REVISTA GUAIAÓ
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[ Uma História ]

Desnuda – Urbe Desejada

Por: Soren Knudsen
Fotografias: Marcos Piffer

Respiração rítmica. Braçadas fortes. Pernas em movimento constante. A nadadora levanta a cabeça procurando a água lisa que indica a correnteza. Ela sente a força do mar. É como montar num jato. Ao chegar ao
Canal 1, passa por um redemoinho de lixo que se acumula na base do quebra-mar. No raso, tira a touca, os óculos, os plugs de ouvidos e sai da água correndo. Atravessa a faixa da areia e a avenida da praia. Ainda correndo, sobe os 19 andares pela escada do clássico Edifício Marajoara até a cobertura. Termina o treino do dia.

Liv, banho tomado, toalha na cabeça, corpo hidratado, emerge no terraço para o espetáculo que faz pano de fundo para a baía de Santos. Dezenas de tons de amarelo, vermelho, rosa e azul pintam o céu e iluminam os últimos minutos do dia. Pequenos diamantes, as luzes da cidade acendem-se uma a uma. Delineiam avenidas e quarteirões dos bairros que se estendem da beira da água ao pé do morro.
Ela consegue imaginar a cidade projetada há mais de um século. Ruas arborizadas refrescando a cidade. Largas avenidas escoando o trânsito. Espaçosos parques públicos em pontos estratégicos para prevenir as inundações e canais que drenam a cidade, protegendo-a contra as doenças que a assolaram por anos.
Lentamente a escuridão cobre os pecados da urbe desnuda. No horizonte, as luzes da barra. Navios formam a cidade flutuante que cresce e diminui com a maré, espelhando a orla. O farol da Ilha das Palmas avisa: “Por aqui ninguém passa sem permissão”.

Quarentena
Mas, em 1850, aconteceu justamente isso. A febre amarela entra no estuário desavisado, a bordo de um navio que partira de Nova Orleans. Com escala em Havana, transportava forty-niners – aventureiros – com destino à Califórnia via Terra do Fogo. Participariam da maior Corrida de Ouro dos Estados Unidos em 1849. Ao passar pelo Estreito de Magalhães, metade dos garimpeiros já não constava da lista de passageiros. Foram enterrados em alto-mar. Ao chegar à Valparaíso, o sonho dourado acaba para os que ainda restam em pé.
Na barra, a âncora encontra o fundo. A bandeira quadriculada amarela e preta é hasteada às pressas no traquete. Não se aproximem. Quarentena. Febre amarela.
Para Santos, o destino foi tão cruel quanto o dos garimpeiros. Localizada numa baixada com terras alagadas e sem ventilação, a cidade era o lugar ideal para a propagação da febre amarela. Da água parada, os mosquitos alimentam a pandemia. A peste bubônica, a varíola, a difteria, a cólera, o tétano, a leptospirose, o tifo e a malária atacam sem dó. O pior é a febre amarela e sua parceira, a tuberculose.
Café
Ao embarcar a primeira saca de café da Província de São Paulo em 1844, o alemão Theodor Wille também alavanca o crescimento do café como principal produto de exportação do Brasil. Transforma Santos na principal praça cafeeira do país e no mais importante porto da costa atlântica da América do Sul, e ponto de referência mundial para commodities. Sem planejamento e sem visão, a cidade não está preparada para o que está por vir. Não consegue acompanhar o ritmo de crescimento exigido para atender o frenesi do ouro negro.
Falta tudo na acanhada cidade colonial. Suas apertadas ruas impedem o transporte, o armazenamento e o embarque de café em tempo hábil. A praça comercial não possui bancos para financiar as operações, nem seguradoras ou mão de obra para movimentar as cargas.
O roubo é um negócio paralelo. Crescem as perdas.
Para assegurar o monopólio do transporte de café para Santos e o trânsito de pessoas e mercadorias para o planalto, foi inaugurado, em 1867, um investimento milionário britânico, a ferrovia São Paulo Railway.
O “cavalo de ferro” de Santos reina supremo. Ciente da necessidade de um porto organizado, mas sem verbas para executá-lo, o Governo Imperial concede por 90 anos o privilégio para a realização das obras e exploração comercial do porto. O futuro parece promissor.

Conflito
Mas as obras do porto não saem. São contestadas pelos donos de trapiches e armazéns, contrabandistas e senhores dos cortiços. Pelos próximos 12 anos, conflitos de interesses entre o comércio local e os capitalistas patrocinados pelo governo imperial impedem a construção do tão necessário cais. A Província de São Paulo assume o fardo, mas o entrave continua. Os navios estrangeiros fundeados lado a lado esperam por semanas para carregar e descarregar os seus porões.
O boom cria o efeito colateral da chegada de milhares de trabalhadores buscando a sorte no El Dourado caiçara. Os precários cortiços de madeira e telhados de metal do centro lotam de recém-chegados que apostam a sorte nessa oportunidade. Sem esgoto nem água corrente, o inferno suado no mangue infestado por mosquitos começa.
Junto com os cavalos, burros e mulas, a população literalmente “defeca onde come”. Falta água. Protestos nas ruas. O pesadelo se intensifica a tal ponto que as exportadoras e armadoras estrangeiras começam a repensar a viabilidade dos seus investimentos. As centenas de mortes por epidemia reforçam o apelido dado à cidade pelos armadores estrangeiros –
“O Porto Maldito”.

Contágio
Sob o comando do capitão norueguês Johannes M. Strøm de 28 anos de idade, a barca Cabral entra no estuário de Santos no final de 1869. É o orgulho da armadora Salve Kallevig & Søn do porto de Arendal. O veloz veleiro de três mastros foi construído para prestar serviço para as poderosas exportadoras de café. É um investimento considerável em tecnologia e mão de obra pela armadora para um eficaz transporte de café para a Escandinávia.
Para evitar o contágio, o dono da armadora não permite que Strøm atraque seu navio no cais de Santos. Na pequena cidade de Arendal, perder membros da tripulação é o mesmo que perder membros da própria família. O Cabral permanece ancorado no lagamar por meses. Isolados, no calor e umidade do verão santista, mosquitos zumbindo no ouvido, em condições de higiene cada vez mais precárias, a febre vem a bordo silenciosamente. Sob as lonas esticadas, os marinheiros adoecem. Água fresca, quando tinha, era pouca.
Após quatro meses, em fevereiro de 1870, o Cabral finalmente zarpa com o seu café. É conduzido pelo canal de navegação pelo primeiro oficial Tallaksen. Doente há uma semana, Strøm, desorientado, delirante, acompanha o seu antigo comando pela janela da Santa Casa de Misericórdia. O Cabral dobra o Paquetá, iça as velas e como se fugindo
do inferno, rapidamente segue a todo pano. Strøm, prostrado na cama, consumido pela febre amarela, vive seus últimos momentos.
No malote do navio, uma carta de amor. O apaixonado adeus para a amada noiva. No pálido sol da primavera norueguesa, lágrimas borram as últimas linhas escritas por Strøm. Enxoval completo, olhos celestes afogados no desconsolo, Birgitta se apoia no ombro do irmão mais novo de seu falecido noivo. Birgitta e Thorbjørn Strøm se casam no solstício de verão de 1870.
A memória de Strøm e tantos outros desbravadores é preservada na campa no Cemitério do Paquetá que contém os despojos do antigo Cemitério dos Estrangeiros onde ele foi enterrado. Mas existe outro memorial localizado na igreja da pequena ilha de Tromøy, perto do porto de Arendal.
Nas grossas paredes de pedra da igreja, construída pelos seus antepassados vikings estão gravados em uma placa de granito os nomes dos que faleceram no exterior. Quando menina, Liv, curiosamente, observava esses nomes imaginando o que acontecera em Santos, Brasil, no ano de 1870. Por tradição, deixava sempre uma pequena pedra polida pelo mar ao lado do nome do capitão. Thorbjørn Strøm e Birgitta Barfoed, que se casaram naquele distante verão de 1870, são os trisavôs de Liv Strøm.

Guaiaó 07 - URBE desejada - Desnuda

Desbravadora
Como muitos dos seus antepassados que tiveram que deixar a terra natal em consequência da luta pelo poder, por fome e doenças, Liv passou a juventude em Nova Iorque onde a mãe era estilista. Hoje, aos 38 anos de idade, é triatleta, rema caiaques oceânicos e luta Muay Thai. Vive sobre o mantra – Mens sana in corpore sano.
Formada em economia, Liv trabalha para um grande fundo de investimento que estuda como as migrações de pessoas e as epidemias ameaçam as economias consolidadas e a estrutura do poder. Avalia o impacto em centros de população e os recursos necessários para mitigar as consequências para poder determinar onde existem oportunidades de investimento. Estuda casos do passado para entender como planejar o futuro. A sua pesquisa indica que a história se repete.

Tormenta
Na madrugada de 29 de agosto de 2005, Katrina, um imenso furação categoria 5 com ventos de até 250 km por hora, sai das águas do Golfo do México para o leste de Nova Orleans e colide com a costa sem perdão. Corre nos manguezais, na várzea aberta e retoma o velho leito do rio ocupado pela agricultura. A água inunda e destrói tudo em seu caminho.
A água barrenta e veloz corre espremida entre os diques. Enjaulada, procura um ponto fraco para se soltar. As velhas e enferrujadas comportas não oferecem resistência. Sem manutenção, são arrancadas pela força silenciosa das águas. Os diques não resistem. Oitenta por cento da grande Nova Orleans é inundada e fica sob cinco metros de água.
A bordo de um helicóptero da Guarda Nacional do Estado do Mississipi, Liv acompanhou o resgate de milhares de pessoas ilhadas no telhado de suas casas. Quilômetros após quilômetros de bairros inundados. Idosos, crianças e cães solitários à espera de seus donos. Todos somente com a roupa do corpo. Boatos de contágio de tifo e cólera se espalham. O medo de água tóxica preocupa. A diáspora. Em um só golpe, a cidade é reduzida a um quarto de sua população.
O centro da cidade e os distritos residenciais planejados há mais de 100 anos sobrevivem intactos. Ficaram submersas as áreas ocupadas pelas sucessivas ondas de especulação imobiliária a partir da década de 50. Visaram somente o lucro e não a segurança. Do alto, Liv observa os armazéns onde mais de três milhões de sacas de café apodrecem nas águas lamacentas do distrito industrial.
Ao pesquisar o que fez a diferença entre a sobrevivência e a diáspora em Nova Orleans, ela descobre dois nomes, os engenheiros e sócios Estévan Antonio Fuertes e Rudolph Hering. Com um plano arrojado de engenharia, eles erradicaram as epidemias que assombravam a cidade a partir de 1894 e possibilitaram que ela crescesse ao norte em direção ao belo Lago Pontchartrain, até então cercado de pântanos. Novos bairros, novas áreas de lazer, um novo impulso gerador de riquezas. Um plano diretor que é utilizado até os dias atuais. Uma nova cidade.
Os feitos de Fuertes e Hering eram conhecidos por Liv. Considerados como pais da engenharia de saneamento básico e ambiental, Fuertes e Hering possuem impressionantes currículos. Desde o imenso projeto do Croton Water Works and Aqueduct que fornece água a Nova Iorque até as expedições que buscavam o local que viria a ser o Canal do Panamá. Trabalhavam com a topografia dos locais usando uma técnica desenvolvida por eles chamada de geodetic survey para encontrar soluções viáveis para desafios urbanos. Valorizavam abordagens sistemáticas e lógicas para chegar a soluções sustentáveis.
Revisando os antecedentes do Plano de Drenagem de 1894 para a Cidade de Nova Orleans, Liv fica surpresa. Um velho nome conhecido, Santos, Brasil. Descobre que os dois engenheiros também desenvolveram um plano para a cidade cujo nome aprendera na igreja de Tromøy. A cidade em que o irmão de seu trisavô morreu.
Pelo elo familiar que tem com a cidade e a curiosidade de menina, Liv vem para Santos pesquisar o local que por décadas fora chamado de “Porto Maldito”. Do material de referência sobre Fuertes e Hering em Nova Orleans, outro nome aparece: o engenheiro Ignácio Wallace da Gama Cochrane.

Santista
Em Santos, quem recebe Liv é Luiz Marcos Suplicy Hafers, bisneto de Cochrane e velho conhecido de sua família em Nova Iorque. Explorador, jogador de polo, empresário, corretor e produtor de café há mais de 70 anos, ele escuta as ideias que Liv, animadamente, apresenta e a ajuda em sua pesquisa. Hafers conta-lhe a história de seu antepassado.
Cochrane, filho de escocês, nascido no Rio de Janeiro, era engenheiro fiscal na São Paulo Railway. Apaixonado pela jovem noiva Dona Marucas, Maria Luiza Vieira Barbosa, de tradicional família santista do café, vem para Santos em 1860. Ele de estatura alta, pele e olhos claros que afirmam a sua ascendência nórdica. Ela, em contraste, era o exemplo mais formoso da legítima mulher brasileira. Morena, de grandes olhos e cabelos pretos, a boca bem marcada e de enorme beleza. O que é certo é que sem a Dona Marucas, Cochrane não seria Cochrane. O seu amor é a força que o alimenta. Formam um casal encantador. Instalam-se numa arejada casa junto à Capela de Santo Antônio do Visconde do Embaré na Barra. Na brisa do mar, longe da congestionada Cidade, os filhos estariam seguros. E logo, começaram a vir. Doze no total…
Incentivado por Dona Marucas e apoiado pelo sogro e pela praça cafeeira, Cochrane assume a presidência da Câmara Municipal em 1870. Delibera sobre os numerosos desafios que a cidade enfrentava. Argumenta que por necessidades sanitárias, deve se mudar o cemitério público do encharcado Paquetá para a Chácara da Filosofia no Saboó por sua localização mais adequada. Ele defende mudar o Matadouro Municipal localizado ao lado da Estrada de São Vicente para um lugar afastado com áreas próprias para pastoreio, para embarque e desembarque de animais e destinação final dos dejetos.
Também propõe melhorias para o cais do porto. Refere-se ainda aos projetos de abastecimento de água, iluminação, transporte público, arborização e ajardinamento das praças e vias públicas. Planeja a drenagem e a canalização dos córregos que cortam a cidade e o aterro de charcos que servem de criadouros de vetores. Propõe o calçamento das vias públicas, a demolição dos cortiços, a construção de um lavadouro público e uma taxa municipal para a execução da limpeza municipal pública, combatendo assim a insalubridade que alimentava as epidemias.

Perda
O que começou como um esforço para o bem da cidade se torna pessoal em 1872. A febre ataca aquele que planeja o seu fim. O tranquilo lar da sua família é invadido. Na seção da Venerável Ordem Terceira do Carmo do superlotado Cemitério do Paquetá, um solitário anjo zela sobre o túmulo da sua querida filha Georgina de seis anos e do ruivinho Eurico de sorriso contagiante de apenas dois anos. Nos olhos de Dona Marucas, lágrimas. No coração, dor. Dias de luto. Dias de revolta. Cochrane converte a dor em ação pelo resto da sua vida. Luta para a erradicação das epidemias e a grandeza de Santos, terra de sua esposa e de seus filhos. O seu lar.
Por quatro mandatos a partir de 1870, Santos o elege Deputado Provincial. Em 1878, Cochrane se afasta da vida pública e dedica-se à sua primeira vocação. É nomeado Inspetor Geral e Representante da Companhia da Estrada de Ferro São Paulo e Rio de Janeiro. Fecha a casa na Barra e instala a família no Rio de Janeiro, cidade de onde viera há tantos anos.
Mas o destino não quis assim. Monarquista e membro do Partido Conservador, por sua liderança foi chamado para servir como Deputado pela Província de São Paulo de 1885 a 1889. É eleito membro da Comissão de Obras Públicas e Indústria. Velhos fantasmas voltam a assombrá-lo. Epidemia, cortiços, trapiches, doenças e mortes. É como se o pequeno anjo solitário do Paquetá o chamasse para terminar o que não conseguiu fazer vinte anos antes.
Habilmente, apresenta uma nova emenda que autoriza a construção do porto de Santos em 1888. Dessa vez, Gaffrée, Guinle & Cia. são os favorecidos com a concessão imperial. Finalmente, iniciam-se as mudanças tão esperadas. A construção do porto em si não resolverá os problemas que assolam Santos. Reurbanização e saneamento básico são necessários.
Nos anos que se seguem à proclamação da república, a epidemia se alastra. Mais da metade da população santista morre. Com corpos empilhados nas valetas e nas ruas da cidade à espera dos coveiros, abrem-se valas comuns no novo Campo Santo reivindicado por Cochrane há vinte anos, Cemitério da Filosofia, no Saboó.
Nas reuniões de conselho dos exportadores e do governo estadual espalha–se a possibilidade de mudar os embarques de café de Santos para o porto de São Sebastião. Seria o fim do sonho por qual tanto se lutou.

 

Engenheiros
Simpatizante de Dom Pedro II, Cochrane prefere não fazer parte do governo republicano. Retira-se e desaparece da vida pública. Mas quando três anos mais tarde, em 1892, o presidente do Estado de São Paulo, Bernardino José de Campos Júnior, convida-o para reorganizar o Departamento de Estradas de Ferro, ele não tem como recusar. Era o auge da epidemia que matava tanto na Baixada como no interior, nas rotas das estradas de ferro que ele tão bem conhecia.
Entre os amigos no círculo de poder está Orville Adalbert Derby que comanda a Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo. Estudou sob a tutela de Estévan Fuertes na conceituada Universidade Cornell em Nova Iorque. Influenciado por Derby, Cochrane e Bernardino de Campos convidam Fuertes, Hering e seus associados para apresentar uma solução.
Fuertes e Hering aceitam o desafio. Por dois anos, junto ao filho e sócio James Hillhouse Fuertes, a equipe se instala em Santos. Coletam dados físicos, hídricos, meteorológicos e geológicos para entender como a região era afetada pelas chuvas e, então, planejar o seu escoamento na Cidade e na Barra. A topografia da ilha foi estudada em detalhes para a elaboração do projeto.
Desenvolvem planos para os pontos de captação e trajeto das tubulações que levariam a água para os reservatórios, adequando os antigos sistemas da cidade. Planejam um sistema inovador de separação total de esgoto e drenagem pluvial com estações elevatórias para superar a falta de declive da ilha. Essa solução já tinha tido sucesso absoluto na erradicação de agentes biológicos e vetores causadores de epidemias na cidade estadunidense de Pullman, Illinois, dez anos antes.
Recomendam padrões para instalações de esgoto e água em edifícios, comércios e residências. Planejam um sistema de coleta de resíduos sólidos apoiado por um incinerador para destino final adequado. Desenvolvem os trajetos das linhas de transporte urbano, especificações para leito carroçável e calçamentos. Recomendam opções para uma estação de quarentena e uma hospedaria de imigrantes. Criam um plano diretor integrado de bem–estar urbano.
Os inovadores entregam o que seria a receita perfeita para o saneamento básico de Santos em 1894. Planos e especificações que resolveriam os males que afetavam a cidade há tanto tempo. Cochrane, agora chefe da Comissão de Saneamento, abraça o plano e começa a detalhar as prioridades. Apresenta um relatório para o Estado onde enfatiza a importância das recomendações de Fuertes e Hering sobre o sistema de separação total do esgoto doméstico e de escoamento pluvial para eliminar os focos de infestação.
No mesmo ano que Cochrane tenta começar as obras, Fuertes e Hering propõem a mesma abordagem para Comissão de Saneamento de Nova Orleans. Quem lê as especificações dos Planos de Drenagem de 1894 para Santos e para Nova Orleans percebe as marcantes semelhanças entre os dois projetos. A diferença, porém, é que Nova Orleans inicia as obras de imediato e constrói um sistema de saneamento municipal que servirá de referência mundial.

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Solução
Em 1902, Bernardino de Campos volta à presidência do Estado e assume o seu segundo mandato. O velho guerreiro Cochrane está junto com Bernardino no governo. Eles encaram o desafio. Para Cochrane, será a última chance de concretizar seu antigo sonho, o projeto de saneamento básico para Santos. Por sete anos, o plano diretor de Fuertes e Hering ficou engavetado.
Chamam um novo campeão para assumir o ataque como Diretor da Comissão de Saneamento de Santos. Ele é o jovem engenheiro sanitarista carioca Francisco Saturnino Rodrigues de Brito.
O plano que Saturnino desenvolve mantém os preceitos básicos do plano apresentado em 1894 por Fuertes e Hering.
Adequa e modifica um plano de expansão da cidade de Santos desenvolvido pela Câmara Municipal em 1886 que desconsiderava a macro drenagem recomendada por Hering. O Plano de Saturnino respeita a topografia da ilha para ordenar a expansão urbana e segue o conceito de separação completa de esgoto e drenagem pluvial. Cria o plano diretor da cidade para as próximas décadas.
Saturnino define o formato da cidade a partir dos canais traçados desde o mar até o estuário. Aproveita o movimento das marés e comportas como sistema de limpeza natural dos canais. Abre os bairros para a brisa do mar com largas avenidas para o trânsito da cidade. Para a recreação e uso do povo, Saturnino planeja grandes espaços democráticos com parques pela cidade que tem a dupla função de amortizar os impactos das chuvas, minimizando as inundações. Desenha o belo jardim da orla da praia.
A diferença dessa campanha para as anteriores é que as obras começam a ser executadas. Mesmo com algumas modificações, o plano de Saturnino toma corpo e o trabalho é iniciado em 1905. Desta vez, os contagiosos cortiços do Centro são demolidos. Largas avenidas são abertas na cidade em conjunto com as obras de Gaffrée e Guinle no porto. As velhas galerias de drenagem da cidade são substituídas por novas que separam o esgoto das águas pluviais.
Saturnino inova ainda mais. No seu plano, ele traça uma linha vermelha indicando o trajeto do primeiro emissário da Baixada. Uma ponte pênsil é projetada para carregar a tubulação de esgoto da ilha para o mar aberto na Ponta do Itaipu.
O Canal 1 segue o mesmo traçado que Fuertes e Hering recomendaram. A partir do meio da ilha em direção à Bacia do Mercado, canaliza o antigo Córrego dos Seixas, e em direção ao mar, escoa a água dos morros e das cachoeiras do Rio Branco e da Nova Cintra. No total, serão nove canais. No Plano de Saturnino, os Canais 7, 8 e 9 são, respectivamente, os que conhecemos hoje como os do Orquidário, Nova Cintra e do Jabaquara.
Os engenheiros Cochrane e Saturnino comemoram a inauguração do Canal 1 em 1907. O velho guerreiro e o novo campeão. Cada um por seu próprio mérito construiu uma nova realidade para a cidade. Santos antes dos canais, e Santos depois dos canais. Por essa vitória e muitas outras, Saturnino é conhecido como o pai da engenharia sanitária e ambiental do Brasil.
As epidemias se afastam. Os terrenos drenados formam bairros residenciais para operários onde chalés aparecem como alternativa viável para a população trabalhadora. A orla valorizada concretiza a visão da vida elegante na Barra. Santos respira um ar de tranquilidade. O comércio floresce, o porto expande e Santos começa a assumir o tão merecido ar de uma bela metrópole.
Mas nem tudo é belo. Saturnino abusou da boa vontade dos incorporadores, construtores e donos das terras. Sua intenção de criar grandes espaços públicos está na contramão dos que ganham por metro quadrado construído e vendido. Saturnino não chega a ver a sua obra de mestre completa. Ele parte desgastado. Cochrane também redireciona seus esforços. Torna-se o primeiro diretor-presidente do Instituto Pasteur de São Paulo. Sua batalha para concretizar o sonho da urbe desejada continua até a o fim da vida.

Risco
“Dengue avança: são quase 28 mil casos” – A manchete do jornal grita para o leitor anestesiado. Na cidade, os cortiços. Nos morros, as encostas ocupadas. Sobre palafitas, moradias sem esgoto, água potável, eletricidade e coleta de lixo avançam sobre o mangue. Mais de 30 mil pessoas vivem abaixo do nível do mar atrás de diques em áreas invadidas, aterradas e urbanizadas. O trânsito, caótico. Construções que destoam em escala e tamanho. Sem tetos, mendigos e viciados ocupando as ruas e parques da cidade. Mortes por epidemias de dengue e gripe H1N1 aumentam a cada ano.
No Porto de Santos, o acesso é impossível. A malha ferroviária está sucateada. Falta área retroportuária e o custo de mão de obra é dos mais caros do Brasil.
O porto é considerado um dos menos eficientes no ranking mundial em logística. No horizonte, a tormenta cresce com o frenesi do novo ouro negro. Muitas promessas e pouca ação. Para Liv, a história está prestes a se repetir.

Futuro
Antes de partir, Liv e Hafers passam uma tarde memorável na Bolsa de Café. Banhados pela luz do fabuloso vitral “A Visão de Anhanguera”, duas vidas unidas por casualidades. Duas famílias unidas pela mesma história. Ele, elegantemente, representa as vitórias do café. Ela, o futuro globalizado. Conversam como se o tempo e a distância nunca tivessem existido. Unem séculos em uma tarde. Da barca Cabral á preferência pelo caffè macchiato fiorentino. Da vontade de viver ao desejo de tudo querer experimentar um pouco.
Na tarde ensolarada, os dois fecham uma ferida que esteve aberta por cinco gerações. No Paquetá, Liv coloca uma pedra polida do Mar do Norte na campa dos Estrangeiros. Numa brecha do mármore preto encaixa uma amarelada carta que jamais chegou a ser enviada. É a última carta de Birgitta para seu querido capitão Strøm. Para fazer companhia ao anjo solitário dos filhos de Cochrane, ela deixa um casal de bonequinhos trolls de mãos dadas. Sorte na tradição Escandinava. O trollzinho de imensa cabeleira rebelde cor de fogo despede-se deles com um sorriso contagiante.
“A cidade é maravilhosa”, diz Hafers. “Precisamos assegurar o seu futuro e mesmo com todos os seus desafios, não a trocaria por nada. Resido temporariamente em São Paulo pelos últimos 58 anos, mas sou e sempre serei Santista”, sorri para Liv.
No seu último dia em Santos, aos primeiros raios de sol, Liv, na corrida, passa por Saturnino no jardim da orla. Imortalizado em bronze, seu ambicioso plano diretor aberto, o campeão aguarda pelo dia em que o coletivo seja entendido como mais importante do que o privado. Espera pelo dia em que se fale em política pública, de qualidade de vida para todos e não para poucos.
Liv relembra o velho ditado:
“Quem não conhece o passado, não entende o presente e não saberá planejar para o futuro”.

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