REVISTA GUAIAÓ
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Hans Staden e as baleias

Por: Gino Caldatto
Fotografia: Marcos Piffer

Armação das baleias, Guarujá - Foto Marcos Piffer - revista Guaiaó 05

 Foi-se o tempo em que as baleias habitavam o mar da Baixada Santista. Chegavam regularmente em grande número buscando águas mansas da região. Procriação e aleitamento de filhotes condicionava certa permanência duradoura junto do estuário em dimensão impensável para os dias atuais. Morgado de Mateus, Governador da Província de São Paulo, em 1766 afirmou ter visto na praia do Góes mais de vinte cetáceos juntos.

Abundante na costa brasileira, o maior ser do mar teve cruel destino na medida em que seus derivados se tornaram gêneros de primeira necessidade. Visando atender a demanda, em princípios do século XVII, o governo português fomentou empreendimentos denominados “Armação de Baleias”, instalações semi-industriais destinadas à pesca do cetáceo e processamentos de seus produtos.

Na Baixada Santista, a ”Armação da Bertioga“ foi a principal da região. Localizado próximo à boca do Canal da Bertioga, na Ilha de Santo Amaro, hoje Guarujá, o local definido agregava elementos determinantes para o êxito do negócio. Além da presença de baleias, a encosta montanhosa abastecia a feitoria com água potável e lenha para alimentar fornos e construir embarcações. Confiava proteção aos fortes São Felipe e São João e gozava da proximidade com o Porto de Santos.

Construída em 1748 sobre vestígios da primeira fortificação onde residiu e foi capturado o aventureiro Hans Staden mais de 200 anos antes, a Armação da Bertioga em pouco tempo recebeu sucessivos investimentos que lhe permitiram otimizar consideravelmente a produção. O inventário da propriedade, organizado em 1789, revela a real dimensão das benfeitorias alcançadas em décadas de atividade. Arrolava a existência de armazéns diversos, caldeiras, casas de engenho, tanques de azeite, residências para feitores e baleeiros, senzalas, cais de pedra, entre numerosos bens que compunham o vasto patrimônio fabril.

A produção não seria auspiciosa para sempre. Padeceu a partir do final do século XVIII até cessar em definitivo nas primeiras décadas do século seguinte. A pesca predatória, denunciada por José Bonifácio de Andrada e Silva, foi um dos motivos da substancial redução das safras. O “Patriarca da Independência” apontou práticas desumanas na “arte de pescar“ ao promover sacrifício aos “baleotes de mama” para facilitar o arpoamento da mãe, causando relação destrutiva inexorável às baleias que geram apenas um filhote a cada dois anos.

Do conjunto edificado se destaca a velha ermida feita na segunda metade do século XVIII em alvenaria de pedra, único exemplar de toda “Armação” que atualmente permanece reconhecível. Todo o restante sucumbiu ao tempo.

O leitor deve se perguntar onde Hans Staden entra nesta história. Na iminência de ser tratado como baleia pelos tupinambás, a Staden restou buscar sossego bem longe daqui.

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