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A VIDA EM SOL MAIOR

Por Gisela Kodja
Fotografias Marcos PifferGilberto Mendes 2011 - Fotografia de Marcos Piffer
 

Gilberto Mendes, compositor. Escrever sobre esse artista genial é tarefa de tirar o sono. Ele não fala o que se espera e não partilha pensamentos banais. Ainda assim, insiste em dizer que é um homem comum e, logo de cara, vai negando o que parecia incontestável. Sentado a uma distância segura do gravador, dispara: “Não sou maestro.” Como assim? Para os santistas, maestro é nome de batismo. Não há quem se refira a Gilberto Mendes sem esse título. “Já estive à frente de algumas orquestras, mas não sou regente”. Percebendo a perplexidade provocada com a inesperada afirmação, ele abre um sorriso e, assim, iniciamos uma longa entrevista, numa tarde de outono que será inesquecível para mim.

Um pouco ansiosa com o compromisso, procurei ser pontual. Às três em ponto, do dia 31 de março, estava no apartamento e, quando a porta se abriu, mais uma de muitas surpresas. Diante dos meus olhos, discos e livros misturados a pequenas estatuetas africanas compunham um delicado cenário. Almofadas enormes, estampadas, bordadas, multicoloridas, cobriam sofás forrados com mantas psicodélicas, fazendo de espaços cuidadosamente organizados ambientes aconchegantes e descontraídos. Invocando as minhas referências juvenis, eu poderia jurar que estava na casa de Janis Joplin e que o casal que me recebia era John Lennon e Yoko Ono.

Eliane, companheira e anjo da guarda há 28 anos, pede para que eu espere um pouco na sala do piano. Logo, Gilberto Mendes volta e se ajeita em uma cadeira de madeira que me parece desconfortável. Avisei que não ia tomar muito do seu tempo e ele me tranquiliza: “Não se incomode com isso. Dou entrevistas todos os dias para jornalistas e estudantes. Estou acostumado”. E parece que gosta.

A conversa com Gilberto Mendes é uma montanha-russa. Assim como na música concreta, ele constrói e desconstrói pensamentos numa sequência lúdica, que traduz a vivacidade infantil do seu olhar. Se detém longamente em cada resposta e voa em direção a imagens guardadas na memória. Impossível não embarcar nessa viagem e esquecer completamente a objetividade prometida e o roteiro da entrevista. No entanto, comecei pelo inevitável: e o Festival de Música Nova?

“Acabei com ele. A cidade nunca se interessou pelo evento e eu estou velho para ficar correndo atrás de tudo o que é necessário para um encontro dessa natureza”. Em 2011, a atração já não acontece e, quando iria completar 49 anos de existência, desaparece do calendário cultural da cidade uma das mais importantes apresentações internacionais de música contemporânea. Gilberto Mendes foi o criador, diretor artístico e comandou um colegiado de especialistas encarregado da programação, durante décadas. Todo esse empenho era para oferecer a uma platéia esquálida o que havia de mais novo no cenário erudito musical, raridades que nem as salas de concertos mais importantes do País ousaram receber. Gilberto lamenta, mas ninguém se manifesta. A imprensa silencia, o poder público não se movimenta e a população nem sequer reconhece o prejuízo. Indiferente, Santos avaliza a decisão do artista.

Essa despedida melancólica faz pensar como um bancário, que começou a estudar música aos 19 anos, passou a figurar no cenário internacional como mito, reconhecido como um dos pioneiros na renovação da linguagem musical brasileira?

Ele conta que é o mais novo dos cinco filhos de um médico e uma professora. Desde pequeno, ia para o seu quarto, inventava harmonias, imitava instrumentos e se imaginava regendo grandes orquestras, inspirado nas big bands e nos filmes americanos. “Eu também gostava de contar histórias para os meus amigos. Quando eles descobriam o vilão, eu mudava o final da trama e me divertia com isso. Acabei músico e escrevi quatro livros.”


Entre uma coisa e outra, um longo trajeto

O pai, Odorico Mendes, morreu quando Gilberto era ainda menino e D. Fiúca, dando aula em grupo escolar, assumiu a responsabilidade da família. “Meu pai foi um ‘bon vivant’. Gastou tudo o que tinha com viagens e outras extravagâncias. Não deixou nada. Àquela altura, nós morávamos em São Paulo e a minha mãe se viu numa situação muito difícil.  Ela chegou a ficar doente, de tanto trabalhar.” Foram salvos pela irmã mais velha, que passou em um concurso e escolheu assumir a direção do Ginásio José Bonifácio. “Ela ia ganhar um dinheirão e nos trouxe de volta para Santos. Só então, a minha mãe pôde sossegar.”

Preocupada com o futuro, D. Fiúca desencorajava as fantasias do caçula e insistia em profissões sólidas e empregos estáveis. Gilberto foi estudar Direito no Largo de São Francisco. O clima de São Paulo provocava a sua asma e ele não estava nada empolgado com a possibilidade de ser advogado. Um dia, o cunhado Miroel Silveira, diretor e crítico de teatro, chamou-lhe a atenção: “Gilberto, você não percebeu que é músico? Volta pra casa, vai cuidar da saúde e estudar música”. Não precisou falar duas vezes.

A arte da guerra

O mundo estava em guerra quando Gilberto Mendes optou pelo caminho da paz. Era 1941, quando foi estudar música no Conservatório Musical de Santos e nadar no Clube Vasco da Gama.  Também conseguiu uma vaga na Caixa Econômica Federal e realizou o sonho da mãe: carteira assinada e uma boa aposentadoria.

A época era de tensão e muitas restrições, mas Gilberto curtiu o momento à sua maneira. Para ele, tudo aquilo tinha um lado “romântico pra cacete”. O black out deixava a cidade às escuras, mas os postes mantinham uma luz fraquinha no bairro do Gonzaga e na Avenida da Praia. “Ah, que delícia, namorar, beijar as meninas… Era tudo de bom”.

Mendes não foi convocado para o combate, mas acompanhou os fatos em detalhes pelos jornais e noticiários que vinham da Europa. As imagens eram passadas no cinema e fascinavam a plateia, até que em 6 de julho de 1944 a Segunda Guerra Mundial acabou e a cidade de Santos homenageou as tropas brasileiras com um grande baile no Clube dos Ingleses. Gilberto estava lá.

Depois disso, o jovem compositor se tornou um militante de esquerda, engajado no Clube de Arte do Partido Comunista. “Não sei se eu me desliguei ou me desligaram. A célula da arte dava muito trabalho aos dirigentes. Nós fazíamos um barulho indesejável para um movimento que acabava de sair da clandestinidade.”

Gilberto Mendes se distanciou da política, mas não da crítica. Faz uma pausa e pergunta: “Você viu o Lula sendo homenageado na Universidade de Coimbra? Calou a boca de muita gente”.  Com a voz trêmula e os olhos marejados, ele completa: “Um operário que se tornou doutor pela instituição mais antiga de Portugal. Que história fantástica!”

Fé na arte

Comunista que se preza é ateu e Gilberto Mendes não foge à regra, nem às suas contradições. Sempre entregue a vários amores, não consegue definir o verdadeiro e tanto se emociona quando descreve alguma melodia, quanto vibra falando de um filme marcante. “Às vezes penso que gosto mais de cinema do que de música. Quando as luzes se apagam, me encontro com Deus. Penso que só as obras de arte e do pensamento criativo podem ser a manifestação da sua existência”.

Aí, solto a pergunta que derruba candidatos de esquerda: então você acredita em Deus?

“Acreditar eu não acredito, mas todas as noites rezo para que Ele exista”.

Um encontro com Woody Allen

Em muitos momentos durante este encontro, os diálogos ficaram só na imaginação, mas as respostas acabaram vindo do talentoso escritor, que é Gilberto Mendes. No livro “Viver a Música”, de 2008, a paixão por alguns dos “notáveis méritos” americanos – o cinema, a música e Nova Iorque – ganha mil razões que nos levam a entender como o jovem comunista recebeu, sem preconceito e restrição, a influência de uma cultura abominada por seus companheiros de luta.

Além da infância embalada pelas big bands, o compositor teve a chance de visitar os Estados Unidos inúmeras vezes e chegou a morar por lá algum tempo para falar sobre a sua arte nas mais importantes universidades. Naquele país, conquistou respeito. Orientou e participou de vários eventos dedicados à música erudita, pôde apresentar peças difíceis de sua autoria e arrancar aplausos do exigente público do Carnagie Hall. E ele, que padeceu para levar adiante o seu Festival de Música Nova, pôde se deliciar com a competência dos americanos em transformar eventos de alta cultura em uma programação concorrida e rentável.

Como não se render aos encantos de um país que possibilitou longos papos com uma constelação de estrelas formada por Philip Glass, John Duffy e George Perle?

“Mas, andar pelas ruas de Nova Iorque sempre teve um sabor especial, o gosto dos musicais”. As notas de Manhattan vibram nas calçadas da cidade especialmente sob os pés de quem tem uma relação tão intensa com o cinema. “E a gente está sempre esperando encontrar Woody Allen ao virar uma esquina”.

Gilberto Mendes 2011 - Fotografia de Marcos Piffer

“Eu sou muito santista”

A acidez do ‘maestro’ diverte. Prestes a fazer 89 anos, no próximo dia 13 de outubro, Gilberto Mendes não poupa ninguém. No meio de qualquer discussão ele é capaz de lançar um comentário agudo e debochado, com a cara mais séria do mundo.

“Hoje, Santos é a Gotham City dos pobres”, diz ele, fazendo uma referência à selva de prédios de concreto, onde super-heróis americanos combatem a violência e a corrupção. Está indignado com a situação de Santos que, com a explosão imobiliária dos últimos anos, “ficou uma cidade sinistra e pesada que em nada lembra o seu passado.  A sorte é que eu viro para o outro lado e vejo a praia. Sou apaixonado pelo mar”.

Emenda o desastre urbano com uma das precariedades locais. Lembra de quando foi convidado a dar aulas de música em um colégio religioso, um dos mais tradicionais da cidade. “A minha música assustava, mas na ocasião as freiras queriam professores bizarros. Cinco anos depois, me mandaram embora porque eu não tinha título de nada. Imagine, saí dali e fui dar aula na USP, sem título nenhum. Quando eu subi a Serra para o meu primeiro dia de trabalho, vi a cidade e o mar lá de cima. Aquilo era tão lindo, que eu me emocionei. E chorei.”

Para Gilberto Mendes a sua obra é uma trilha sonora para Santos.

A música como ofício

Insisto na música e Gilberto Mendes me pede para não contar a sua história “do jeito de sempre. Fale sobre essas coisas”, o que significa falar sobre o amor por Eliane, pelos filhos, netos, pelo cinema, pela cidade, pela praia. Chocolate com café. Sobre as inúmeras viagens feitas e o medo de fazê-las. Sobre a guerra do mundo e as lutas particulares. De música. “Gosto de música, tanto, que gosto até de música ruim. Agora, que estou velho, uma melodia bonita me faz chorar.” Deixa escapar o comentário e eu aproveito a emoção para voltar para a pauta que me trouxe até aqui e tentar arrancar do compositor uma declaração que traduza a magia das suas canções.

Meio contrariado, Gilberto entra no tema rasgando e destrói a fantasia de que artistas são seres extraordinários.  Diz que a arte é lucidez e inspiração, é puro trabalho. Para não ficar sozinho numa posição tão dura, pede socorro àquele que considera o maior compositor russo de todos os tempos. Stravinsky dizia: “Eu faço música como um sapateiro faz sapato”.

Segue dispensando o glamour de uma carreira que aos olhos dos mortais é puro mistério. “O interessante da música é que ela não quer dizer absolutamente nada. Ela é a sua própria estrutura, que surge do som de um instrumento e que vai ser compreendida por cada pessoa de modo diferente. Se o compositor está amando, pode até fazer uma música em louvor a uma mulher, mas um pigmeu, que está a quilômetros de distância, certamente não vai perceber nada disso. Por que gosto se discute, e muito”.

Ele interrompe o raciocínio e pergunta se eu me interesso por música erudita. Digo que não sou especialista, mas reconheço e admiro uma grande obra. Algum silêncio e a última declaração antes de encerrarmos. “A Osesp perdeu o seu melhor maestro e Fernando Henrique vai ter que carregar essa mancha no seu currículo. Por motivos políticos, ele permitiu a saída de John Neschiling, o regente que elevou a orquestra à condição de estrela internacional. E o Lula é que é analfabeto”.

Comum, mas nem tanto

Acima da suavidade daquela figura magra, com os cabelos brancos desalinhados e o rosto marcado pela arte, paira uma incrível resistência e certa teimosia. Elas justificam as estranhas escolhas de um bancário que decidiu estudar música com atraso e escolheu caminhos nada convencionais para a sua produção artística. Angustiado, ele chegou a questionar a sua dedicação a composições que ninguém ouvia. Com mais de 30 anos, sentia que estava ficando velho e continuava um ilustre desconhecido. Mas, no fundo, Gilberto Mendes tinha a resposta que precisava para seguir em frente: este homem comum queria ser lanterna na fila dos grandes.

No livro “Uma Odisséia Musical”, lançado em 1994, pela Editora da Universidade de São Paulo, deixou registrado que, apesar de tudo, “não conseguia, não devia desistir”. Inusitado, como sempre, ele revela em um dos capítulos a “esquisita convicção” de que precisaria compor para merecer ouvir artistas admiráveis como Machaut, Palestrina, Mozart, Bach e Schumann.

Assim como um menino de 8 anos que deseja ser  bombeiro ou piloto de avião, Gilberto Mendes guardou um sonho infantil. Com os olhos fechados imagina Schubert no céu apontando e dizendo para Satie: ele é um dos nossos. “É só isso o que eu quero. Ser o último dos músicos, mas um músico, para merecer ouvir os grandes.”

Gilberto Mendes é mesmo como as crianças, que com suas declarações originais fazem a alma da gente sorrir e, diante do seu sorriso ingênuo, tudo em nós se ilumina.

Gilberto Mendes 2011 - Fotografia de Marcos Piffer
Esquecer, jamais

Antes de voltar pra casa, fiquei diante do prédio de Gilberto Mendes, pensando naquela descoberta. Depois de alguns minutos de conversa, Gilberto Mendes não é alto nem baixo, velho nem moço, gordo nem magro. Mas quando caminha pelas ruas da cidade com a sua Eliane e o cachorro, até o mais desinteressado dos santistas sabe que ali vai uma pessoa especial. Muito especial.

 

GISELA KODJA Colaboradora GUAIAÓ 01

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