REVISTA GUAIAÓ
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[ Cinecidade ]

A CIVILIZAÇÃO É UM DESASTRE EM ORDEM…

Por: Flávio Viegas Amoreira
Arte: Paulo von Poser

Fitzcarraldo - Arte de Paulo von Poser - revista Guaiaó 05

 

 

Civilização, um conceito ambíguo e perigoso quando se torna imposição e sinônimo de sabedoria. O grande embate de nossos tempos é justamente a sobrevivência pela sabedoria ou a catástrofe: o ideal de progresso tem sido o maior vetor dessa segunda perspectiva. Sabedoria aqui eu trato como ‘ecologia do espírito’: supressão do excesso da razão em detrimento da poesia, multiculturalismo amplificando nosso entendimento da Vida e preservação da Terra como possibilidade afirmativa.

Noto que o senso de emergência, uma ansiedade ‘finalista’, tem posto a pique um traço que se perde: o desejo dum porvir. Viver é o que se ‘consome’, não o que se sente e projeta: uma autofagia coletiva me lança ao proverbial senso de que mais do que nunca “estamos todos no mesmo barco” adernando num liame apocalíptico entre utopia e corrosão.

Quando revi “Fitzcarraldo”, primeiro refleti como alguns filmes exigem de nós maturidade: rever é, no mais das vezes, germinar outras luzes impercebidas em nossa percepção. Com maior agudeza, notei que a obra-prima de Werner Herzog, longe de ser datada, cresceu e tornou-se mais contemporânea do que quando estreada.

Procuro assistir a algumas fitas como breviário de pontes com outras artes e alavanca para a filosofia, e duas correntes do pensamento me vieram num rompante quase gêmeo aessa saga do “Ludwig II” da Amazônia: Thoreau e Freud.

A maioria dos homens, mesmo em nome de uma falso desenvolvimento, vive tão ocupada em destruir que se esquece que o único prazer original seria colher os melhores frutos, assim posso traduzir a essência do “Walden” ao combater o mercantilismo insano e o conhecimento sem mítica.

Fitzcarraldo é um anti-herói angustiado entre a estupidez do lucro e a quebra da sacralidade dos povos da mata por um elitismo estético legítimo, mas ‘desumanizante’. Klaus Kinski, não poderia ser outro o ator! E nosso José Lewgoy repetia que a truculência dos senhores de engenho não poderiam inspirar melhor seu personagem predador: Herzog erigiu uma metáfora poderosa da tentativa de aculturamento a todo custo, como transplantar o deus Wotan para os seringais de Macunaíma.

Desde a direção ao roteiro há um desnorteamento calculado: como se Mick Jagger protagonizasse Verdi. Assim como a sociedade descrita por Freud em “O Mal-Estar na Civilização” disseca essas pulsões coletivas a partir de ambições díspares: “a civilização constitui um processo a serviço de Eros e a Morte, entre o instinto de vida e o instinto de destruição”.

Fitzcarraldo é a contraface plástica e ideológica da economia pela hecatombe: o desmatamento sustentado por mármore em troca da borracha usada como combustível de escala ‘fordiana’ de degradação. O arcabouço dessa epopeia selvagem contra o nativo encantado e intocado é termo  muito atual: o mega, o obsessivo verticalizante, o compulsional desvario por um conforto desprovido de serenidade original. A selvageria imperialista travestida pela falácia da superioridade e a eliminação pelo que Nietzsche codifica como esforço de “gladiadores moribundos e porcos contentes” que “fizeram do lobo o cão e do próprio homem o melhor animal doméstico do homem”.

Fitzcarraldo é encarnação do romantismo civilizacional numa atmosfera tão nefasta de truculência como a insensibilidade do capitalista que ele nega, mas reproduz na imposição dum padrão exógeno ao Éden intocado e à poesia ancestral dos povos da floresta em comunhão com os espíritos do rio…

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