REVISTA GUAIAÓ
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[ A praia e eu ]

O Alasca é aqui!

Por:  Marcus Vinicius Batista
Fotografia: Marcos Piffer

 

Thaís Fernandes - Perfil - revista Guaiaó 05


Quando pensam em cinema, pessoas comuns sonham em estar na pele dos personagens preferidos. Quando respiram cinema, pessoas incomuns transportam o filme para suas histórias. Thaís Fernandes poderia ser a versão feminina de Chris McCandless, o jovem de “Na Natureza Selvagem”, dirigido por Sean Penn, mas incorporou a essência do filme ao próprio roteiro de vida.

O primeiro sinal está na coxa direita dela. É uma das oito marcas que contam cenas da trajetória desta mulher que saiu do Brasil aos 26 anos para aperfeiçoar o inglês. As letras esculpidas na pele indicam que fronteiras são meras descrições em mapas de viagem.

Após cinco anos na Austrália e mochilão pela Ásia e Europa, Thaís sossegou por um mês na Argentina. Ficou na casa de familiares de Quilmes Romina, amiga que vive na Oceania. Em terras portenhas, Thaís não resistiu às lições de McCandless. Resumiu sua forma de ver o mundo na oitava tatuagem: “rather than love, than faith, than fairness, give me the true”. A frase, do escritor Henry David Thoreau, pode ser traduzida como: “melhor do que o amor, do que a fé, do que a justiça, me dê a verdade”.

A tatuagem, porém, foi editada. A palavra dinheiro sumiu da versão original por ser figurante no modo de vida dela. Todos na família têm tatuagens. Thaís fez a primeira aos 18 anos, o nome dos pais em japonês.

Thaís descobriu há cinco anos – assim como McCandless – que precisava procurar seu próprio Alasca. Quando encontrou o paraíso, já estava viciada na vida solitária na estrada. “No Brasil, o ônibus é minha cama”. Poucas vezes viajou acompanhada. A rota pela Ásia foi feita sozinha. “Minha companhia é muito boa”.

No Vietnã, hospedou-se em um albergue com 26 rapazes. O único obstáculo foi a infecção intestinal que pegou no Cambodja. “Fui para o hospital de mototáxi. Fiquei três dias internada”.

Thaís, hoje com 31 anos, alimenta uma certeza: a Austrália é o Alasca dela. O endereço é Cottesloe, com 200 mil habitantes, onde morou por três anos e meio. Lá estudou e para se manter, fez faxina, lavou louça e trabalhou como garçonete. “Tenho mais amigos lá do que aqui”.

Uma semana antes de deixar a Austrália, conheceu um novo personagem. O casamento com o mar se deu via prancha de três metros de comprimento e remo. Quando chegou ao Brasil, Thaís usou uma prancha emprestada por três meses, até comprar a sua, azul e roxa.

Remar é também um ato quase solitário. Mas a prancha pode ser um palco flutuante, com repertório de Bob Marley a Djavan. No início do ano, cruzou com um senhor num caiaque. “Você fala sozinha?” Thaís respondeu que cantava. O senhor repetiu o clichê de quem canta os males espanta.

Formada em Direito e Marketing, Thaís trabalha hoje como agente de carga em Santos. O stand-up paddle é o passaporte para flertar com a Natureza selvagem, pelo menos três vezes por semana. Como um longa-metragem, as sessões terapêuticas duram três horas. São viagens a outros paraísos ao redor: a praia do Sangava, Ilha das Palmas, Saco do Major, Ilha de Urubuqueçaba. “É da água que eu apreendo paz de espírito”.

No cinema, onde a tela é o horizonte, o mar interpreta o desfecho para esta mulher que adora reprisar os capítulos de intimidade com a Natureza. Sem este roteiro, o corpo e a mente reclamariam do final trágico, protagonizado pelo mau-humor. “Aí, nem eu me suporto. Sou 2 mil volts”.

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