiaó – Essa influência de quem nasceu numa cidade de mar, de praia, ela existe no seu processo de criação desde o início?
Paulo Mendes da Rocha – Acho que sim. A cidade à beira-mar é muito mais rica de contato com a natureza, de compreensão da monumentalidade dos fenômenos da natureza, marés, ventania, sol, etc. Mas, principalmente os trabalhos portuários, porque representa a riqueza dela, do dia a dia do homem. Uma das características mais interessante desses trabalhos do mar em área portuária é a condição inexorável que eles têm. Esses trabalhos não têm horário, o navio entra às três horas da madrugada e zarpa à meia-noite. O trabalho tem mais a ver com os dias e as noites como fenômeno astronômico. Em portos que há canais delicados como Santos, muito particularmente como Vitória, quem põe o navio para dentro, que é um tesouro com a bandeira do outro, é um prático do lugar. Você entrega o navio com tudo aquilo nas mãos de quem é do lugar para colocá-lo dentro do porto. Há a sabedoria dos pescadores, a consciência sobre o tempo, tempestade, bom tempo, mau tempo, a lua e o sol.
Guaiaó – Em relação ao que senhor citou sobre os fenômenos da natureza que envolvem a vida numa cidade à beira mar e dos trabalhos a cerca disso, há outras considerações a fazer?
Paulo Mendes da Rocha – É importante considerar a questão do mar e dos trabalhos do mar, sendo o grande interesse os outros portos, o sistema de navegação. A navegação como um sistema de ligação entre lugares e, particularmente, no Brasil com aproximadamente 8000 km de costas, as ligações do que se chama navegação de cabotagem, navegação local, de pequeno calado. Só o Estado de São Paulo tem portos como Cananéia, Iguape, muito importantes, se você considerar principalmente a pesca. Se um barco pesqueiro persegue com radar um cardume rico e se abastece com essa mercadoria, ele precisa descarregar rápido para continuar atrás do cardume restante. Portanto, nós deveríamos ter uma rede de portos capaz de reabastecer os barcos com gelo, de receber o que ele já pescou, o armazém etc.
O Brasil acompanha de modo muito desastrado, na minha opinião, projetos que são necessariamente de longa duração e quase alguns permanentemente de conservação como essa questão da frota de cabotagem, e particularmente em relação à pesca. E agora, esse arranco extraordinário com a questão do Pré-Sal, mas é uma espécie de tiro para diante, exagerado em relação à questão dessa vida cotidiana do homem que trabalha com as coisas do mar efetivamente, não só as grandes plataformas oceânicas. Questão essa até discutível por razão da poluição, do perigo. Eu acho que o petróleo no fundo do mar profundo devia ser proibido por enquanto, porque a segurança não existe. Jogar petróleo no mar é um prejuízo para o planeta, irrecuperável. Enquanto a segurança, se é possível que haja a expectativa de uma segurança absoluta, não fosse praticamente garantida, não deveria ser possível explorar esse petróleo. Acredito que precisamos parar de gastar logo. Hoje mesmo está nos jornais a questão dessa medição que se faz de quantos quilômetros de congestionamento a que se vê todo o dia. Duzentos quilômetros, trezentos quilômetros em São Paulo, e em Moscou também duzentos quilômetros. Portanto, tudo isso vai se transformar muito rapidamente e nós devíamos raciocinar com essas transformações já, e não ficarmos sempre atrasados em relação ao andamento das coisas que já se sabe e são previsíveis, absolutamente previsíveis.

Paulo Mendes da Rocha - Revista GUAIAÓ 06

Guaiaó – E a navegação de cabotagem foi completamente abandonada no Brasil…
Paulo Mendes da Rocha – Praticamente abandonada.

Guaiaó – E isto nos remete à travessia para Bertioga nas barcaças de passageiros e nas canoas de voga.
Paulo Mendes da Rocha – Eu sou arquiteto, posso dizer que há uma certa tristeza, não há outra expressão. Se você fizer uma entrevista na porta das faculdades de arquitetura em Santos e perguntar para os estudantes, às vezes eles nem sabem que existe aquele túnel que leva à piscina do mercado onde se fazia a venda de produtos. As canoas de voga eram canoas, hoje há lanchas com passageiros, um sistema que ainda funciona atualmente e muita gente nem sabe, nem valoriza tudo isso. Todo o processo do projeto de Saturnino de Brito, os canais, está tudo abandonado, mal utilizado e com perspectiva de fazer uma cidade falir por falta de continuação da inteligência dos projetos de uma época em que a engenharia tinha mais prestígio. A arquitetura, o urbanismo e a engenharia comandavam mais, enquanto forma de conhecimento, nas decisões políticas sobre o espaço urbano. Agora, o espaço urbano virou pura mercadoria, está na mão da especulação imobiliária e isso só pode dar desastre.

Guaiaó – Sobre a verticalização que atualmente acontece na cidade de Santos, como o senhor abordaria essa questão, pensando em um passado onde havia maneiras de navegar ou de se locomover, de existir, mais centrados numa vocação natural?
Paulo Mendes da Rocha – Bem… O problema não pode ficar só em passado e nem tudo do passado é necessariamente excelente simplesmente por ser passado. O que acontece é que a geomorfologia e a geografia de um lugar em relação a engenharia e as instalações humanas determinam ou exigem projetos especiais. Não se pode repetir a mesma coisa em qualquer lugar. A verticalização surge do desenvolvimento da própria engenharia mecânica dos solos, fundações capazes, elevador. Por outro lado, a suposição de que cada casa se transforma em prédio vertical é meio tola. É necessário redesenhar o chão para de fato adotar a solução vertical, mas não que cada casa se transforme num prédio. O desenho não resiste, porque a matriz que estava lá para as casas, palacetes que sejam a beira-mar não se presta para a verticalização. Você tem que reurbanizar aquilo, redesenhar aquilo tudo para poder verticalizar com graça, com êxito, com beleza. E principalmente, do ponto de vista técnico, precisa-se pensar nas questões ligadas ao escoamento das águas, a fluição e na concentração das pessoas no mesmo lugar. A cidade contemporânea pressupõe intensidade, na minha opinião, com valor positivo, queremos isso. A cidade sem intensidade não é o que se gosta mais. A cidade é feita para nós conversarmos o dia inteiro se fosse possível, mas se cada um tiver o seu automóvel como transporte individual, a coisa não funciona. Portanto, começar a prever o transporte público com mais energia é indispensável. Em relação às águas que abrangem Santos, fica muito interessante porque quem sabe se não seria possível, os canais, o projeto de matriz possa ser revisto, refeito, melhorado, porque a mecânica dos fluidos é inexorável. Referindo ao projeto de Saturnino de Brito, aqueles canais são para a navegação de passageiros, para escoamento de lixo e serviços urbanos, é muito útil sempre, mesmo por questões que hoje são desejadas de senso comum como o reaproveitamento de águas pluviais, de água de chuva, comportas, um sistema de manutenção desse conjunto hídricos dessa frente do mar, onde se faz com que a cidade seja controlada e conhecida com mais eficiência. A grande questão é elaborar e construir um sistema de transporte público eficiente para evitar o transporte individual.

Guaiaó – Com a perspectiva do Pré-Sal, a população aumenta mais, além do acréscimo natural durante a época de temporada. Com isso, há prédios sendo construídos que montam a trinta, quarenta andares, mas não existe um plano para que fosse revisto o solo, o chão, os gabaritos. Como é possível enfrentar essa situação?
Paulo Mendes da Rocha – Só há como enfrentar com uma ação política enérgica. A prefeitura não pode permitir isso, a não ser que a questão seja estudada com serenidade. Mesmo porque, sobre outros aspectos extremamente discutidos, mas sem dúvida justos de considerar, pode ser que num apartamento, numa casa de sessenta, oitenta metros quadrados não seja agradável de viver, morar a oitenta, noventa, cem metros do chão, também não seja prático. Mesmo por questões de caráter subjetivo. Sem uma certa convivência um pouco mais razoável com o aparelho, do chão, do café, do botequim, da banca de jornais, do transporte público, é muito difícil você ficar instalado nesse ninho de urubu lá em cima. Não faz sentindo nenhum. Os arquitetos discutem isso no mundo inteiro. Adotando como zero, não tem nada a ver com o nível do mar, o chão da onde você estiver acima de cinquenta metros não há mais arquitetura, pode haver qualquer coisa, mas é delírio, não se chama arquitetura do ponto de vista histórico, é um delírio, uma loucura, qualquer coisa exótica ou castigo, é uma espécie de purgatório. Não é habitável, a vida das crianças, o próprio elevador não tem mais o sentido de transporte, capaz de levar uma criança sozinha até a calçada para tomar a condução para a escola. Fica um negócio meio complicado chegar no trigésimo andar para desfrutar do que se chama vida doméstica, cozinhar, dormir, ver um pouco de televisão ou conversar, não faz sentido.

Guaiaó – O senhor pensa que uma consciência mais holística, mais reflexiva da arquitetura como uma boa forma de exercer a profissão?
Paulo Mendes da Rocha – O que nós estamos vendo é que hoje você tem, sem discutirmos, sem negar, uma consciência mundial sobre a nossa existência no planeta. Isso muda, com certeza, muito desses conceitos de uma certa forma, esta ou aquela arquitetura. A Arquitetura é uma forma muito peculiar de se saber das coisas, para construir essa cidade que vai se engendrando de acordo com o andamento da vida. O mundo está sempre em transformação. O que acontece hoje é que há uma formação de cultura popular sobre essas questões tão cruciais. Ninguém discute mais que isto é um pequeno planeta que está girando, o homem sabe disso, recebe pela televisão, aceita e acredita, porque é verdade, é patente. É tolice imaginar que há uma grande arquitetura. Ao contrário, há preocupação em não fazer bobagem, mas no final das contas, a arquitetura tão falada, o que é a sua essência, na sua essência, ela seria o quê? Seria um modo de construir a cidade contemporânea porque é o nosso habitat, evitando desastres. Não que haja excelências arquitetônicas, pode haver um desastre enorme como esse da casa a cem metros do chão…

Revista Guaiaó – O senhor teria exemplos?
Paulo Mendes da Rocha – A muralha construída em frente ao mar para os primeiros que querem usufruir daquele espaço é uma ideia aparentemente meio tola. Deve se raciocinar mais com as transversais. Quase que não devia haver a muralha da frente, deveria haver ruas, alamedas, transversais com pouca frente, literalmente ditas para o mar.

Paulo Mendes da Rocha - Revista GUAIAÓ 06

Guaiaó – Existe alguma cidade com esse modelo?
Paulo Mendes da Rocha – Eu não lembro, mas devia ter medo de não existir, não precisa adotar modelo, pode-se fazer o seu modelo. Nem em Santos, nem no Rio de Janeiro, nem em Vitória. Não aconteceu em lugar nenhum. Nós não estamos criticando como se fosse um aspecto absolutamente negativo daquela cidade, mas podemos dizer que talvez o que está se fazendo agora, se for repetido pode ser um grande desastre. Precisa fazer outro desenho do chão para adensar a cidade. Penso que Santos ainda tem muita construção baixa. A Pinacoteca Benedito Calixto é um exemplo claro de uma faixa da frente do mar para a avenida de trás, paralela ao mar aberta com arvoredo. É um recinto muito interessante, antigo, fruto de uma casa de outra época, um lugar que pode servir de modelo para refletir como aquilo podia ser outra coisa.

Guaiaó – E existe o seu projeto do Museu de Arte Contemporânea no local.
Paulo Mendes da Rocha – A proposta é muito valiosa e é da Associação que dirige a Pinacoteca Benedito Calixto. Eles decidiram complementar aquele recinto, a Fundação Benedito Calixto com uma parte de arte contemporânea que não pode ficar dentro da mesma casa. A casa está tombada, onde fica a coleção Benedito Calixto. A associação me pediu para fazer um ensaio de como poderia ser com tantos metros quadrados para abrigar a parte de arte contemporânea, um “MoMA”, naturalmente ligada àquele mesmo parque da casa, por volta de uns quarenta ou trinta e cinco metros quadrados, não me lembro muito bem. De qualquer modo, é uma faixa larga entre ruas paralelas ao mar. A primeira delas, a própria avenida beira-mar, a Avenida Vicente de Carvalho e a rua de trás, a Rua Epitácio Pessoa. Exemplo, como modelo daquele lugar, se imaginarmos aquele parque mais aberto, os prédios ao longo, perpendiculares ao mar, de um lado e de outro desses parques, teríamos mais sucesso do que simplesmente um paredão na frente do mar. É uma questão geométrica que pode ser discutida. Hoje pode-se fazer um modelo reproduzindo os ventos, as perspectivas, os morros que estão atrás, a frente do mar, abrir horizontes melhores do que aqueles que acontecem quando você tira a casa e põe um prédio, tira a casa e põe um prédio no mesmo lugar onde estava antes. Isso não é bom, não tem a ver com a arquitetura e urbanismo. Seria como se obrigasse os arquitetos a fazerem besteira, os condenassem. Essa postura não se encaixa com o arquiteto e nem com a arquitetura como uma ciência, de uma forma de conhecimento.

Guaiaó – O que mais o senhor poderia nos dizer sobre o projeto do museu em Santos?
Paulo Mendes da Rocha – O projeto é muito simples porque há necessidade de grandes espaços livres para exposições como todo museu. Nós fizemos o chão livre, o chão é um lugar de frequentar o parque, nós levantamos o museu do chão, usando o chão na parte coberta que fica literalmente embaixo desse museu, onde eventos, cafeteria, tudo isso e abre para o parque depois sobe para os andares de cima pela exiguidade do terreno. A casa é feita em andares sem se constituir um grande edifício, pois são poucos metros quadrados, quatro mil metros quadrados, algo assim. O museu se desenvolve em dois andares superiores a esse térreo abrigado por essa parte superior, onde está a cafeteria, os eventos e as exposições eventuais, ou seja, a parte mais festiva do museu para conviver com aquele parque que tem um arvoredo muito bonito, eu acho que é toda árvore do mesmo tipo que tem como fruto, o jambolão. Para todos que conhecem, é uma construção muito peculiar e interessante da história da cidade…

Guaiaó – Existe também um projeto seu para o Aquário de Santos?
Paulo Mendes da Rocha – Sim, no tempo da Prefeita Telma de Souza e do Secretário de Obras e Planejamento Cláudio Abdala. O Cláudio me chamou para estudar e pensar como poderia expandir, modernizar, atualizar o Aquário. Eu fiz um estudo que acho interessante, o Aquário está ilhado hoje entre duas mãos da avenida, eu passei as duas mãos para um lado só e coloquei o Aquário na frente do mar. O projeto está publicado.

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Guaiaó – Ainda a respeito dos canais em Santos, corriqueiramente, há pedidos para o destombamento, para que possam ser cobertos para se transformar em vias ou estacionamento, o que o senhor pensa disso?
Paulo Mendes da Rocha – Eu prefiro não responder uma coisa tão assim, porque não estou acompanhando. Está na cara que é uma estupidez, vocês que têm que dizer, não é um projeto, é pedir para destombar, para tampar e fazer estacionamento, já está dito qual é o projeto, isso é estúpido, não é? Parece… Tem que rever o projeto do Saturnino para continuar, outros canais etc. Refazer as comportas, porque as marés, o mar, a chuva e as águas não mudaram. Então, é uma questão para ser estudada por especialistas, não para palpite de políticos. Questão do equilíbrio hídrico, dessa fralda do mar que constitui o território da cidade de Santos, inclusive com muita coisa ganhado do mar. Portanto, modificada e transformada. À luz do primeiro ensaio sobre as águas do Saturnino de Brito, precisa ser revisto dentro desse horizonte de engenheiros hidráulicos e não de palpites. O automóvel tem que desaparecer da cidade, e não cada vez mais construir obras para incentivá-los. Isso é puro interesse da especulação imobiliária, mas não sou eu que vou dizer isso.

Guaiaó – E para encerrar…
Paulo Mendes da Rocha – Eu diria que nada está encerrado, nós estamos só começando…

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