REVISTA GUAIAÓ
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Vá embora daqui coisa ruim, deixa cantar o Tom Jobim

Por: Julinho Bittencourt
Fotografia: Marcos Piffer

 

Periquito verde - Revista Guaiaó 05

Tom Jobim já falava em ecologia muito antes de conhecer o termo e, sobretudo, bem antes do tema virar moda entre artistas, intelectuais e cientistas. Já amava os pássaros, as matas e as gentes muito antes disso tudo ser considerado essencial: “A minha música deve muito às árvores, às montanhas, ao mar, à costa, aos pássaros e, naturalmente, não podemos esquecer, à mulher brasileira, que também faz parte da ecologia. É um animal natural, como o homem. Tudo isso é um grande estímulo pra escrever música. Pra sentar de manhã, ver o sol e achar que a vida é bonita. Que é um troço que vale à pena ser vivido”, disse certa vez o compositor.

A partir disso, a rigor pode-se dizer que toda a sua obra é uma preocupação e, sobretudo, um grande deslumbramento com o meio ambiente. Há, no entanto, um momento em que o compositor rompe com alguns próprios paradigmas e, como todo grande artista, se reinventa. E este novo Jobim surge, em 1972, com o lançamento de “Águas de Março”.

A canção, chamada por Chico Buarque do “samba mais bonito do mundo” é, de fato, um espanto de beleza e construção. Nela, significado e significando, forma e conteúdo são perfeitamente encaixados. As frases melódicas repetidas dialogam intermitentemente com as construções do verbo ser na primeira pessoa do singular (É pau, é pedra, é o fim do caminho…) e no refrão no plural (São as águas de março fechando o verão, é promessa de vida no meu coração). Tudo se dá alternando elementos da natureza em transformação com coisas cotidianas (É o carro enguiçado, é a lama, é a lama), elementos da cultura e mitos brasileiros (Festa da cumeeira, a garrafa de cana, Caingá Candeia, o Matita Pereira). Naquele momento, a canção popular brasileira fazia o seu primeiro hino de devoção e integração do homem com o meio ambiente.

Deste momento da sua carreira para frente, Jobim transforma completamente a sua música. Assume e integra à sua obra a vasta influência de Villa-Lobos e passa a compor quase como um autor erudito, com canções longas repletas de interlúdios instrumentais, contrapontos e vozes. Sobre o próprio Villa, diz que consegue identificar nas frases do seu mestre qual passarinho ele está imitando.

Soma a isto, com o auxílio do poeta, letrista e compositor Paulo César Pinheiro, outra obra-prima que dá nome ao mesmo álbum em que grava “Águas de Março”. A canção “Matita Pereira”, por encomenda do próprio Tom, tem a linguagem de Guimarães Rosa, de Sagarana e Grande Sertão. Sua forma sinfônica é densa, seus caminhos e passagens longos e imprevisíveis, com alternâncias de tempos e imagens deslumbrantes. Mais uma vez ali o homem, o meio e seu tempo.

Sua aventura, no entanto, estava apenas recomeçando. Tom Jobim já era, neste momento de sua vida e carreira, o maior compositor popular brasileiro de todos os tempos e não tinha mais nada a provar a ninguém. Mas, conforme confidenciou à sua irmã e biógrafa Helena Jobim, tinha medo de acabar com oitenta anos tocando “Garota de Ipanema” em um circo de interior e sendo vaiado. Sua paixão pelas matas e bichos continuou a nos dar canções emblemáticas por praticamente todos os seus discos seguintes. Além da regravação de “Águas de Março”, o seu disco em parceria com Elis Regina, de 1974, rendeu ainda a magnífica “Chovendo na Roseira”, um lindo e delicado retrato da natureza.

Na capa de “Urubu”, seu novo lançamento de 1975, uma foto de um lindo espécime da ave seguida de um texto entre poético e científico apresenta o animal. No álbum, gravado em Nova Iorque, com arranjos do alemão Claus Ogerman, mais duas obras-primas tratam diretamente do tema: “Bôto”, composta a partir do refrão de “Do Pilá”, canção de 1938 de Jararaca (citado por Jobim como parceiro), Zé do Bambo e Augusto Calheiros, e “Correnteza”, em parceria com o violonista Luís Bonfá. Mais uma vez Tom mistura elementos da flora e da fauna brasileira com mitos e lendas do nosso folclore, numa riqueza de signos e sons jamais vista antes em nossa canção popular.

Daí para frente, Tom viaja muito com a sua Banda Nova, o que lhe tira a energia para fazer álbuns com canções inéditas. Apenas em 1987 aparece um disco com canções novas e relevantes. “Passarim” vem depois das trilhas da série “O Tempo e o Vento”, da Rede Globo, e do filme “Gabriela”, de Bruno Barreto. A própria canção “Passarim” é o tema de “O Tempo e o Vento”, com uma letra comprometida com a militância ecológica de Tom: “Passarim quis pousar não deu voou, porque o tiro partiu, mas não pegou, Passarim me conta então me diz por que é que eu também não fui feliz”.

Desta vez, Tom confunde propositalmente a devastação da Natureza com as supostas mazelas afetivas. Em “Gabriela”, graciosa canção repleta de referências culturais brasileiras, bem ao gosto do famoso romance de Jorge Amado, o amor e o meio explodem em cores nos sons do maestro, num imenso atestado de brasilidade e beleza: “Vim do norte, vim de longe, de um lugar que já não há… Meu cheiro é de cravo, minha cor de canela, a minha bandeira é verde e amarela, pimenta de cheiro, cebola em rodela, um beijo na boca, feijão na panela… Gabriela”.

Na canção “Borzeguim”, Tom é, de certa forma, definitivo. O termo acusa o caçador ruim, aquele que devasta, destrói a Natureza, as árvores e os animais. De um jeito agressivo, pouco usual em toda a sua obra, a letra da canção roga por outro método: “Deixa o tatu-bola no lugar
Deixa a capivara atravessar, Deixa a anta cruzar o ribeirão, Deixa o índio vivo no sertão, Deixa o índio vivo nu, Deixa o índio vivo, Deixa o índio, Deixa, deixa, Escuta o mato crescendo em paz, Escuta o mato crescendo, Escuta o mato, Escuta”.

Escutar o mato, o tiro que não pegou no Passarim, sai daqui coisa ruim. Tom, ao dialogar com a nossa fauna e flora de forma tão direta, nos ensinou a amar um Brasil imprescindível e, até então, invisível aos novos tempos.

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