REVISTA GUAIAÓ
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Praia do Góes

Por: Marcos Denari
Fotografia: Marcos Piffer

 

Praia do Góes - Foto de Marcos PIffer - revista GUAIAÓ 05

Lá se foram anos e anos até eu retornar à Praia do Góes. Lembranças da infância me vieram conforme a barca saía da Ponte dos Práticos.

Cerca de quarenta anos atrás, levado pelo eterno aventureiro, meu grande Tio Nilson, lá íamos nós comprar umas varinhas, linha, anzol e uns camarõezinhos na Ponta da Praia para depois pegar a barquinha para o Góes. Andando pelas pedras com um isopor a tiracolo, buscávamos o lugar ideal e ali passávamos o dia todo, pescando, rindo, brincando e curtindo a alegria de ser criança. Sem dizer que ainda sempre pegávamos uns peixinhos para comer no final do dia. Uma aventura e tanto, adorava isso.

Passado todo esse tempo, conforme a barca se aproximava tudo parecia estar da mesma forma, a não ser pelo lugar de desembarque, que mudou. A cor da água ali encostada aos rochedos é de um verde escuro maravilhoso e o frescor do mar já vai dando uma sensação deliciosa de liberdade e Natureza.

Interessante como a poucos metros de Santos, de todo trânsito e de tantos prédios, o Góes ainda resista. Alguns restaurantes se instalaram, o movimento de lanchas, caiaques e mesmo de banhistas aumentou bastante, mas tudo parece do mesmo jeito. Feliz e infelizmente, porque a infraestrutura e o saneamento básico me pareceram ainda precários. Mas nada que um pouco de boa vontade não resolvesse. Afinal, o que é bonito de se ver está do outro lado.

E foi só conseguir uma mesinha no bar do seo Mair para tudo ficar ainda melhor, principalmente quando chegou a cerveja gelada e a primeira leva de posta de peixe frita na farinha de fubá.

“Tá fresquinho, mas não tenho muita coisa hoje não. Acordei tarde para pegar peixe, porque ontem teve um luau aqui que eu preparei e fui deitar quase às seis da manhã…”.

“Luau”?

“É, do pessoal da canoagem. Eles sempre fazem festa aqui”.

Caramba, pensei, será que voltam remando?

Mas nem deu tempo para eu raciocinar direito e minha esposa já soltou:

“Mas que gente doida, passar a noite aqui”???

“É, minha senhora, se combinar a gente prepara tudo. Faz até churrasco”.

“Só gente doida para passar a noite aqui, que nem você, não é Marcos, que dormiu uma vez numa cadeira de praia aqui no Góes? Eu fui embora”.

Nossa, eu quase tinha esquecido desse dia… Foi um churrasco no aniversário do Toca. O pai dele tinha uma casa do lado esquerdo de quem chega na praia do Góes, na beira da praia, e fizemos a festa na areia. Cheguei cedo com as carnes, preparei tudo na cozinha com o Kiko e depois fomos lá para fora churrascar. E ainda, no meio da tarde, chegou o Bianchi e mais um amigo com uns camarões enormes que tinham comprado de um barco no caminho. Passamos no limão, sal e colocamos no espeto. Delícia. Foi um dia maravilhoso, com um baita sol, e a gente não queria ir embora de jeito nenhum. Na última barca, a Fernanda partiu com meu fiel escudeiro Tang, só deixando a sua cadeira para eu dormir.

“Dorme aí, mas amanhã quero te ver em casa antes do almoço, hein”???

“Opa, perfeito, chefinha”.

Mas a maior aventura ainda estava por vir. Claro que o chope acabou no meio da noite e lá fomos nós, com um barquinho inflável, atravessar para Santos buscar mais. No escuro da noite, de barquinho a motor e um barril de chope, eu e o Toca, que imagem. Que dia e que noite.

O visual do Góes é maravilhoso. Um mar verdão, um morro forrado de árvores, barcos e navios passando na nossa cara e a cidade de Santos do outro lado. Indescritível.

A primeira porção de isca de peixe estava ótima. A cerveja, geladíssima, perfeita. E dá-lhe conversa e histórias. E agora, qual o próximo petisco?

“Agora só tem sardinha”.

“Eu odeio sardinha, moço”, rosnou a patroa.

“Mas a senhora vai gostar, a gente faz ela de um jeito que nem o gosto de sardinha a senhora vai sentir”.

E olha que foi a melhor pedida. Até a Fernanda comeu de lamber os beiços. Sardinha frita na farinha de fubá e com um temperinho misterioso. Fantástico.

E dá-lhe gente chegando, lanchas e mais lanchas e tinha até uma mesa com estrangeiros perto da gente.

E aí fiquei pensando: por que será que o turismo na nossa região é tão pobre? Quando a gente viaja de navio, a primeira coisa que queremos é descer e ir para uma praia. Será que as pessoas que vêm a Santos não iriam gostar de passar o dia aqui na praia do Góes? Será que não iria gerar uma renda melhor para estes bares e restaurantes? E o Forte? Será que está em algum roteiro? Até um passeio pelos manguezais e pelo Porto tenho certeza que teria saída. Ou uma caminhada pela Serra do Mar, pelas cachoeiras.

Ou será que teremos que viver eternamente com este serviço de turismo mambembe e mal-estruturado?

A Baía de Santos é linda, nossa orla, nosso jardim, a vista da Ilha Porchat é linda, o Guarujá é lindo, suas praias são maravilhosas.

E a Praia do Góes é uma preciosidade gentilmente criada pela Natureza. Será que o ser humano não consegue aproveitar melhor?

De toda forma, passar o dia na Praia do Góes foi uma grata surpresa. Um passeio que valeu como uma viagem.

Voltei de alma limpa.

Praia do Cóes - revista Guaiaó 05 - Foto Marcos PIffer

O restaurante do seo Mair [à direita na foto] é o que ficava no canto direito da praia, perto do novo atracadouro. Era o único ainda construído em madeira como os antigos ranchos de canoas e enfeitado por esculturas que o seu filho Toco faz. O seo Mair nasceu na Praia do Góes e trabalhou como porteiro em Santos. Filho de um ex-combatente da Revolução de 32 era ele mesmo quem pescava, limpava, temperava e fritava as porções de peixe que eram servidas pelo seu ajudante Bigode [à esquerda na foto]. Contou que a ideia de empanar os peixes na farinha de fubá foi do pai, e que ela mantém o gosto natural do peixe, além de não escurecer nem soltar depois de frita. Com grande pesar esta nota foi reescrita, pois o seo Mair veio a falecer em 2013 um mês após a publicação deste texto.

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