REVISTA GUAIAÓ
  • Field Notes

[ Field Notes ]

Diário de Bordo do batelão Santinha

Por: Soren Knudsen
Arte: Flávio Lafraia

 

Arte Flávio Lafraia - revista Guaiaó 05

 

 

 

Segunda-Feira 06/08/2012 23°50’03” S, 46°02’32” O
A praia nos acompanha a bombordo. Mosaico de sol sobre a areia branca entre nuvens negras pesadas, carregadas. Moldura verde da Serra do Mar. O céu ameaça desabar. O mestre-de-canoa, atento.

Canoa de voga. De um-paú-só. Canoa caiçara. A escolha dos que faziam negócio em todo o litoral norte. Ela se mexe, quebra e dança com o ritmo do mar. O mestre busca a linha para o destino pintado no horizonte.

Sem estradas, a canoa foi o único meio de contato entre os povoados no nosso litoral por séculos.  Desde o norte paranaense até o sul capixaba. Herança dos tupinambás. Selvagem, impõe respeito.

Com até 20 metros comprimento e 2,20 metros de boca. Cabia um fusquinha numa dessas, informa o sorriso desdentado. Quinze pessoas tranquilamente. De Angra dos Reis para Santos em três dias.

O vento aperta. As primeiras gotas no rosto. Da proa, a garota lança um olhar. Recolhe os remos e iça a vela. A bastarda enche. A tripulação monta. Contrapeso na borda. A canoa salta da água e corre majestosa.

“Hoje, nem árvore desse tamanho para construir uma nova tem”, diz a alma enrugada pela vida no mar. Carinhosamente, “Ela é o que me resta dos ferozes tupinambás e suas velozes canoas-de-guerra.”

Voltar ao topo