REVISTA GUAIAÓ
  • Editorial

[ Editorial ]

Na natureza

Texto e foto: Marcos Piffer

Mata Atlântica - foto Marcos Piffer - revista Guaiaó 05

“Só a Arte pode salvar o mundo!”. Muitos anos atrás, quando eu estava em vias de publicar o livro Litoral Norte, Paulo Anis Lima, que é o editor da revista Trip e de muitas outras, começou assim o prefácio para o livro. Ele, um inconformado como eu com os rumos que o nosso litoral havia tomado, dizia que aquelas imagens davam um “profundo, sonoro e inquietante” grito, questionando o por quê de tantas malsucedidas transformações.

A nossa região litorânea, e Santos aí incluída, já passou por várias ondas de transformações que tiveram consequências desastrosas para o Meio Ambiente e para os seus habitantes. Søren Knudsen, quando reconta nesta edição, com a maestria de sempre, a história de Hans Staden, levanta o que talvez seja a primeira delas, a que começou a derrubar nossas matas para o ciclo da cana, e o simultâneo genocídio dos Tupinambás e dos Tupiniquins.

Como o alerta citado pelo Paulo Lima – na verdade um slogan de uma campanha publicitária de um jeans nos anos 70 –, a revista GUAIAÓ vem tentando fazer a parte dela lançando vários e sutis avisos sobre nossas questões ambientais. E fazendo isso sempre através das manifestações da Arte, longe do ranço do discurso pseudo-ambientalista engajado.

Toda esta a edição caminha nesse sentido, emitindo sinais de alerta sobre o que perdemos ou estamos na iminência de perder da nossa riqueza ambiental e cultural ou da nossa tão falada qualidade de vida. Desde o sutil “Ensaio”, de Natália Barros, que abre a edição, ao texto de Marcos Denari, que vai fechá-la, todos apresentam pequenos e breves, mas profundos e belos alertas.  A eles se juntaram, ouvindo o meu chamado, o Juan Esteves, Gino Caldatto, Marcus Vinícius Batista, Reh Teiss, Julinho Bittencourt, Flávio Viegas Amoreira e até o José Roberto Torero, que trocou de seção temporariamente, figurando desta vez na de Literatura. Nas Artes Plásticas, o grupo se completa com o incrível trabalho de Rodrigo Bueno, criador do Ateliê Mata Adentro, com suas pinturas e intervenções sobre madeiras de demolição, e com os amigos Flávio Lafraia e Paulo von Poser.

Sem gritar, mas apenas com longos sussurros, creio que todos nos dizem para permanecermos alertas, não só com a questão ambiental, mas com nossas perdas culturais também.

Como sempre, trazemos algumas novidades. Trocamos novamente o papel de impressão com o objetivo de conseguir o selo FSC – que aparece na página do expediente –, muito importante para nós, ainda mais numa edição que tem como tema central o Meio Ambiente. Este selo certifica a cadeia produtiva do papel e da gráfica, e garante que a produção do papel, transporte, manuseio e impressão sigam normas ambientais e sociais corretas.

Trazemos também uma mudança conceitual importante. Para desenhar a matéria do Hans Staden, optamos por criar um ensaio fotográfico quase teatral, com objetos de várias etnias indígenas brasileiras, ao invés de meramente ilustrar com imagens dos locais ou situações citadas nela. Esta era uma ideia antiga minha, de que as imagens deixem de ser mero suporte ao texto, e sejam cada vez mais uma história visual paralela, que levem o leitor a uma outra viagem dentro da história.

Desta vez, eu gostaria que vocês apreciassem a revista debaixo de uma bela e frondosa árvore, mesmo sabendo que árvores belas e frondosas estão cada vez mais raras na nossa região.

Voltar ao topo