REVISTA GUAIAÓ
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[ Vida na Vila ]

A descoberta dos portugueses pelo Brasil

Por: José Roberto Torero
Arte: Paulo von Poser

 

Arte Paulo von Poser - revista GUAIAÓ 05

 

Pesquisando para um livro sobre o descobrimento do Brasil, tropecei numa carta datada de maio de 1500. Mas não se trata da célebre carta de Caminha. Esta é escrita em tupi e assinada por um certo Tibiriçá. Além de mostrar a visão da descoberta pelo ângulo dos tupinambás, este documento nos conta que fim levou Afonso Ribeiro, degredado deixado no Brasil pela esquadra de Cabral.

 

Era um lindo dia, de muito sol e nenhuma nuvem. Se não me engano, 23 de abril; talvez uma quinta-feira.Vínhamos pela praia em sete ou oito e Ubiratã contava (sempre rindo muito alto como um papagaio-do-peito-roxo) que na última festa bebera tanto cauim que quase beijara Potira, uma velha que tem seios tão caídos e murchos que às vezes os joga para as costas, de modo a fazer graça para as jovens.

Foi então que Peri avistou uma canoa se aproximando.

Quando o batel chegou à praia, cercamos aqueles homens (acho que podemos chamá-los assim apesar de sua aparência) e ficamos a fitá-los com muita curiosidade. Eram muito pálidos, descoloridos como os doentes, e, para piorar sua figura, alguns tinham pelos no rosto. Além disso estavam muito vestidos, provavelmente por vergonha de suas partes, que devem ser muito feias. Ou pequenas.

Eles começaram então a soltar os mais estranhos grunhidos, que, por mais que nos esforçássemos, não podíamos entender. Tentaram então um contato mais primitivo e nos atiraram um gorro vermelho de presente. Ubiratã jogou-lhes em troca um pequeno cocar, já um tanto velho, mas que os deixou muito contentes. Fizemos ainda mais algumas trocas e, depois de algum tempo, os pálidos entraram na sua canoa e voltaram para o mar.

Enquanto se afastavam, Ubiratã imitava seus gestos e até botou umas folhas no rosto para fazer-se de peludo. Todos rimos muito e Peri quase rolou no chão.

No dia seguinte eles voltaram à praia. Por meio de sinais, conseguiram se fazer entender: queriam água potável. Logo enchemos muitas cabaças e ainda lhes trouxemos alguns côcos. Em retribuição, pedíamos colares e espelhos, e, para nossa surpresa, eles aceitavam a troca com gosto. Vê-se logo que este povo não é dos mais espertos, pois lhe damos coisas que nascem sozinhas na terra e em troca nos devolvem objetos que fazem com o trabalho das próprias mãos. “Espertos como uma anta malhada!”, disse Ubiratã.

Depois deste dia não mais os vimos, mas deixaram um deles entre nós. Agradecemos muito o presente e fizemos grande festa para o que ficou, que chorava muito ao ver seus amigos voltarem para a grande canoa.

Com este homem aprendemos muito sobre os pálidos. Por exemplo, que eles têm a carne macia, mas os pelos do rosto devem ser bem queimados, se não ficam presos entre os dentes.

Muito bons estes portugueses. Espero que nos façam outras visitas.

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